Expresso

Como o investimento na primeira infância afeta a sociedade toda

Fredy Alexandrakis

12 de agosto de 2022(atualizado 06/02/2024 às 10h59)

Estudos indicam que programas voltados ao período do nascimento aos 6 anos de idade contribuem para o desenvolvimento da criança e trazem retornos de curto e longo prazo em diversas áreas

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FOTO: AMANDA PEROBELLI/REUTERS

Imagem de cima, mostra duas crianças negras e de cabelos escuros sentadas numa mesa mexendo com peças de letras e um tabuleiro coloridos

Crianças em projeto de reforço escolar para recuperar déficit de ensino durante a pandemia, em escola de São Paulo

A primeira infância, período do nascimento aos seis anos de idade, é vista na neurociência como um momento crucial para o desenvolvimento do cérebro humano. O ambiente em que uma criança está inserida e os estímulos que ela recebe nessa faixa etária têm consequências importantes, que são sentidas por toda a sua vida.

Por isso, pesquisas na área da educação infantil sugerem que o investimento em programas voltados à primeira infância é estratégico: tem relativo baixo custo, e garante amplos retornos à sociedade no curto e longo prazo ao reduzir taxas de criminalidade e evasão escolar, melhorar o desempenho acadêmico e profissional, reduzir gastos com assistência social e Justiça penal, entre outros.

Neste texto, o Nexo apresenta alguns dos estudos e políticas públicas que demonstraram a importância do trabalho de creches, pré-escolas e famílias no cuidado com crianças de até seis anos.

O experimento Perry Preschool

Um dos pesquisadores que trouxe notoriedade à importância dos investimentos na primeira infância é o economista americano James Heckman. Antes de se tornar uma referência na área da educação infantil, ele foi premiado com o Nobel da Economia ao lado de Daniel McFadden por seus estudos em microeconomia, no ano 2000.

Heckman é conhecido por sua análise dos resultados do Perry Preschool Project , uma pesquisa realizada na cidade americana de Ypslanti, no estado de Michigan, entre 1962 e 1967. O experimento dividiu aleatoriamente em dois grupos 123 crianças com fatores de risco que poderiam prejudicar o desempenho escolar. As 58 crianças do primeiro grupo receberam uma educação de alta qualidade, enquanto outras 65, do grupo controle, não receberam ensino pré-escolar.

Segundo o economista, por muito tempo o consenso entre os pesquisadores era de que o experimento havia falhado, porque os participantes de ambos os grupos tinham pontuações parecidas no teste de QI (quociente de inteligência). Ao avaliar outros fatores, Heckman percebeu que os indivíduos que frequentaram a pré-escola tinham:

  • Maior probabilidade de completar o ensino médio, ter um emprego (com renda maior), ter carro e imóvel próprios
  • Menor probabilidade de engravidar na adolescência e cometer crimes

Em 2019, um novo levantamento mostrou um quadro semelhante entre os filhos dos participantes do estudo original, indicando que os impactos da educação na primeira infância podem perdurar por várias gerações.

Heckman calculou que o investimento na educação das crianças que participaram do Perry Preschool Project proporcionou um retorno anual de 7% a 10% à sociedade, “com base no aumento da escolaridade e do desempenho profissional, além da redução dos custos com reforço escolar, saúde e gastos do sistema de Justiça penal”.

Outros casos

Jamaica Home Visit Intervention

Heckman também estudou os resultados de uma intervenção realizada na Jamaica pela Universidade das Índias Ocidentais entre 1986 e 1988. Crianças de 9 a 24 meses de idade, com atrasos no crescimento, foram divididas em quatro grupos: o primeiro recebeu estimulação psicossocial; o segundo, suplementos nutricionais; o terceiro, ambos os suplementos e a estimulação; e o quarto, de controle, não recebeu nada. Os dois grupos que receberam educação na infância tiveram resultados similarmente positivos, enquanto o grupo que recebeu apenas suplementos nutricionais não mostrou melhorias nos fatores analisados. O modelo de atendimento domiciliar usado na intervenção inspirou a iniciativa Reach Up , que depois foi adaptada e aplicada em Bangladesh e na Colômbia e transformada em uma política pública no Peru.

Chicago Child-Parent Center

Um estudo longitudinal iniciado em 1986 avaliou os efeitos dos Child-Parent Centers, um programa educacional implementado nas escolas públicas da cidade de Chicago, nos EUA. Análises de custo-benefício apontam que, para cada dólar investido na parte de pré-escola do programa, há um retorno de US$ 10,83 em benefícios sociais, “principalmente por meio da redução da criminalidade e aumento da renda e pagamento de impostos”.

Carolina Abecedarian Project

O Carolina Abecedarian Project foi outro experimento controlado, realizado entre 1972 e 1977, no estado da Carolina do Norte, nos EUA. Crianças identificadas como de “alto risco” (por fatores como nível de escolaridade das mães e renda familiar) foram divididas entre um grupo que recebeu educação de alta qualidade e um grupo controle, que recebeu apenas suplementação nutricional e atendimento de saúde. Aos 30 anos de idade, os participantes que receberam a educação pré-escolar tinham mais chances de terem completado o ensino superior e de estarem empregados, e menos chances de receberem assistência social.

A pesquisa da área no Brasil

O Cpapi (Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância) foi criado em 2021 pelo Insper com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). O objetivo do centro é produzir evidências científicas que sirvam de base para políticas públicas voltadas ao desenvolvimento infantil. Ele faz parte do Núcleo Ciência pela Infância, que reúne seis organizações engajadas com essa temática, entre elas a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

As atividades do Cpapi envolvem a promoção de mecanismos de medição do desenvolvimento das crianças; estudo de fatores de risco; e avaliação do resultado de intervenções com impacto positivo reconhecido, como programas relacionados à parentalidade e à formação de profissionais que trabalham com a primeira infância.

No Brasil, um desses programas é o Criança Feliz , que envolve visitas domiciliares para apoiar famílias com crianças de até seis anos de idade, facilitando o acesso a serviços de saúde, educação, assistência social, cultura e direitos humanos. Segundo o Ministério da Cidadania, é o maior programa nesse formato do mundo, com 46 milhões de visitas realizadas e 1,3 milhão de pessoas assistidas em 2021.

Para Naercio Menezes Filho, diretor do Cpapi, faltam dados para traçar um perfil das crianças brasileiras. “A gente não sabe se o desenvolvimento infantil no país está bom ou ruim”, disse ao Jornal da USP. “Na educação, temos o Ideb, que mede o aprendizado e o fluxo escolar (…) Mas as pessoas, em geral, não sabem sequer se a criança está se desenvolvendo adequadamente. As mães aprendem na prática”.

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