‘Novo normal’: a reação no hemisfério norte ao calor extremo
Marcelo Montanini
17 de julho de 2023(atualizado 28/12/2023 às 22h03)Temperaturas batem recordes sucessivos durante verão, em ondas intensas que tendem a se tornar mais comuns. Governos divulgam orientações a população e tentam controlar riscos de incêndios
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Bombeiros tentam apagar incêndio em Saronida, perto de Atenas, na Grécia
Países na Europa, na América do Norte e na Ásia estão passando por ondas de calor extremo, com temperaturas recordes, incêndios e registros de mortes. Alguns governos têm adotado medidas pontuais para lidar com o problema, que Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Mundial de Meteorologia, descreveu nesta segunda-feira (17) como o “novo normal”.
Com recordes sucessivos na temperatura média global, a primeira semana de julho de 2023 foi a mais quente da história .Ondas de calor intenso, bem como outros fenômenos extremos, tendem a se tornar cada vez mais frequentes com o avanço das mudanças climáticas.
Neste texto, o Nexo mostra o que tem acontecido em diferentes continentes e o que alguns países têm feito para minimizar os problemas decorrentes do calor.
Diversos países têm enfrentado situações adversas por causa das altas temperaturas, como Itália, Espanha, França e Grécia, na Europa.
Na Grécia as temperaturas chegaram aos 44ºC na sexta-feira (14) e no sábado (15). Na Croácia, as altas temperaturas provocaram na quinta-feira (13) um incêndio em Grebastica, uma vila no centro sul do país. Albânia, Kosovo e na Macedônia do Norte os termômetros também registraram 40ºC no final de semana.
Em 11 de julho, na Espanha, a temperatura da superfície chegou a 60ºC em Extremadura, no sudoeste do país, segundo dados do serviço europeu de observação Copernicus. Em outras regiões as temperaturas superaram os 40ºC, algumas delas chegando a 44ºC.
Segundo o jornal italiano Corriere Della Sera, um operário de 44 anos morreu em 11 de julho enquanto trabalhava na construção de uma estrada em Milão, sob forte calor.
Há expectativa de que nas ilhas italianas da Sicília e da Sardenha as temperaturas cheguem a 48ºC, segundo a ESA, agência espacial europeia.
Uma mulher se refresca na Fontana della Barcaccia durante uma onda de calor na Itália
A Sociedade Meteorológica Italiana batizou a onda de calor como Cérbero, em referência ao monstro de três cabeças que é descrito em Inferno, a primeira parte da obra Divina Comédia, do escritor italiano Dante Alighieri.
“As temperaturas estão escaldantes em toda a Europa esta semana em meio a um período intenso e prolongado de calor. E está apenas começando”, disse a ESA.
O verão de 2022 já havia sido o mais quente já registrado na Europa, com intensas ondas de calor, que levaram a extremas temperaturas, seca e incêndios.
61.672
mortes relacionadas ao calor foram registradas na Europa entre 30 de maio e 4 de setembro de 2022, segundo a revista científica Nature Medicine
Em 2023, a temperatura global vem batendo recordes . A Organização Meteorológica Mundial afirmou que a primeira semana de julho foi a mais quente da história, após o junho mais quente já registrado.
O impacto do calor extremo não é sentido apenas no continente europeu. Os Estados Unidos também lidam com altas temperaturas nas regiões sul e oeste, enquanto no nordeste enfrenta inundações que já deixaram ao menos cinco mortos.
Segundo o jornal americano The New York Times, mais de 74,2 milhões de americanos vivem em áreas com níveis perigosos de calor. De acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA, os estados da Califórnia, Arizona, Utah, Nevada e Texas estão sob condições potencialmente perigosas. Há previsão de que a temperatura possa chegar aos 47ºC em cidades do Arizona.
O sul da Califórnia registrou de sexta-feira (14) a domingo (16) quatro incêndios florestais. No mesmo estado, no Parque Nacional do Vale da Morte, que é considerado um dos lugares mais quentes do mundo, registrou 53,3ºC no domingo (16). Em 3 de julho, um homem foi encontrado morto dentro do carro no local devido ao calor, segundo o jornal americano Los Angeles Times.
No Canadá, 590 incêndios florestais estavam fora de controle em 17 de julho. De acordo com o Centro Interagências Canadense de Incêndio Florestal, mais de 10 milhões de hectares já queimaram em 2023.
Países da Ásia também têm sofrido com temperaturas adversas. A China tem lidado com oscilações entre calor extremo e chuvas intensas, que tem sobrecarregado a rede elétrica e o sistema hídrico, mas também arruinado plantações.
Enquanto no sul as enchentes têm devastado diversas cidades, como Guangdong, a mais populosa do país, no norte e no centro do país as altas temperaturas têm predominado. No início do mês, ao menos 15 pessoas haviam morrido em uma enchente em Chongqing, no sudeste, segundo o jornal estatal Xinhua.
A temperatura na capital Pequim chegou aos 40ºC. A mais extrema, porém, foi registrada no município de Sanbao, em Xinjiang, no noroeste, que atingiu o recorde de 52,2ºC no domingo (16), segundo o jornal estatal Xinjiang Daily. O recorde anterior foi de 50,3ºC em 2015.
O Japão também tem registrado temperaturas entre 35ºC e 38ºC, preocupando o governo do país quanto ao risco de insolação da população e sobrecarga no sistema de saúde. Enquanto sofre com altas temperaturas, também tem de lidar com fortes chuvas — Akita, cidade no nordeste do país, registrou em apenas algumas horas entre sábado (15) e domingo (16) a quantidade de chuva que estava prevista para todo o mês de julho, informou o jornal Japan Times.
Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Mundial de Meteorologia, destacou nesta segunda-feira (17), em nota , que o clima extremo, uma ocorrência cada vez mais frequente no planeta em aquecimento, está tendo grande impacto na saúde humana, ecossistema, economia, energia e abastecimento de água.
“Isso destaca a crescente urgência de reduzir as emissões de gases de efeito estufa o mais rápido e profundamente possível. Além disso, temos que intensificar os esforços para ajudar a sociedade a se adaptar ao que infelizmente está se tornando o novo normal”
Além da mudança climática , que provoca o aumento generalizado das temperaturas há décadas por causa da emissão de gases de efeito estufa, o fenômeno natural El Niño também tem influenciado situações climáticas extremas.
El Niño começou em 2023 no dia 8 de junho e deve durar até o começo de 2024. Trata-se de um evento marcado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico na região da linha do Equador, nas proximidades da costa da América do Sul, como o Nexo explica no vídeo abaixo. Isso ocorre de tempos em tempos — geralmente de dois a sete anos — e influencia o clima em várias partes do mundo:
Em meio à tensão entre EUA e China, os enviados especiais para a mudança climática de ambos os países, John Kerry e Xie Zhenhua, respectivamente, estão reunidos em Pequim desde domingo (16) até quarta-feira (19). Eles estão debatendo questões como a redução das emissões de metano, limitação do uso de carvão, redução do desmatamento e ajuda aos países pobres para lidar com as mudanças climáticas.
Enquanto isso, países apelam ao bom senso da população e dão respostas pontuais aos problemas das temperaturas extremas. Veja abaixo.
Itália
O governo italiano emitiu alerta vermelho para 16 cidades, entre elas Roma e Florença. O Ministério da Saúde aconselhou as pessoas nessas áreas a se manter hidratadas, comer refeições leves e evitar a luz solar direta entre 11h e 18h. Também alertou as pessoas para que tomem cuidado especial com os idosos e os vulneráveis.
Espanha
O governo espanhol estabeleceu em maio, quando sofreu uma primeira onda de calor, que trabalhadores de algumas áreas, como construção, agricultura e pesca, não podem trabalhar na rua quando estiverem em alerta laranja ou vermelho, acima de 37ºC. Ademais, recomenda que a população beba água, evite ficar exposta ao sol e use roupas leves.
Grécia
O governo grego decidiu fechar a Acrópole em Atenas na sexta-feira (14) durante o período mais quente para proteger os visitantes do calor. Também acionou um plano de contingência para evitar que o calor desencadeasse incêndios florestais — foi proibido que trabalhadores nos setores de construção e de entrega executassem os respectivos trabalhos nas horas mais quentes do dia. E funcionários dos setores público e privado da capital foram incentivados a trabalhar remotamente.
EUA
O governo americano convocou prefeitos e líderes comunitários de áreas atingidas pelo calor extremo, além de organizações da sociedade civil, para debater respostas ao fenômeno. Também vai estabelecer dois centros para monitorar e melhorar as respostas aos eventos climáticos extremos e liberou um fundo de US$ 5 milhões para comunidades atingidas pelo calor extremo. Ademais, parques, museus e zoológicos fecharam ou reduziram seus horários para economizar energia.
China
O governo chinês aconselhou que o trabalho ao ar livre fosse suspenso quando as temperaturas aumentassem e ordenou que as autoridades tomassem medidas de emergência para evitar insolação. Também pediu que a população e as empresas reduzam o uso de eletricidade. Algumas estações de trem, nas províncias de Henan e Hunan, ambas no centro do país, colocaram blocos de gelo dentro do saguão de embarque para reduzir as temperaturas. O Departamento de Cultura e Turismo de Pequim também pediu aos grupos turísticos que diminuam as excursões ao ar livre.
Japão
O governo japonês pediu às empresas que usem menos iluminação em escritórios e nas instalações para economizar energia. Ademais, o Ministério do Meio Ambiente pediu que as pessoas bebam água com frequência, fiquem na sombra, usem chapéus e guarda-chuvas e usem roupas frescas.
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