Expresso

Como conspirações podem poluir o debate público nas redes

Cesar Gaglioni

14 de junho de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h48)

Ideia fantasiosa sobre cidade de 450 milhões de anos perdida na Amazônia ganhou força nas plataformas digitais, ofuscando outras conversas

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FOTO: REPRODUÇÃO/YOUTUBE

Imagem que crédulos usam para tentar ilustrar onde seria Ratanabá, objeto central de ideia fantasiosa difundida nas redes

Imagem que crédulos usam para tentar ilustrar onde seria Ratanabá, objeto central de ideia fantasiosa difundida nas redes

Paralelamente ao desaparecimento do jornalista britânico Dom Philips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira na região amazônica no início de junho, as redes sociais no Brasil começaram a se engajar na ideia fantasiosa da existência de uma cidade chamada Ratanabá, que teria 450 milhões de anos e, após abrigar uma grande civilização, teria sido soterrada sob a floresta.

A teoria conspiratória absurda – afinal 450 milhões de anos atrás nem a humanidade nem sequer os dinossauros existiam – seria apenas uma brincadeira divertida não fosse o fato de que há pessoas que levam a sério a história. Elas associam, inclusive, o interesse internacional na Amazônia, de governos estrangeiros a ONGs, à tentativa de descoberta da cidade perdida onde haveria muito ouro. No Twitter e no TikTok, publicações sobre o tema cresceram no número de comentários e compartilhamentos.

A conversa amalucada é antiga, mas ganhou força após a participação do ator Sandro Rocha (“Tropa de Elite 2”) no podcastCara a Tapa, do blogueiro Rica Perrone, no fim de maio. Rocha leva a ideia fantasiosa a sério. Um dos principais divulgadores da história é o ufólogo e terraplanista Urandir Fernandes, que em 2010 ganhou notoriedade por criar o ET Bilu , um extraterreste que alegadamente tinha feito contato com ele. O personagem apareceu em reportagem da TV Record e virou meme na ocasião.

Com os dois assuntos correndo paralelamente, pesquisadores de desinformação na internet passaram a alertar para o fato de que Ratanabá estaria poluindo a conversa nas redes acerca do desaparecimento de Dom e Bruno, bem como outras questões reais relativas à Amazônia. Neste texto, o Nexo explica como teorias da conspiração prejudicam o debate público.

Cidade perdida de mentirinha. E a cidade real

A teoria conspiratória sobre Ratanabá diz que há uma cidade gigantesca – maior que São Paulo, principal metrópole do país – soterrada embaixo da floresta amazônica há 450 milhões de anos, e que nela há um tesouro avaliado em R$ 200 trilhões em metais preciosos – mais de 10 vezes o PIB (Produto Interno Bruto) do país em 2020.

Os adeptos da ideia fantasiosa de Ratanabá dizem que há um suposto plano da elite global para explorar o tesouro, e que por isso o governo brasileiro deve lançar expedições para conseguir encontrar a cidade antes que seja tarde. A teoria da conspiração ignora o fato de que a biologia evolutiva e a arqueologia já mostraram que os primeiros hominídeos surgiram há cerca de 2,5 milhões de anos.

Além disso, algumas versões da história de Ratanabá dizem que a cidade foi parcialmente construída por alienígenas – retomando elementos de outra teoria conspiratória, a dos Alienígenas do Passado, que credita a extraterrestres a construção de grandes monumentos como as pirâmides do Egito.

A ideia dos Alienígenas do Passado, além de não ter lastro na realidade, traz consigo um cunho racista, já que assume que nenhuma civilização fora da Europa seria capaz de construções grandiosas e com uma preocupação estética apurada.

O cenário de confusão e de buscas pela história de Ratanabá aumentou já que, no momento da participação de Sandro Rocha no podcast, a revista científica Nature tinha acabado de publicar um estudo descrevendo a descoberta de pequenas cidades perdidas na porção boliviana na Amazônia, construídas pela cultura Casarabe , que habitou a região entre 500 e 1.400 d.C. Nelas, havia pirâmides – reais – que chegavam a 22 metros de altura.

Misturando a conspiração com as descobertas reais, a narrativa de Ratanabá acabou ganhando cada vez mais força nas redes, sendo repercutida por influenciadores digitais e páginas de fofoca.

A poluição do algoritmo. E do debate público

As conversas sobre o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira e a conspiração de Ratanabá têm um ponto em comum: os dois assuntos – um que expõe uma realidade trágica e outro que mostra a capacidade de pessoas acreditarem nas coisas mais absurdas – envolvem a Amazônia.

Para a jornalista e pesquisadora Cecília do Lago, que já passou por órgãos de imprensa como CNN Brasil e O Estado de S.Paulo, o interesse em Ratanabá acaba poluindo o algoritmo das redes sociais, e, consequentemente, o debate acerca da busca pelos dois desaparecidos no Vale do Javari, próximo à fronteira com o Peru.

“O único motivo dessa sandice de ‘civilização amazônica de não sei quanto milhões de anos’ estar bombando nas redes sociais é para distorcer os algoritmos e poluir a agregação de temas sobre Amazônia para impedir a circulação da conversa digital sobre o sumiço do Bruno e Dom”, escreveu no Twitter na segunda-feira (13).

Análise feita pelo Nexo com a ferramenta Tweet Binder mostrou que as mensagens publicadas sobre Ratanabá na plataforma tiveram um alcance 11,2% maior do que aqueles que tratavam do desaparecimento de Dom e Bruno.

No Google Brasil, as pesquisas relacionadas à Amazônia e Ratanabá foram 16% maiores do que as buscas sobre a Amazônia e o desaparecimento de Dom e Bruno, segundo análise feita pelo Nexo com a ferramenta Trends.

Os algoritmos das redes sociais funcionam a partir de dados numéricos sobre o interesse dos usuários por determinado assunto. Os dois tópicos, apesar de muito diferentes, trazem a Amazônia como foco.

Como as publicações sobre Ratanabá têm muito mais engajamento do que aquelas sobre o desaparecimento, o algoritmo entende que a maior parte dos usuários que se interessa por conteúdos relacionados à Amazônia querem saber mais da suposta cidade perdida do que sobre as buscas e as discussões acerca do jornalista e do indigenista.

“Os assuntos do momento são determinados por um algoritmo e, por padrão, são personalizados com base em quem você segue, em seus interesses e em sua localização”, diz explicação do Twitter acerca do algoritmo de recomendação de conteúdo. “Esse algoritmo identifica os tópicos populares da atualidade, em vez de tópicos que já foram populares por algum tempo ou diariamente. Assim, você pode descobrir os tópicos que estão em discussão no Twitter no momento”, afirma a plataforma.

“Para Você é um feed personalizado de vídeos baseado nos interesses e interações do usuário. O TikTok tem uma grande variedade de conteúdo e queremos mostrar os vídeos mais interessantes e relevantes para nossos usuários”, diz página institucional do TikTok.

Os algoritmos das redes sociais, por si só, não são capazes de entender contextos e outras nuances de uma conversa. Eles funcionam a partir de fatores numéricos. Por isso, por mais importante que um tópico seja, ele terá menos alcance do que um outro assunto que está recebendo mais engajamento.

Não se sabe se o impulsionamento da teoria de Ratanabá foi deliberadamente pensado para ofuscar o debate sobre o desaparecimento. O fenômeno, no entanto, aconteceu.

Na visão do historiador Dennis Almeida, apresentador do podcast MidCast, as sandices envolvendo Ratanabá reiteram narrativas racistas que estão nas estruturas da sociedade brasileira.

“Pois, para os que defendem este absurdo, os indígenas não teriam condições por si só de realizarem tais monumentos sem auxílio. Nunca vi falarem que alienígenas ajudaram os romanos, gregos ou europeus medievais na construção de seus palácios, castelos, templos e catedrais”, escreveu para seus 13 mil seguidores no Twitter no dia 11 de junho.

“O outro objetivo era dar uma origem que uma elite branca e racista achasse mais digna para si. Assim, a ‘nobreza’ do império que é a origem de muitas famílias ricas até hoje no Brasil não seria descendentes de indígenas, mas de fenícios, troianos e germânicos.”

“Desinformação que calhava com os interesses desta elite que não suportava não ser branca, não ser tratada como igual pela elite e nobreza europeias. Foi um esforço patético, mas que ainda rende frutos podres até hoje, como ficou evidente na lorota da cidade de Ratanaba.”

De acordo com Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, as conversas sobre Ratanabá seguiram a “apostila” de como a desinformação se propaga.

“O caso de Ratanabá é um exemplo de apostila sobre desinformação porque ele pega uma notícia verdadeira e daí decola”, escreveu no Twitter em 12 de junho. “Sites de fofoca são craques em repercutir conteúdos sem maiores apurações, com títulos chamativos e assuntos populares. O que importa é o clique. Assim vão crescendo a base de seguidores e postando mesmo quando surge um tema que demanda um jornalismo que foge da sua editoria.”

O surgimento da conspiração de Ratanabá se encaixa em algo que o escritor Yuval Harari disse no lançamento do livro “21 lições para o século 21″, de 2018. ” No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século 21, ela o faz inundando as pessoas de informação irrelevante. Não sabemos mais a que prestar atenção e frequentemente passamos o tempo investigando e debatendo questões secundárias. Em tempos antigos ter poder significava ter acesso a dados. Atualmente ter poder significa saber o que ignorar”, disse.

Em casos mais extremos, teorias conspiratórias que ganharam tração no debate público podem incentivar episódios de violência fora das redes. Boa parte dos apoiadores do ex-presidente americano Donald Trump que invadiram o Congresso dos EUA em janeiro de 2021 acreditavam na conspiração do “QAnon” , que dizia que o mundo era governado por uma rede de pedófilos e que Trump seria o único capaz de proteger as crianças do planeta.

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