Como vão funcionar os títulos verdes emitidos pelo governo
Mariana Vick
19 de setembro de 2023(atualizado 15/01/2024 às 12h26)Ministério da Fazenda apresenta a investidores em Nova York proposta que busca atrair investimentos para projetos sustentáveis no Brasil. Iniciativa faz parte de plano federal de transição ecológica
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Fernando Haddad, ministro da Fazenda, em entrevista a jornalistas em Brasília
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, informou na segunda-feira (18) que o governo federal concluiu em Nova York a primeira apresentação a investidores (roadshow, no jargão de mercado) da emissão dos chamados títulos verdes , que buscam atrair investimentos para projetos no Brasil de energia renovável e produção industrial de baixo carbono.
É a primeira vez que o governo oferece no mercado financeiro internacional títulos da dívida externa com critérios sustentáveis. A iniciativa faz parte do plano de transição ecológica lançado pelo Ministério da Fazenda em agosto. O plano tem o objetivo de transformar a economia brasileira no contexto do combate à mudança climática.
Neste texto, o Nexo explica o que são os títulos verdes apresentados pelo governo, como eles vão funcionar e de que forma eles se encaixam no plano de transição ecológica do Ministério da Fazenda. Mostra também quais são os desafios para sua implementação e quais são as contradições das políticas de transição propostas pelo governo.
Para entender o que são os títulos verdes, é preciso compreender primeiro o que é a dívida pública. Quando um governo, como o do Brasil, gasta mais do que arrecada, ele pega empréstimos por meio dos chamados títulos de dívida, assumindo o compromisso de devolver o dinheiro no futuro e pagar juros ao credor. O acúmulo desses empréstimos forma a dívida pública:
A dívida é interna quando os títulos são emitidos e pagos em real. Ela também pode ser externa, quando realizada em moeda estrangeira, como o dólar. O Brasil sempre recorreu à ajuda externa para equilibrar suas contas, emitindo títulos que podem ser comprados por bancos estrangeiros, governos de outros países e fundos de investimentos internacionais.
Os títulos verdes (chamados também de green bonds) propostos agora são de dívida externa. A diferença entre eles e outros títulos do mesmo tipo é que o valor da venda desses papéis será usado exclusivamente para financiar ações sustentáveis, como diz o governo federal. Apenas nos Estados Unidos a previsão é captar até US$ 2 bilhões com eles.
Haddad disse na segunda (12) em Nova York que a equipe do ministério fez 36 reuniões com 60 fundos de investimento sobre as possibilidades de aplicação de recursos envolvendo sustentabilidade no Brasil. A proposta foi bem recebida , e o governo está preparado para lançar os títulos, segundo ele. A emissão, porém, cabe ao Tesouro Nacional, que deve disponibilizá-los até outubro:
“Estamos num período de silêncio. depois que você faz o roadshow [apresentação antes de emitir os títulos], não pode anunciar. A não ser quando for para lançar efetivamente os títulos. […] Está com o Tesouro a conveniência de lançar”
A emissão de títulos verdes é um dos pilares do novo plano de transição ecológica do governo federal. O plano busca fazer mudanças estruturantes na economia brasileira e promover o desenvolvimento sustentável. Iniciativas como o aumento da produção de energia limpa e criação de um mercado de carbono fazem parte do pacote anunciado.
A oferta de papéis no exterior deve financiar iniciativas em áreas como infraestrutura verde, bioeconomia e adaptação à mudança do clima. Os setores nos quais o dinheiro captado será investido serão divulgados em relatórios anuais, segundo o governo. Os recursos também podem ir para o Fundo Clima , relançado pelo governo federal neste ano.
Homem limpa painel solar na reserva Vila Nova do Amanã, no Amazonas
Haddad apresentou os primeiros aspectos do plano de transição ecológica em agosto, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Para o ministro, além de combater a degradação ambiental, o plano busca acelerar o crescimento, distribuir renda e gerar bons empregos. “Trata-se de um novo modelo de país para um novo mundo”, disse.
Outros países usam títulos verdes desde antes do Brasil. Os primeiros foram a Polônia e França, que emitiram seus primeiros papéis para projetos ambientais em 2017, seguidos por lugares como Chile, Uruguai e México. Empresas também emitem títulos sustentáveis privados desde o início da década de 2000.
Com o aumento da preocupação com a mudança climática, o mercado de títulos públicos verdes cresceu com rapidez. Cerca de US$ 225 milhões foram movimentados em todo o mundo até junho de 2022, segundo um estudo divulgado pelo Bank for International Settlements. O montante é 7,5% do total de emissões verdes até aquele período.
Mulheres colhem café em plantação em São Paulo
Maria Netto-Schneider, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade, disse ao Nexo que a iniciativa é positiva para o Brasil. “Com essas emissões, nós apresentamos ao mercado o compromisso de que os recursos captados vão ser usados em projetos com impacto socioambiental positivo”, afirmou. “No Chile, a emissão dos títulos verdes foi inclusive mais atrativa do que a de títulos tradicionais.”
O governo vai ter o desafio, por outro lado, de gerir esses recursos. “Quando fazemos emissões desse tipo, precisamos monitorar o que se faz com o investimento”, disse. Em outros países, uma das preocupações envolve a possibilidade de esses papéis virarem uma ação de greenwashing (lavagem verde), sem impacto ambiental real. “Mas é um desafio bom, porque promove boas práticas de gestão”, segundo Schneider.
Também há desafios em relação ao plano de transição ecológica. Apesar de o governo ter apresentado os primeiros objetivos do pacote, falta detalhamento das ações e de como elas vão ser postas em prática. Diversas iniciativas, como o mercado de carbono, precisam passar por instâncias como o congresso nacional antes de começarem a valer.
Outra preocupação está em como o plano vai interagir com outras políticas do governo. Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, disse ao Nexo em agosto que a expectativa geral era de que o PAC lançado naquele mês fosse “ mais verde ”. Com R$ 1,7 trilhão para investimentos, a maior parte até 2026, o programa tem 62% de seus recursos para energia destinados a petróleo e gás, ainda que preveja aumento na capacidade de geração por fontes renováveis.
Os ministros Fernando Haddad, da Fazenda, e Marina Silva, do Meio Ambiente, em Davos, Suíça
Haddad tem demonstrado sintonia com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, com quem está em Nova York para reuniões com empresários, além de acompanhar Lula na Assembleia Geral da ONU. Ainda assim, o ministro deu uma declaração que repercutiu mal entre ambientalistas. Em entrevista no domingo (17), ele disse ser provável que o Brasil necessite explorar petróleo petróleo na bacia da foz do Amazonas , no Amapá:
“Acredito, por tudo que tenho ouvido dentro do governo, que vai preponderar uma visão cautelosa de que tem [que explorar] mesmo”
A exploração de petróleo na região é um dos projetos que mais dividem o atual governo. A área é ambientalmente sensível, e, em maio, o Ibama (instituto brasileiro do meio ambiente e dos recursos naturais renováveis) negou a licença para a estatal operar na região. Parte do governo tem proposto uma espécie de conciliação para obter a aprovação, enquanto Marina diz que a decisão do órgão foi técnica.
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