O aumento de problemas de visão em crianças na pandemia
Lucas Zacari
13 de janeiro de 2023(atualizado 06/02/2024 às 10h58)Uso de telas e falta de exposição à luz solar ampliou diagnósticos de miopia e outros distúrbios oculares entre os mais novos. Especialistas indicam como prevenir problemas
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Médica fazendo exame de vista em criança
Os casos de miopia em crianças e adolescentes na cidade de São Paulo cresceram 134% entre 2019 e 2022, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Os dados refletem uma tendência, notada também em outros países, do aumento de problemas de visão entre os mais jovens durante a pandemia de covid-19.
A necessidade de isolamento social deslocou boa parte das atividades para dentro de casa, intensificando tendências que já são comuns no ambiente urbano, como a falta de exposição ao sol e o uso massivo de telas . Para especialistas, os efeitos mais agudos desse fenômeno estão aparecendo agora.
Neste texto, o Nexo mostra como o isolamento social provocado pela covid-19 impulsionou o número de crianças e adolescentes com distúrbios de visão, quais os principais problemas diagnosticados e como preveni-los.
Problemas de visão já eram uma questão de saúde pública a nível mundial antes da pandemia de covid-19. De acordo com o “Relatório Mundial de Visão” , produzido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2019, 2,2 bilhões de pessoas no mundo possuíam algum tipo de distúrbio conhecido no sistema ocular. Uma estimativa da OMS de 2015 já considerava a miopia uma “epidemia” e projetava que mais de 50% da população mundial teria o problema em 2050.
Também em 2019, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia estimava que cerca de 23 milhões de jovens entre 5 e 15 anos da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Venezuela apresentavam algum tipo de problema de visão.
Segundo os especialistas, além dos fatores genéticos, o número crescente de casos está relacionado a mudanças comportamentais e de estilo de vida, como a urbanização, o menor tempo ao ar livre e hábitos oculares não saudáveis , como o uso prolongado de telas.
O surgimento da covid-19 fez necessária a instauração de medidas de distanciamento para frear os índices de contaminação. Durante a pandemia, 1,37 bilhão de estudantes (cerca de 80% da população estudantil) precisaram sair das salas de aula em todo o mundo, segundo dados da Unesco. Uma das saídas encontradas, ainda que sem acesso igualitário , foi o ensino a distância por meio de celulares, computadores e tablets.
Ao mesmo tempo, praticamente todas as formas de entretenimento e de lazer ficaram concentradas no uso de celulares e computadores. Dados de 2020 da Sociedade Brasileira de Urologia indicam que o número de adolescentes de 12 a 18 anos que utilizam telas durante mais de 6 horas por dia mais que triplicou, indo de 17,4% para 59,4%.
No espectro da visão, o aumento do uso de telas digitais preocupa pela exposição contínua aos aparelhos. O olho humano é preparado para enxergar a distância e, nesses momentos, o olho fica relaxado. Para enxergar objetos próximos, como a tela de celulares e computadores, os músculos ciliares — estruturas que acomodam a lente e o cristalino do olho — se contraem para conseguir focalizar a curta distância.
A repetição e a continuidade da contração durante o uso de telas faz com que esses músculos fiquem sobrecarregados e com dificuldade de retornar à posição original de relaxamento. Junto a isso, a própria luminosidade dos aparelhos promove um trabalho maior e um desgaste dos músculos ciliares. “Se considerarmos que houve um desequilíbrio entre as atividades que estimulam o crescimento dos olhos com as atividades que inibem o seu crescimento, a balança pendeu para que ocorresse aumento dos casos de miopia”, disse ao Nexo a chefe de oftalmopediatria do Hospital dos Olhos Paulista, Márcia Ferrari.
Ricardo Paletta Guedes, presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, explicou ao jornal Folha de S.Paulo que a maleabilidade do globo ocular das crianças propicia o surgimento de problemas de visão : “O nosso olho continua em formação na infância, ele não nasce pronto, e nesse desenvolvimento ele sofre influência do ambiente e das atividades que fazemos ”.
As telas digitais também promovem o ressecamento ocular. Por meio da piscada, além de proteger os olhos de agentes externos, as lágrimas realizam a lubrificação ocular. Normalmente, o ato de piscar acontece, em média, de 15 a 20 vezes por minuto. Ao focar em telas, o número de piscadas passa a ser de 5 a 8 vezes por minuto, o que pode gerar irritação do olho e dores de cabeça.
Se a exposição à luz das telas é um fator que aumenta as chances de problemas de visão, a não exposição à luz solar também foi um fator determinante no período da pandemia. Dos diversos benefícios gerados pela exposição à vitamina D , um deles é a produção da dopamina, um neurotransmissor que também é responsável pela regulação do crescimento do olho . Ao ficar mais em casa e receber menos raios solares, a produção de dopamina foi diminuída e, consequentemente, o olho pode ter crescido de forma alongada, o que propicia o surgimento da miopia.
Todos esses fatores influenciaram para o aumento nos problemas de visão. O estudo da Prefeitura de São Paulo mostra que, entre 2019 e 2022, o número de novos casos de miopia em pessoas de até 19 anos passou de 886 para 2.026. Já um levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia aponta que sete em cada dez oftalmologistas notaram uma progressão nos casos de miopia em crianças.
O cenário de aumento nos problemas de visão não acontece somente no Brasil. Em 2021, uma pesquisa feita na China e publicada na revista científica Jama Ophthalmology analisou mais de 120 mil crianças, e encontrou um aumento de até três vezes no número de míopes entre as idades de seis e oito anos em comparação com os cinco anos anteriores.
Apesar do número alto, é possível que tenha havido represamento de novos diagnósticos. Entre 2019 e 2020, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia notou uma queda de 43% na marcação de consultas oftalmológicas de crianças e adolescentes. O estudo da Prefeitura de São Paulo também viu queda na rede pública entre 2019 e 2020.
Além da situação mais grave da pandemia no ano de 2020, o que dificultava a ida aos médicos, Ferrari explica que o uso da visão próxima dentro de casa pode não ter despertado a atenção de pais e responsáveis acerca da miopia: “A partir do momento em que voltaram às aulas presenciais, a necessidade de utilizar uma visão de maior distância, seja copiando da lousa ou na interação no ambiente escolar, fez com que fosse percebido o problema de visão”.
Miopia
A miopia é o principal distúrbio de visão enfrentado por jovens no mundo. A OMS estima que, até 2015, 312 milhões de pessoas com até 19 anos tinham esse desvio. A miopia é um erro refrativo em que, por conta do alongamento da córnea, o ponto focal é formado antes da retina, o que dificulta a visualização de objetos distantes.
Hipermetropia
Ao contrário da miopia, a hipermetropia acontece quando a córnea é reduzida e, com isso, o ponto focal se forma atrás da retina. Nesses casos, o que está perto do observador é visto de forma embaçada.
Ambliopia
A ambliopia, também conhecida por “olho preguiçoso”, é a diminuição da visão de um ou ambos os olhos. Isso acontece pelo cérebro da criança não estimular a boa visão de um dos olhos, se acostumando com a visão borrada. Costuma ser tratada com tampões e uso de óculos para estimular o olho com baixa visão.
Síndrome Visual do Computador
Apesar de não ser um distúrbio de visão em si, a Síndrome Visual do Computador é um conjunto de sintomas agravados pela contínua utilização de telas. Ela é ocasionada pelo ressecamento ocular, a baixa luminosidade local, a proximidade do olho com eletrônicos e ambientes secos. Dentre os sintomas estão ardência nos olhos, tontura, dor de cabeça e cansaço ocular.
As mudanças no estilo de vida e a utilização massiva de tecnologias digitais tornam alguns cuidados essenciais para não afetar o olho das crianças. “Não vamos conseguir retroceder o uso de eletrônicos dos jovens e das crianças, mas podemos tentar entremear as atividades em ambiente externo”, ressalta Ferrari.
No caso das telas, é importante não deixar as crianças e os adolescentes conectados ao mundo digital a todo instante, sendo estimulada a interação também ao ar livre. Para cuidar não só da visão, mas da saúde de crianças e adolescentes como um todo, a Sociedade Brasileira de Pediatria tem um manual para interação saudável de crianças e adolescentes com a internet :
É importante também prestar atenção à distância dos olhos das crianças e adolescentes com as telas. Para correr um menor risco de ressecamento e problemas nas córneas, os oftalmologistas recomendam uma distância mínima de 50 centímetros.
Outra indicação feita por especialistas é, a cada 20 minutos de uso contínuo de telas, fazer um descanso de pelo menos 20 segundos olhando para algum objeto no horizonte, com uma distância de pelo menos 6 metros. Essa ação ajuda no relaxamento dos músculos ciliares, o que diminui a chance de miopia.
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