Expresso

Como Michelle Bolsonaro agrega votos de mulheres evangélicas

Isadora Rupp

08 de agosto de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h39)

Junção entre fala política e religiosa é elemento poderoso do discurso da primeira-dama para convencer grupo que costuma rejeitar presidente, segundo especialistas

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FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS 02.07.2022

Primeira-dama Michelle Bolsonaro sorri e cumprimenta o público no evento evangélico Marcha para Jesus, em Brasília. Ela é uma mulher branca, usa cabelos curtos castanhos, camiseta verde e amarela e sorri

A primeira-dama Michelle Bolsonaro na Marcha para Jesus, em Brasília

A primeira-dama Michelle Bolsonaro tem sido protagonista de eventos religiosos com a participação do marido, Jair Bolsonaro. No domingo (7), discursou após o presidente no culto na Igreja Batista Lagoinha, em Belo Horizonte. Michelle é evangélica.

Na celebração lotada, que marcou os 50 anos de atuação religiosa do pastor Márcio Valadão, a primeira-dama chamou Bolsonaro de “rei do Brasil”. Disse que, antes da gestão do marido, o Palácio do Planalto era consagrado a demônios , e que Bolsonaro é “enviado de Deus”.

O PL, partido do presidente, conseguiu inserir Michelle na campanha após certa resistência por parte dela: o objetivo é reverter a rejeição do público feminino a Bolsonaro, incluindo as evangélicas.

O Nexo analisa abaixo como o discurso da primeira-dama chega às mulheres evangélicas.

A influência de Michelle na campanha

Parte do projeto de aproximação ao público evangélico começou antes de Bolsonaro assumir a Presidência. Em 2016, foi Michelle quem levou o marido a se batizar no Rio Jordão , em Israel, em cerimônia conduzida pelo Pastor Everaldo, presidente do PSC (Partido Social Cristão). Mesmo assim, Bolsonaro se declara católico.

Ex-assessora parlamentar e esposa de Jair Bolsonaro desde 2007, Michelle Bolsonaro teve presença discreta na campanha em 2018, mas seu papel cresceu no governo federal. Uma de suas marcas foi a inclusão de intérpretes de Libras em todos os eventos e vídeos do presidente. A sua identidade religiosa sempre foi conhecida e publicizada.

FOTO: MARCELO CAMARGO/AG. BRASIL – 1.1.2019

Primeira-dama Michelle Bolsonaro

Michelle Bolsonaro discursa em Libras na posse do marido

Recentemente, ela contou que ora no gabinete presidencial às terças-feiras. “Quando o Planalto se fecha, eu entro com meus intercessores e oro na cadeira dele. E eu declaro todos os dias: Jair Messias Bolsonaro é um escolhido de Deus. Não temas”. Também busca suavizar a imagem do marido, conhecido por suas incontáveis declarações machistas, chamando-o de sem-noção com o celular”, ou tecendo elogios à sua aparência.

O envolvimento dela cresceu nos últimos meses dentro da campanha à reeleição do marido – Michelle filiou-se ao Partido Liberal com o objetivo de facilitar a participação em materiais institucionais da legenda. A ideia central é diminuir a rejeição de Bolsonaro entre as mulheres.

54%

do eleitorado feminino não votaria em Bolsonaro no primeiro turno, segundo o Datafolha (TSE BR-01192/2022). A rejeição a Lula é de 33%

Na convenção do PL que oficializou a candidatura do presidente à reeleição, a primeira-dama também trouxe o tom religioso. E declarou que a recondução do marido ao cargo não é um projeto de poder, mas um “propósito de libertação”.

Outro plano do partido com a presença de Michelle é fortalecer o eleitorado evangélico. Pesquisas apontam a consolidação de Bolsonaro neste setor. Levantamento do Datafolha (TSE BR-01192/2022) do final de julho, feito com entrevistas presenciais, mostra que 43% dos evangélicos votam em Bolsonaro, enquanto Lula tem 33%.Levantamento do instituto Poder Data (TSE BR- 08398/2022), realizado entre 31 de julho e 2 de agosto, feito com entrevistas por telefone, mostra Bolsonaro com 62% das intenções de voto entre os evangélicos. Lula tem 22%.

FOTO: RICARDO MORAES /REUTERS 24.07.2022

Jair e Michelle Bolsonaro em convenção do PL: Os dois estão abraçados e ele está com um dos braços levantados. Ambos sorriem. Ele usa uma camisa branca e ela um vestido verde

Jair e Michelle Bolsonaro no lançamento da candidatura do presidente à reeleição

Essa aprovação, no entanto, vem majoritariamente dos homens evangélicos. E o setor é formado predominantemente por mulheres negras – elas respondem por 58% do segmento religioso. Bolsonaro não avança mais neste eleitorado justamente por causa das mulheres evangélicas .

39%

das mulheres evangélicas não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum. A rejeição a Lula é de 45%

De acordo com a pesquisa Datafolha, 29% das evangélicas indicam Bolsonaro como candidato, e 25% escolhem Lula, o que aponta empate técnico, segundo o instituto.

O que atrai no discurso de Michelle

A mistura entre a fala política e a de culto religioso é um dos aspectos apontados pelos especialistas entrevistados pelo Nexo que explicam a eficácia do teor sagrado do discurso de Michelle para as mulheres, o que pode levar evangélicas a darem mais um “voto de confiança” em Bolsonaro. São eles:

  • Vinicius do Valle , doutor em ciência política pela USP (Universidade de São Paulo), diretor do Observatório Evangélico e autor do livro “Entre a Religião e o Lulismo” (Editora Recriar)
  • Jacqueline Moraes Teixeira , professora do Departamento de Sociologia da UnB (Universidade de Brasília) e pesquisadora do Cebrap e do Iser (Instituto de Estudos da Religião)

Michelle fala com as mulheres no geral, ou apenas com as mulheres evangélicas?

Vinicius do Valle Michelle fala focada para mulheres evangélicas, que é um grupo enorme e integra a maior parte das igrejas. A primeira-dama era vista como afastada e discreta, até ausente para quem a criticava. Ela se volta para esse eleitorado evangélico, que tem nela uma referência. Michelle fala a língua com o jeito dos evangélicos, e isso tem um impacto muito forte. Não dá para qualquer candidato fazer o que ela faz, porque ela realmente é evangélica e está introduzida nesse meio.

Ela tem todos os jeitos, a prosódia, a indumentária, uma construção que gira em torno do perfil evangélico. O que ela fez no fim de semana na Igreja da Lagoinha foi justamente se apresentar dessa forma, o que é bastante significativo. Em certo sentido, você não sabia se aquela era uma fala política, ou se fazia parte do culto. E é aí que está o poder dela. As duas coisas se misturam. Ela encarnou o religioso para falar do político de uma forma que é muito rara de ver, com essa performance avivada, como se estivesse falando dentro de um transe espiritual, que está dentro da teologia pentecostal.

Michelle conecta mulheres evangélicas que estão afastadas do governo por acreditar que o que aconteceu na pandemia de covid-19 foi complicado, que Bolsonaro tem um jeito chucro e não tem uma conduta cristã. E aí ela chega e o coloca como um veículo de Jesus no Planalto e pega essas eleitoras de 2018 que se afastaram, mas ainda estão em um raio de alcance de falas como a dela.

Com mulheres não evangélicas não acho que seja relevante. Em certo sentido, pode até gerar reações: Michelle pode ser vista como uma pessoa fanática, existe essa pecha também. E ela usa esse discurso da perseguição, o que acaba fazendo um clima quase de transe religioso nesses espaços.

Jacqueline Teixeira Acredito que Michelle fale para mulheres cristãs, considerando as evangélicas e as católicas do segmento carismático e conservador. O seu histórico de mulher evangélica de conversão, e não por ser filha de pastor, por exemplo, traz na trajetória a imagem de uma mulher que teve lutas e dificuldades. E que a aproximação com a igreja transformou a vida dela.

Como Michelle, desde antes do primeiro mandato, era conhecida como a esposa evangélica de um político que não é evangélico, ela se tornou a pessoa que assumiria os compromissos diante de Deus para esse público. Tudo o que Michelle faz está atravessado pelo religioso.

Por isso, cenas dela envolvida em situações como falando em línguas na nomeação do André Mendonça [ministro do STF], por exemplo, a colocam o tempo todo como uma mulher evangélica que concentra sua atuação em garantir a aliança com essa população.

Sempre dizemos que os evangélicos são uma população plural. Mas este público, que em 2018 foi fundamental para a eleição, é majoritariamente feminino. E não se reconhece como bolsonarista: não se engaja nas políticas armamentistas e é sensível ao Estado garantir políticas públicas. Michelle aparece na sustentação desse compromisso ético. E ela vai tentar fazer com que esse voto feminino evangélico, capaz de definir a eleição, se decida por Bolsonaro.

Qual a tração do discurso da primeira-dama? E o que “pega” nessa retórica que o discurso lulista não “pega”?

Vinicius do Valle Para a esquerda, já tem a dificuldade de ter que fazer mediação do discurso que aproxima religiosos, problema que a direita não tem. Para além disso, a fala da Michelle é dentro da performance evangélica, que leva a esse avivamento afetivo para a política. Lula tem um discurso propriamente político, pautado na questão social, pobreza, desemprego, economia. Ele é muito forte fazendo isso, e tem eco entre mulheres negras, evangélicas e periféricas por causa disso. A Michelle traz o elemento pentecostal e com forte carga emocional para a disputa eleitoral, que em certo sentido se afasta da discussão política tradicional.

Isso pega com evangélicos e evangélicas em geral porque ela traduziu a linguagem política para a religiosa. A fala da primeira-dama é diferente das que ocorrem dentro de igrejas em geral, e que eu já acompanhei: quando os candidatos chegam, são apresentados pelos pastores, agradecem, falam uma mensagem e vão embora. Michelle é alguém de dentro, e com toda uma performance religiosa.

A esquerda não pode fazer isso, e acessa pela via econômica. Parte da eleição de 2022 vai se dar nesse jogo: qual será a agenda pública? A pauta econômica ou moral? Se for moral, Bolsonaro leva vantagem. Se for econômica ou avaliação do governo, Lula leva vantagem. Estamos no meio desse jogo.

Jacqueline Teixeira Michelle apresenta uma sinalização e aliança entre o governo Bolsonaro e o eleitorado evangélico feminino. Ela sempre ocupou essa trajetória de mulher pentecostal, que dignifica a liderança do marido. Nos últimos quatro anos, existe a percepção de que o presidente é limitado, tem uma postura falha, é alguém sem paciência. Mas: o compromisso de dignificar essa posição é estabelecido pela posição da mulher virtuosa bíblica, que é a Michelle. É uma imagem que começou a circular logo depois da posse de Bolsonaro em 2019, com o discurso dela em Libras. Todo esse processo, de alguma maneira, traz a sensação de que ela é uma mulher colocada numa posição de poder que garante que esse homem [Bolsonaro] desempenhe uma boa liderança.

Existe a sensação de que o voto de confiança das evangélicas é nela, e não em Bolsonaro. Quem ainda não fechou esse voto fará esse cálculo. Por isso, a posição dela nesse pleito eleitoral é fundamental.

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