Expresso

Como vão funcionar os títulos verdes emitidos pelo governo

Mariana Vick

19 de setembro de 2023(atualizado 15/01/2024 às 12h26)

Ministério da Fazenda apresenta a investidores em Nova York proposta que busca atrair investimentos para projetos sustentáveis no Brasil. Iniciativa faz parte de plano federal de transição ecológica 

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FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 31.AGO.2023

Homem de meia idade, com cabelo grisalho e roupa social, fala ao microfone, sentado à mesa.

Fernando Haddad, ministro da Fazenda, em entrevista a jornalistas em Brasília

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, informou na segunda-feira (18) que o governo federal concluiu em Nova York a primeira apresentação a investidores (roadshow, no jargão de mercado) da emissão dos chamados títulos verdes , que buscam atrair investimentos para projetos no Brasil de energia renovável e produção industrial de baixo carbono.

É a primeira vez que o governo oferece no mercado financeiro internacional títulos da dívida externa com critérios sustentáveis. A iniciativa faz parte do plano de transição ecológica lançado pelo Ministério da Fazenda em agosto. O plano tem o objetivo de transformar a economia brasileira no contexto do combate à mudança climática.

Neste texto, o Nexo explica o que são os títulos verdes apresentados pelo governo, como eles vão funcionar e de que forma eles se encaixam no plano de transição ecológica do Ministério da Fazenda. Mostra também quais são os desafios para sua implementação e quais são as contradições das políticas de transição propostas pelo governo.

O que são os títulos verdes

Para entender o que são os títulos verdes, é preciso compreender primeiro o que é a dívida pública. Quando um governo, como o do Brasil, gasta mais do que arrecada, ele pega empréstimos por meio dos chamados títulos de dívida, assumindo o compromisso de devolver o dinheiro no futuro e pagar juros ao credor. O acúmulo desses empréstimos forma a dívida pública:

A dívida é interna quando os títulos são emitidos e pagos em real. Ela também pode ser externa, quando realizada em moeda estrangeira, como o dólar. O Brasil sempre recorreu à ajuda externa para equilibrar suas contas, emitindo títulos que podem ser comprados por bancos estrangeiros, governos de outros países e fundos de investimentos internacionais.

Os títulos verdes (chamados também de green bonds) propostos agora são de dívida externa. A diferença entre eles e outros títulos do mesmo tipo é que o valor da venda desses papéis será usado exclusivamente para financiar ações sustentáveis, como diz o governo federal. Apenas nos Estados Unidos a previsão é captar até US$ 2 bilhões com eles.

Haddad disse na segunda (12) em Nova York que a equipe do ministério fez 36 reuniões com 60 fundos de investimento sobre as possibilidades de aplicação de recursos envolvendo sustentabilidade no Brasil. A proposta foi bem recebida , e o governo está preparado para lançar os títulos, segundo ele. A emissão, porém, cabe ao Tesouro Nacional, que deve disponibilizá-los até outubro:

“Estamos num período de silêncio. depois que você faz o roadshow [apresentação antes de emitir os títulos], não pode anunciar. A não ser quando for para lançar efetivamente os títulos. […] Está com o Tesouro a conveniência de lançar”

Fernando Haddad

ministro da Fazenda , em entrevista a jornalistas na segunda-feira (18)

De que forma o governo deve usá-los

A emissão de títulos verdes é um dos pilares do novo plano de transição ecológica do governo federal. O plano busca fazer mudanças estruturantes na economia brasileira e promover o desenvolvimento sustentável. Iniciativas como o aumento da produção de energia limpa e criação de um mercado de carbono fazem parte do pacote anunciado.

A oferta de papéis no exterior deve financiar iniciativas em áreas como infraestrutura verde, bioeconomia e adaptação à mudança do clima. Os setores nos quais o dinheiro captado será investido serão divulgados em relatórios anuais, segundo o governo. Os recursos também podem ir para o Fundo Clima , relançado pelo governo federal neste ano.

FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 22.SET.2015

Homem que usa chapéu e blusa azul de manga comprida ajoelha-se sobre um painel solar e o limpa com um pano. Ao fundo, há um rio e uma área de floresta.

Homem limpa painel solar na reserva Vila Nova do Amanã, no Amazonas

Haddad apresentou os primeiros aspectos do plano de transição ecológica em agosto, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Para o ministro, além de combater a degradação ambiental, o plano busca acelerar o crescimento, distribuir renda e gerar bons empregos. “Trata-se de um novo modelo de país para um novo mundo”, disse.

O que inspirou a iniciativa

Outros países usam títulos verdes desde antes do Brasil. Os primeiros foram a Polônia e França, que emitiram seus primeiros papéis para projetos ambientais em 2017, seguidos por lugares como Chile, Uruguai e México. Empresas também emitem títulos sustentáveis privados desde o início da década de 2000.

Com o aumento da preocupação com a mudança climática, o mercado de títulos públicos verdes cresceu com rapidez. Cerca de US$ 225 milhões foram movimentados em todo o mundo até junho de 2022, segundo um estudo divulgado pelo Bank for International Settlements. O montante é 7,5% do total de emissões verdes até aquele período.

FOTO: AMANDA PEROBELLI/REUTERS – 08.MAI.2021

Duas mulheres em uma plantação de café. Elas estão rodeadas de plantas. Uma delas segura um cesto.

Mulheres colhem café em plantação em São Paulo

Maria Netto-Schneider, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade, disse ao Nexo que a iniciativa é positiva para o Brasil. “Com essas emissões, nós apresentamos ao mercado o compromisso de que os recursos captados vão ser usados em projetos com impacto socioambiental positivo”, afirmou. “No Chile, a emissão dos títulos verdes foi inclusive mais atrativa do que a de títulos tradicionais.”

O governo vai ter o desafio, por outro lado, de gerir esses recursos. “Quando fazemos emissões desse tipo, precisamos monitorar o que se faz com o investimento”, disse. Em outros países, uma das preocupações envolve a possibilidade de esses papéis virarem uma ação de greenwashing (lavagem verde), sem impacto ambiental real. “Mas é um desafio bom, porque promove boas práticas de gestão”, segundo Schneider.

Os desafios e contradições da transição

Também há desafios em relação ao plano de transição ecológica. Apesar de o governo ter apresentado os primeiros objetivos do pacote, falta detalhamento das ações e de como elas vão ser postas em prática. Diversas iniciativas, como o mercado de carbono, precisam passar por instâncias como o congresso nacional antes de começarem a valer.

Outra preocupação está em como o plano vai interagir com outras políticas do governo. Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, disse ao Nexo em agosto que a expectativa geral era de que o PAC lançado naquele mês fosse “ mais verde ”. Com R$ 1,7 trilhão para investimentos, a maior parte até 2026, o programa tem 62% de seus recursos para energia destinados a petróleo e gás, ainda que preveja aumento na capacidade de geração por fontes renováveis.

FOTO: ARND WIEGMANN/REUTERS – 17.JAN.2023

Haddad observa Marina enquanto ela fala. Ao fundo, painel com logo do Fórum Econômico Mundial

Os ministros Fernando Haddad, da Fazenda, e Marina Silva, do Meio Ambiente, em Davos, Suíça

Haddad tem demonstrado sintonia com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, com quem está em Nova York para reuniões com empresários, além de acompanhar Lula na Assembleia Geral da ONU. Ainda assim, o ministro deu uma declaração que repercutiu mal entre ambientalistas. Em entrevista no domingo (17), ele disse ser provável que o Brasil necessite explorar petróleo petróleo na bacia da foz do Amazonas , no Amapá:

“Acredito, por tudo que tenho ouvido dentro do governo, que vai preponderar uma visão cautelosa de que tem [que explorar] mesmo”

Fernando Haddad

ministro da Fazenda, em entrevista ao programa Canal Livre, da Band TV, que foi ao ar no domingo (17)

A exploração de petróleo na região é um dos projetos que mais dividem o atual governo. A área é ambientalmente sensível, e, em maio, o Ibama (instituto brasileiro do meio ambiente e dos recursos naturais renováveis) negou a licença para a estatal operar na região. Parte do governo tem proposto uma espécie de conciliação para obter a aprovação, enquanto Marina diz que a decisão do órgão foi técnica.

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