Expresso

Como as escolas podem lidar com crianças no celular

Mariana Vick

10 de julho de 2023(atualizado 06/02/2024 às 10h57)

Há espaço para os aparelhos em atividades, mas seu uso excessivo tende a impactar o desenvolvimento infantil. Alguns países da Europa já impõem restrições claras. O ‘Nexo’ conversou com estudiosos do tema

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FOTO: KIM HONG-JI/REUTERS – 18.DEZ.2015

Menina de cabelos lisos e escuros olha para tela de celular, na qual faz um desenho.

Menina mexe em smartphone em Seul, na Coreia do Sul

Ter um celular é essencial para atividades da vida diária: fazer ligações, checar mensagens, tirar fotos ou fazer compras seria muito mais difícil sem eles. Dá-los para crianças, no entanto, ainda é um dilema. Não há consenso quanto ao uso dos aparelhos na infância.

O tema é amplamente discutido na educação. Professores e gestores escolares argumentam que enquanto, por um lado, os celulares podem ser usados em atividades escolares, por outro, seu uso excessivo pode impactar a saúde e o desenvolvimento infantil. Como conciliar os prós e os contras?

Neste texto, o Nexo explica como as escolas podem lidar com o celular, quais os efeitos do uso de telas para crianças e quais são as possibilidades de incorporação do aparelho na educação, segundo profissionais que estudam a área.

O que se sabe sobre o uso de telas

A exposição de crianças a celulares e outras telas digitais está cada vez maior . O cenário, observado desde alguns anos atrás, se agravou com a pandemia de covid-19. A imposição do isolamento social e do ensino remoto temporário entre 2020 e 2021 ampliou o uso dos aparelhos para os estudos e a comunicação com amigos e familiares.

O aumento do tempo de telas preocupa profissionais voltados à infância. Estudos mostram que a exposição pode prejudicar o desenvolvimento infantil.

Esse prejuízo, por sua vez, pode ter efeitos de longo prazo, afetando o rendimento escolar, a produtividade e a geração de renda das crianças quando adultas, segundo pesquisadores do Centro de Estudos da América Latina David Rockefeller da Universidade de Harvard em artigo para o Nexo Políticas Públicas , plataforma de divulgação científica do Nexo .

FOTO: OLEKSANDR PIDVALNYI/PIXABAY

Criança jogando no celular

Criança jogando no celular

Sociedades de pediatria internacionais, como a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Pediatria, orientam as famílias a limitar o tempo de exposição de crianças a telas.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) não a recomenda (por qualquer período) para crianças com menos de 2 anos. Para aquelas 2 a 4 anos, o tempo não deve ser superior a uma hora por dia.

O uso do celular também afeta o dia a dia na escola. A presença do aparelho impacta tanto o aprendizado das matérias formais quanto a aquisição de habilidades sociais.

“As crianças precisam de experiências sensoriais e relações interpessoais para que possam aprender e se desenvolver como seres sociais. o celular rouba essas duas possibilidades”, disse ao Nexo Jhonatan Almada, diretor do Centro de Inovação para a Excelência das Políticas Públicas.

O que as escolas têm feito

Diferentes escolas e redes de ensino têm regras para o uso de celular. Na rede estadual de São Paulo, por exemplo, o aparelho era proibido nas instituições de ensino até 2017, quando uma nova lei o permitiu nas salas de aula para finalidades pedagógicas . Basta pesquisar o nome de colégios particulares para encontrar publicações sobre suas próprias diretrizes.

As regras costumam variar entre a proibição completa de celulares e outros aparelhos; a permissão de tablets, com total liberdade dos alunos na sala de aula; e o meio-termo, em que cada professor (não a escola) decide o que permitir em sua aula, segundo Aline Restano, psicóloga e coautora do livro “Crianças Bem Conectadas” (Maquinaria, 2023), que fala com base em sua experiência em escolas.

FOTO: LUISA GONZALEZ/REUTERS

Criança assiste a aula em celular enquanto faz desenhos e anotações com canetas coloridas

Crianças assiste a aula no celular

“Em todas as situações, os pais estavam assustados”, disse Restano. “Se era liberado, achavam que as crianças não tinham condições de ter noção de quanto tempo da aula poderiam fazer uso [do aparelho]. Nas escolas que proibiam completamente, achavam que [a regra] não condizia com a realidade; quando a decisão era do professor, ficavam incomodados, porque o filho poderia se confundir.”

Para a psicóloga, os relatos mostram que não há resposta pronta para esse assunto. Há situações, por exemplo, em que crianças ganham celulares porque precisam se comunicar com as famílias. Esse tipo de situação, somado ao avanço das tecnologias nas escolas na pandemia, tem tornado a proibição total de aparelhos cada vez menos comum.

Quais fatores as escolas podem considerar

A Base Nacional Comum Curricular, documento que estabelece as regras para a educação no Brasil, não tem normas específicas sobre o uso de celular ou não em sala de aula. O documento afirma, porém, que usar a tecnologia é crucial para a formação dos estudantes. Estimular seu uso capacita os estudantes para um futuro cada vez mais informatizado, segundo o texto.

Esse é um caminho que as escolas podem seguir para definir como lidar com o celular, segundo Almada. “Você pode desligar o celular durante as aulas e autorizar o uso durante os intervalos”, disse. Apesar dos riscos associados ao uso excessivo do aparelho, também é possível vê-lo como recurso didático.

“[O uso didático do celular é] plenamente possível. […] No geral, os professores de ciências e matemática são os que mais utilizam o celular em suas aulas, seja para ilustrar a solução de um problema, gamificar o ensino, ensinar com desafios, exemplificar conceitos ou resolver tarefas em aplicativos”

Jhonatan Almada

diretor do Centro de Inovação para a Excelência das Políticas Públicas, em entrevista ao Nexo

Bernardo Bueno, professor, pesquisador da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) e coautor de “Crianças Bem Conectadas”, diz também ver potencial de uso didático do celular. Ao mesmo tempo, afirma que as escolas devem se questionar sobre seu uso: a tecnologia digital deve ser usada para potencializar o ensino, não por modismos.

“Vale uma reflexão: isso é mesmo necessário naquele momento? Considerando o tempo médio que as crianças e adolescentes já usam dispositivos eletrônicos, vale a pena estimular mais ainda seu uso em sala de aula?”

Bernardo Bueno

professor, pesquisador da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) e coautor de “Crianças Bem Conectadas”, em entrevista ao Nexo

As escolas devem incentivar o pensamento crítico sobre o uso do celular, segundo Restano. “Em quais momentos [usar o celular] pode ser útil? Em quais momentos estou sendo desrespeitoso? Em quais momentos tenho que ter mais consciência do meu uso? Ele vai mesmo me ajudar para aquela situação, aquela aula, aquela discussão?”, disse, citando perguntas que os professores devem ensinar às crianças a fazer.

O que é feito em outros países

Países como França , Holanda e Itália adotaram nos anos recentes medidas que proibiram o uso de celular em sala de aula. Segundo os governos, as regras têm o objetivo de reduzir as distrações e melhorar a concentração e a aprendizagem dos estudantes.

Na Holanda, que anunciou a mudança na terça-feira (4), os dispositivos só vão ser permitidos se forem especificamente necessários, como em aulas de habilidades digitais, por motivos médicos ou para pessoas com deficiência.

FOTO: FOTO: MARCELLO CASAL JR./ARQUIVO ABR/NULL

Observados por professora, alunos fazem atividades sentados em grupo ao redor das mesas em sala de aula

Alunos do ensino fundamental realizam atividades em grupo em sala de aula

A cidade de Greystones, na Irlanda, tomou uma medida ainda mais radical. Um pacto firmado entre pais de oito escolas do distrito proíbe o uso de smartphones por crianças e adolescentes até que eles cheguem ao ensino médio. A proibição vale para todos os espaços , inclusive dentro de casa. “Se todo mundo faz isso, você não se sente excluído ”, disse a mãe Laura Bourne ao jornal britânico The Guardian.

Projetos de lei apresentados no Congresso no passado também tentaram limitar o uso de aparelhos. Estão entre eles uma proposta de 2007 do deputado federal Pompeo de Mattos (PDT-RS) e outra de 2015 do então deputado Heuler Cruvinel (PP-GO). Nenhuma das duas foi aprovada.

Autoridades brasileiras voltaram a se preocupar com o tema após casos recentes de violência contra escolas . O Projeto de Lei das Fake News obriga as plataformas digitais a “criar mecanismos para impedir o uso dos serviços por crianças e adolescentes, sempre que não forem desenvolvidos para eles ou não estiverem adequados a atender às necessidades deste público”. O texto está parado na Câmara.

Como ficam as famílias

O caso da Irlanda chamou a atenção para a colaboração entre escolas e famílias. Para Almada, os pais devem participar das decisões sobre o uso de aparelhos em salas de aula. “A principal forma de abordar o tema com eles é apresentar o conhecimento científico e mostrar exemplos de países que adotaram tais regras”, caso proponham modelos mais restritivos, disse.

As escolas também devem considerar as famílias caso decidam liberar o uso do celular. “[O uso em sala de aula] reforça a necessidade de ter um dispositivo como celular ou tablet, o que pode ir de encontro a combinados de famílias que preferem que suas crianças não tenham esses dispositivos ou que os usem em momentos específicos”, disse Bueno.

FOTO: AMANDA PEROBELLI/REUTERS – 26.MAR.2020

Duas meninas estão sentadas à mesa, onde há diversos cadernos e apostilas. De pé, estão a mãe e o pai. A mãe olha para baixo, para o rosto de uma das filhas, que olha para cima. A outra menina olha as duas. O pai olha a tela do celular.

Meninas estudam com os pais em casa em Santo André (SP), durante o isolamento social

Além de participar das decisões das escolas, Restano disse que é importante que as famílias encarem o uso do celular de forma crítica também dentro de casa. “Quando tiverem um bebê, os pais vão seguir nas refeições usando o celular? Vão seguir de noite usando o celular? Vão interromper a conversa para olhar o celular constantemente?” disse.

Segundo ela, os pais devem se ver como modelos para os filhos. É importante, nesse sentido, que as regras válidas para as crianças sejam as mesmas para os adultos. “Quando as regras precisarem ser quebradas, que isso seja explicado, mas que não se banalize o uso [do celular] do adulto, como se ele não influenciasse o comportamento do filho”, afirmou.

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