O que são limites planetários. E quais já foram cruzados
Mariana Vick
25 de maio de 2024(atualizado 25/05/2024 às 19h13)Coletivo de 29 pesquisadores estabeleceu em 2009 nove parâmetros seguros para a vida humana na Terra. Quinze anos depois, conceito ainda é objeto de interesse da comunidade científica internacional
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Ativistas protestam na COP27, em Sharm El-Sheikh, no Egito
Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático, na Alemanha, e um dos cientistas do clima mais conhecidos pela comunidade internacional, recebeu na terça-feira (21) a honraria de maior prestígio da ciência ambiental — o Prêmio Tyler de Conquista Ambiental — por seu trabalho sobre limites planetários.
Proposto em 2009 por Rockström e outros 28 cientistas reunidos no Centro de Resiliência de Estocolmo, na Suécia, o conceito de limites planetários busca estabelecer parâmetros seguros para a vida humana na Terra. Seis das nove fronteiras que o grupo estabeleceu já foram cruzadas. Grandes esforços de pesquisa têm sido feitos para mostrar as implicações desse cenário.
Neste texto, o Nexo explica o que são os limites planetários, qual é a importância do conceito e como foram os esforços coletivos de definição desses parâmetros ao longo dos anos. Mostra também quais limites já foram ultrapassados e quais são as propostas para conciliá-los com limites sociais de respeito e garantia dos direitos humanos.
Os limites planetários são processos considerados cruciais do sistema terrestre que estão sob risco e próximos de seus “pontos de virada”, segundo os cientistas que os propuseram em 2009. Cruzar esses limites poderia levar a mudanças ambientais irreversíveis e, em alguns casos, abruptas. Esse cenário poderia tirar o planeta do estado estável sob o qual tem vivido nos últimos 11.700 anos — um período conhecido como Holoceno.
Essas fronteiras planetárias formam, juntas, o que o Centro de Resiliência de Estocolmo chama de espaço seguro para a humanidade. Foi no Holoceno que a espécie humana, que surgiu há cerca de 200 mil anos, evoluiu a ponto de formar a civilização que existe hoje. O clima relativamente estável do período atual também permite a existência de outras formas de vida tão importantes quanto a nossa para o equilíbrio ambiental.
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são os parâmetros estabelecidos pelo Centro de Estocolmo para definir os limites planetários
A mudança climática, a integridade da biosfera (que inclui a perda de espécies, por exemplo) e as mudanças no uso da terra estão entre os nove parâmetros definidos pelo Centro de Estocolmo. Os pesquisadores os agrupam em diferentes zonas — segura, de risco crescente ou de alto risco —, de acordo com quão próximos estão de seus “pontos de virada”. Seis dos itens estabelecidos já cruzaram suas fronteiras:
A aproximação desses limites está associada à aceleração do uso de recursos naturais (como combustíveis, água, madeira etc.) a partir da Revolução Industrial, no século 18. As atividades baseadas na exploração da natureza cresceram tanto nos últimos séculos que parte da comunidade científica defende que a Terra entrou em outra época geológica: o Antropoceno. A ideia, porém, não é unânime.
Quais são os limites
Mudança climática
Cientistas avaliam o atual estado da mudança climática de acordo com duas variáveis: concentração de CO2 (gás carbônico) na atmosfera e o forçamento radiativo (indicador que mede o aquecimento da superfície da Terra). O limite considerado seguro de concentração de CO2 é de 350 ppm (partes por milhão), enquanto o valor atual é de 417 ppm (maior). Já o limite de forçamento radiativo é de 1 watt/m², enquanto o registrado atualmente é de 2,91 watt/m² (também maior).
Integridade da biosfera
A integridade da biosfera (termo associado aos ambientes e aos seres vivos da Terra) é medida de acordo com duas variáveis: diversidade genética (que pode ser entendida, em termos grosseiros, como diversidade de espécies) e integridade funcional. Vale destacar aqui o limite de diversidade genética, que é traduzido pela quantidade de espécies extintas. O limite considerado seguro é de menos de 10 extinções por milhão de espécies ao ano, enquanto o valor atual é de mais de 100 extinções (maior).
Mudanças no uso da terra
As mudanças no uso da terra (conversão de vegetação para outros usos, como agropecuária ou urbanização) são avaliadas de acordo com a porcentagem de áreas verdes que existem hoje em relação à cobertura original. O limite mínimo considerado seguro é de 75% de vegetação em relação à área original. O valor atual é de 60% (menor, o que significa que o limite foi ultrapassado).
Uso de recursos hídricos
As mudanças nos recursos hídricos são medidas de acordo com os usos da chamada água azul (água doce) e da água verde (água disponível no solo para vegetação). O limite considerado seguro para o uso da água azul é de 10,2% de desvio do estado pré-industrial, enquanto hoje esse desvio é de 18,2% (maior). Já o limite de uso da água verde é de 11,1% de desvio em relação à era pré-industrial, enquanto o registrado atualmente é de 15,8% (maior).
Ciclos biogeoquímicos
Pesquisadores dos limites planetários avaliam os ciclos biogeoquímicos (que são o “movimento” dos elementos químicos entre os seres vivos, a atmosfera, a água e o solo) de dois elementos: o de fósforo e o de nitrogênio. O limite considerado seguro de fluxo de fósforo dos sistemas de água doce para o oceano é de 11 Tg (teragramas) de fósforo por ano, enquanto o valor atual é de 22,6 Tg (maior). Já o limite seguro de fixação do nitrogênio é de 62 Tg por ano, enquanto o registrado atualmente é de 190 Tg (maior).
Acidificação dos oceanos
A acidificação dos oceanos (ou seja, o processo pelo qual os oceanos ficam mais ácidos) é medida de acordo com o estado de saturação de aragonite na superfície da água do mar. A aragonite é uma rocha formada por carbonato de cálcio, que fica menos saturada na medida em que a água é mais ácida. O limite considerado seguro de saturação mínima é de 2,75 Ωarag, enquanto o valor atual é de 2,8 Ωarag (maior, o que significa que o limite ainda não foi ultrapassado).
Carga de aerossol atmosférico
A carga de aerossol atmosférico (partículas finas suspensas no ar, que podem ser liberadas com a queima de combustíveis fósseis e biomassa) é medida pela diferença da concentração dessas partículas nos diferentes hemisférios. O limite considerado seguro é de 0,1 de diferença. O valor atual é de 0,076 (menor, o que significa que o limite não foi ultrapassado).
Esgotamento do ozônio estratosférico
O esgotamento do ozônio estratosférico ou destruição da camada de ozônio é medido pela concentração de O3 na estratosfera. O limite considerado seguro é de 276 DU (unidade Dobson, que mede a densidade do ozônio) de O3, enquanto o valor atual é de 284,6 DU (maior, o que significa que o limite não foi ultrapassado). Esse é o único limite que, além de não ter sido cruzado, não está piorando (a acidificação dos oceanos, por exemplo, está acelerando, embora ainda não tenha saído do limiar).
Novas entidades
A categoria novas entidades diz respeito à porcentagem de produtos químicos sintéticos liberados no ambiente sem testes de segurança adequados (como microplásticos, resíduos nucleares, inseticidas, etc.). Esse é o limite com mais incertezas: não se sabe quanto desses produtos já foram lançados na Terra, nem quais são seus impactos para o sistema planetário. Como ao longo do Holoceno, no entanto, eles não existiam, pesquisadores consideram que seu limite seguro é de 0%.
Cruzar os limites planetários pode gerar diversos impactos ambientais, alguns dos quais já registrados. Estão entre eles o aumento da temperatura global, do nível do mar e de eventos climáticos extremos (resultado de cruzar o limite da mudança climática), como se vê neste momento no Rio Grande do Sul. Outras consequências são a poluição dos cursos d’água (associada ao uso excessivo de nitrogênio) e a perda de espécies marinhas (associada à acidificação dos oceanos), entre outras.
Meninos brincam em uma barragem seca em Khawlan, no Iêmen, um dos países com maior escassez de água do mundo
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo) e um dos cientistas mais reconhecidos do Brasil, afirmou em artigo publicado em 2014 que há interconexão entre os limites — ou seja, um influencia o outro; a mudança climática, por exemplo, afeta a perda de biodiversidade, entre outros aspectos. “O planeta atua como entidade integrada e única, com interconexões em praticamente todas as áreas de risco”, escreveu.
“A discussão dos limites seguros de nosso planeta mostra que existe a possibilidade de que, ultrapassando os limites físicos de nosso planeta, podemos desestabilizar o relativamente estável clima que tivemos no Holoceno. Dois dos limites, mudanças climáticas e integridade da biosfera, estão em situação tão crítica que necessitam de medidas urgentes para a estabilização das condições de sustentabilidade na Terra”
Paulo Artaxo
professor do Instituto de Física da USP, no artigo “Uma nova era geológica em nosso planeta: o Antropoceno?”, publicado em 2014
Essa constatação não significa necessariamente que “tudo está perdido”. Rockström e outros cientistas costumam demonstrar otimismo com as oportunidades da atual geração para enfrentar a crise ambiental. Para o Centro de Resiliência de Estocolmo, no entanto, cruzar os limites aumenta o risco de gerar mudanças abruptas ou irreversíveis em grande escala — que talvez não ocorram de repente, mas traçam um risco crescente para a Terra.
O quadro mostra também que um enfoque apenas na mudança climática não é suficiente no contexto atual. Kate Raworth, economista britânica e professora na Universidade de Oxford, afirmou em texto de 2012 que a abordagem dos limites é importante por trazer “uma perspectiva global” dos problemas ambientais. Para ela, nesse sentido, a gestão dessa crise também deve ser global:
“No final, a decisão de onde a comunidade internacional deve fixar as fronteiras dependerá em grande parte das percepções de risco, do debate público e de poderosos grupos de lobby e do poder político internacional. Mas os níveis nos quais elas estão fixadas devem estar baseados nas melhores ciências possíveis das realidade biofísicas do planeta”
Kate Raworth
economista britânica e professora na Universidade de Oxford, no texto “Um espaço seguro e justo para a humanidade”, publicado em 2012
Apesar de buscar ser o mais abrangente possível, o conceito de limites planetários não captura todos os aspectos da crise ambiental. “Por trás desse quadro de escala global sobre o uso de recursos encontram-se imensas desigualdades em termos de onde os recursos estão sendo utilizados e por quem”, escreveu Raworth em 2012. “Da mesma forma, a perspectiva global não revela limites locais ou regionais críticos de pressão sobre recursos.”
Isso significa, em outras palavras, que, embora o limite global de uso da terra no planeta seja de 75%, num bioma específico, por razões locais, ele pode ser diferente (maior ou menor). Depois de revisões feitas ao longo dos anos, o Centro de Resiliência estabeleceu alguns limites regionais. A preservação mínima de vegetação de florestas tropicais, por exemplo, deve ser de 85%, não de 75%.
Homem caminha por rua alagada em Porto Alegre
Além disso, vários dos processos do sistema-Terra não têm um “ponto de virada” único, mas uma variação de riscos. Também há incertezas, como em toda ciência, em relação aos valores estabelecidos para cada um desses limites. Temas como a introdução de novas entidades (microplásticos, pesticidas, etc.), por exemplo, têm grandes lacunas de conhecimento.
Cientistas têm buscado preencher essas e outras lacunas ao longo dos anos, com a publicação de novos trabalhos. Depois de 2009, grupos de pesquisa divulgaram atualizações sobre o estado dos limites planetários em 2015, 2022 e 2023. Além de verificar quais são os dados atualizados sobre o tema, eles tentam adicionar novos tipos de fronteiras.
Raworth propôs em 2012 o conceito de limites sociais. Junto com as fronteiras planetárias, segundo ela, a humanidade deve buscar ficar dentro das fronteiras mínimas de garantia dos direitos humanos, como os direitos à alimentação, à educação, à moradia, à saúde, à energia e à equidade. Esse espaço — dentro dos dois tipos de limite — seria como um donut:
“Entre uma base social que protege contra privações humanas críticas e um limite ambiental máximo que evita limites naturais críticos, há um espaço seguro e justo para a humanidade — que tem a forma de um donut (ou, se você preferir, de um pneu, de uma rosquinha ou de uma boia). Esse é o espaço onde o bem-estar humano e bem-estar do planeta são garantidos, e sua interdependência é respeitada”
Kate Raworth
economista britânica e professora na Universidade de Oxford, no texto “Um espaço seguro e justo para a humanidade”, publicado em 2012
Outros pesquisadores, incluindo Rockström, incorporaram os limites sociais em seus trabalhos seguintes. Depois das primeiras revisões sobre as fronteiras planetárias, em 2018, o cientista sueco apresentou os resultados de um trabalho coletivo chamado Earth-3, que se complementa aos dos limites. O modelo aponta cenários econômicos, climáticos e da biosfera para as próximas décadas, levando em conta os tipos de políticas que podem ser adotadas.
100 mil
dados globais sobre meio ambiente e temas ligados aos objetivos do desenvolvimento sustentável foram coletados para o projeto; período coberto vai de 1970 a 2015
Caso as políticas públicas sigam iguais às que são implementadas hoje, Rockström afirma que o mundo poderia atingir alguns dos objetivos do desenvolvimento sustentável (relativos aos direitos sociais), mas às custas da estabilidade do sistema terrestre. Já elevar em parte o crescimento econômico ou cumprir algumas das atuais promessas climáticas melhoraria o cenário, mas não o suficiente. Para ele, ações robustas devem ser adotadas para tornar o futuro seguro e justo, como investimentos altos em energia renovável e distribuição da riqueza.
Rockström esteve no Brasil nesta sexta-feira (24), ao lado de membros de um coletivo de cientistas chamado Planetary Guardians, incluindo o pesquisador Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Royal Society — academia de ciência mais antiga ainda em atividade no mundo — e anunciado como novo integrante do grupo. “Nossa única chance de um pouso climático seguro é uma abordagem unificada na qual retornamos simultaneamente ao espaço seguro para todos os limites planetários”, disse Rockström em comunicado.
Colaborou Mariana Froner com o gráfico
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