Como Recife lida com a ameaça da mudança do clima
Mariana Vick
30 de setembro de 2024(atualizado 01/10/2024 às 12h55)Capital pernambucana é uma das cidades brasileiras mais vulneráveis a enchentes, ondas de calor e avanço do nível do mar. Candidatos à prefeitura em 2024 não dão centralidade ao tema, segundo análise de planos de governo
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Mulher passeia com cachorro na praia de Boa Viagem, no Recife
A mudança climática é um desafio para todas as cidades brasileiras. Algumas, no entanto, estão sob maior risco que outras. O Recife é um desses casos: palco de um grande desastre causado por fortes chuvas em 2022, é um dos municípios do país mais vulneráveis à crise do clima, apesar de o tema ter pouco espaço nas campanhas eleitorais.
Dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas indicam que o Recife é a 16ª cidade do mundo mais vulnerável aos efeitos da mudança climática, além de ser a capital do país mais ameaçada pelo avanço do nível do mar. Fatores geográficos, econômicos e sociais explicam o cenário, que já esteve no centro de ações da capital pernambucana no passado. Os candidatos à prefeitura com mais intenções de votos em 2024, no entanto, não têm dado centralidade ao tema em seus planos de governo, segundo análises.
Neste texto, parte de uma série sobre o clima e as eleições municipais, o Nexo explica por que o Recife é tão ameaçado pela mudança climática, de que forma o tema aparece na campanha eleitoral e o que há nos planos de governo dos candidatos à prefeitura. Mostra também as medidas adotadas na capital nos últimos anos e a avaliação da gestão do atual prefeito, João Campos (PSB).
O Recife é vulnerável à mudança do clima por fatores geográficos, econômicos e sociais. A cidade combina terrenos de topografia baixa com áreas de alta declividade, além de ser marcada pela grande densidade populacional e por processos intensos de urbanização. É possível identificar seis grandes vulnerabilidades no município, segundo documento produzido em 2019 pela própria prefeitura:
A cidade sofre historicamente com extremos de chuva, que geram alagamentos nas margens de seus principais rios. A previsão de temporais mais intensos e frequentes no contexto da mudança climática agrava os riscos de inundações e deslizamentos, segundo artigo publicado em 2021 na revista científica Cities. Outros fatores de risco são a presença de moradias precárias nos morros e encostas, a ineficiência dos sistemas de drenagem, o desmatamento e o despejo irregular de resíduos.
133
pessoas morreram após fortes chuvas que atingiram o Grande Recife (que não inclui só a capital) em 2022, no que foi considerado o maior temporal da região em 42 anos
44%
do território da cidade tem risco alto para a ocorrência de inundações e alagamentos, segundo um relatório de maio do Instituto para a Redução de Riscos e Desastres da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco)
O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas prevê para o Nordeste um aumento na frequência de temperaturas extremas e da duração de ondas de calor. A densidade populacional e os padrões de urbanização do Recife (marcados pela verticalização e pavimentação) tendem a agravar esses eventos. Esse e outros fatores também tornam a população sujeita à ameaça de doenças influenciadas pelo clima, como a dengue.
Estudos citados pelo artigo de 2021 mostram ainda que o nível médio anual do mar no Recife aumentou cerca de 0,54 cm ao ano desde 1940. Os cenários de elevação do mar podem causar a inundação de áreas significativas da cidade. Mais de 81% das construções urbanas que estão a menos de 30 metros da linha de costa devem ser afetadas rapidamente pela mudança do nível do mar atual, de acordo com o texto.
25,38 km²
seria a extensão da área inundada no Recife num cenário de elevação de 0,5 metro do nível do mar até 2100, segundo o artigo de 2021
33,71 km²
seria a extensão da área inundada no Recife num cenário de elevação de um metro do nível do mar até 2100, segundo o mesmo artigo
A campanha para a prefeitura do Recife tem oito candidatos: João Campos, atual prefeito, do PSB; Gilson Machado, do PL; Daniel Coelho, do PSD; Dani Portela, do PSOL; Tecio Teles, do Novo; Ludmila Outtes, do UP; Simone Fontana, do PSTU; e Victor Assis, do PCO.
Campos está isolado na liderança da disputa, com 76% das intenções de voto e grande chance de vencer no primeiro turno, segundo pesquisa Datafolha realizada entre 17 e 18 de setembro. Atrás dele, estão empatados em segundo lugar Gilson Machado (9%), Daniel Coelho (PSD) e Dani Portela (3%). A pesquisa, com margem de erro de três pontos percentuais, foi registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o protocolo PE-02953/2024.
CORRIDA ELEITORAL
Campos, Machado, Coelho e Portela têm prometido priorizar políticas ambientais em eventos de campanha. Temas como saneamento básico, energia limpa e obras de infraestrutura aparecem no discurso dos candidatos. Nem sempre, no entanto, as propostas são detalhadas ou apresentadas como parte da solução para a mudança climática:
“Existe um plano para a cidade ser carbono neutro até 2050. […] E o ponto mais crítico de drenagem da cidade é a bacia do Rio Tejipió. Então [vamos fazer] a construção de parque, plantios de árvores, preservação de áreas de reserva ambiental como a manta do Engenho Uchôa, aqui do lado”
João Campos
prefeito do Recife e candidato à reeleição pelo PSB, em agenda no bairro do Barro, na zona oeste da cidade, no dia 24 de setembro
“Construções verdes no Centro do Recife. [Vamos] liberar uma verticalização no centro da cidade, porém, no Recife Antigo, nós não vamos permitir isso, nós não vamos mexer. O Recife Antigo será revitalizado, será dado o seu valor histórico”
Gilson Machado
candidato pelo PL à prefeitura do Recife, em sabatina na sede do grupo Atitude, no dia 26 de setembro
“Reforço na equipe dos agentes ambientais mas, principalmente, a gente tem uma verba de R$ 85 milhões de publicidade. Isso tem que ser usado para fins públicos, fazer educação ambiental na mídia, e não autopromoção da gestão ou da figura do prefeito. Ensinar conceitos de educação ambiental, reciclagem, separação do lixo e, principalmente, da preservação dos nossos canais pode mudar esse quadro”
Daniel Coelho
candidato pelo PSD à prefeitura do Recife, em agenda no Engenho do Meio, na zona oeste da cidade, no dia 12 de setembro
“A gente precisa falar de meio ambiente a curto, médio e longo prazo. Nós tivemos emergências climáticas como as chuvas de 2022, em que 50 pessoas morreram na cidade do Recife. A gente precisa olhar para os morros com prioridade na próxima gestão, não apenas para coisas que são paliativas, como lonas, mas para medidas estruturais mais da preservação dos nossos canais pode mudar esse quadro”
Dani Portela
candidata pelo PSOL à prefeitura do Recife, em sabatina no podcast Fala Ordinário, no dia 13 de setembro
Para os eleitores, a crise do clima é um dos temas que os preocupam durante a campanha. Pesquisa Datafolha feita entre 17 e 19 de setembro mostra que 59% deles a consideram um risco imediato para a população mundial. Outros 28% a veem como um risco para as próximas gerações.
8%
dos entrevistados pelo Datafolha no Recife discordam de que a mudança climática seja um risco; 4% não opinaram
Os planos de governo dos quatro candidatos com mais intenções de votos mostram que há lacunas nas propostas ambientais e de combate à mudança climática, segundo análise divulgada nesta segunda-feira (30) pelo Greenpeace Brasil. Os temas mais destacados nos textos são moradia, infraestrutura, transporte e gestão de resíduos. Falta centralidade de ações de adaptação e prevenção de desastres, segundo o estudo.
“Dos quatro prefeituráveis, poucos são comprometidos de fato com a temática de meio ambiente, que envolve diversas intersecções. há candidatos que não citam certos temas e há os que são favoráveis [ou seja, citam esses temas em seus planos de governo], mas que não consideramos comprometidos, por não terem metas mais aprofundadas e detalhadas”
Rodrigo Jesus
porta-voz do Greenpeace Brasil, em entrevista ao Nexo
Campos, Machado e Coelho apresentaram pouco engajamento e familiaridade com os termos da pauta climática, embora todos tenham trazido algum nível de proposta para medidas de adaptação ou mitigação da crise, segundo a análise. As propostas são pouco detalhadas, indicando, em sua maioria, metas genéricas. Nenhum dos textos — incluindo, neste caso, o de Portela — citou temas como a poluição do ar ou o vazamento de petróleo no Nordeste em 2019.
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A análise ranqueou os candidatos mais engajados com o tema, segundo uma metodologia própria (que pode ser consultada no arquivo do estudo). Coelho foi o que mais bem pontuou, por ter endereçado em maior ou menor profundidade quase todos os temas considerados pela organização. Depois, vieram Portela, Campos — por ter citado mais iniciativas feitas na gestão atual e menos do que seria proposto numa futura gestão — e Machado, que ficou em quarto lugar por ter deixado de falar sobre diversos temas, como áreas verdes.
“Para João Campos, podemos até comparar [o plano de governo] com o que foi feito na gestão, mas, nos outros candidatos, a gente gostaria de mais descrição [das propostas], o que não há”, disse ao Nexo Rodrigo Jesus, porta-voz do Greenpeace Brasil. Além desses textos, o Nexo leu os planos do governo dos outros quatro candidatos à prefeitura. As propostas são resumidas abaixo:
O que cada candidato traz
João Campos
O candidato do PSB descreve iniciativas de sua gestão de prevenção de riscos de desastres nas áreas de infraestrutura e moradia. Propõe a “estruturação de planos de intervenção” para lidar com o aumento do nível do mar, gerenciar a água da chuva e mitigar os impactos de alagamentos. Fala também em aumentar áreas verdes e substituir a fonte energética de abastecimento de prédios públicos por energia renovável, entre outras medidas.
Gilson Machado
O candidato do PL não faz nenhuma menção à mudança climática em seu plano de governo. Propõe, no entanto, realizar “obras estruturadoras de contenção e prevenção de deslizamentos” em todas as áreas de risco da cidade. Também promete buscar recursos para programas habitacionais e despoluir rios, além de outras políticas ambientais (como educação ambiental, instalações de painéis solares em prédios públicos, etc.).
Daniel Coelho
O candidato do PSD diz ter compromisso com a resiliência climática no Recife. Propõe “ações estruturadoras” para revitalizar a infraestrutura de drenagem e a implementação de soluções baseadas na natureza para reduzir o risco de alagamentos. Também fala em ampliar áreas verdes, aplicar tecnologias para prevenir deslizamentos e “realizar ação na área costeira do município no sentido de evitar os efeitos do avanço do mar” (sem explicar qual).
Dani Portela
A candidata do PSOL reconhece em seu plano de governo que o Recife é uma das cidades mais vulneráveis à mudança climática no mundo. Propõe obras de infraestrutura e melhoria de moradias para reduzir os riscos de inundação, um comitê permanente de gestão de riscos e “formas sustentáveis de prevenção de desastres, para além das obras de muros de contenção nas barreiras”. Fala ainda em criar uma política de comunicação do risco para a população, implementar corredores verdes e responsabilizar empresas e indústrias que poluem a cidade.
Tecio Teles
O candidato do Novo propõe criar um plano de combate às enchentes e aperfeiçoar o sistema de drenagem nos principais pontos de alagamento da cidade. Fala também em implementar projetos de limpeza e despoluição de rios e lagos. Tem ainda outras propostas na área ambiental, como a de estabelecer parcerias público-privadas para a manutenção e operação de parques públicos urbanos.
Ludmila Outtes
A candidata do UP não fala diretamente na mudança climática, embora diga que as cidades são responsáveis pela emissão de grandes quantidades de gases de efeito estufa. Propõe medidas como a transição energética no setor de transportes, a ampliação de áreas verdes e o monitoramento da qualidade do ar, das águas e dos resíduos locais. Não fala em prevenção de enchentes ou outros desastres.
Simone Fontana
A candidata do PSTU reconhece em seu plano de governo que o Recife é uma das cidades brasileiras mais vulneráveis à mudança climática. Propõe o estabelecimento de moradias longe de encostas, rios e áreas de preservação, a limpeza dos rios da cidade, a recuperação de ecossistemas e uma “nova ocupação do espaço urbano”, com mais arborização e menos verticalização. Defende ainda que empresas públicas apliquem os projetos, com a participação das comunidades.
Victor Assis
O candidato do PCO não faz nenhuma menção a meio ambiente, a enchentes, à mudança climática ou mesmo à cidade do Recife em seu programa de governo. O texto do partido tem “eixos gerais, válidos para todo o país”, e diz que nas campanhas haverá “reivindicações específicas para cada cidade”. Há uma referência ao site do partido para quem quiser buscar essas informações.
Campos governou o Recife nos últimos quatro anos e tem chances de governá-lo no próximo mandato, considerando as atuais intenções de voto. O candidato listou em seu plano de governo diversas ações na área ambiental que realizou no passado e diz querer manter caso seja reeleito. Estão entre elas:
O Promorar (Programa de Requalificação e Resiliência Urbana em Áreas de Vulnerabilidade Urbana) é uma das vitrines da atual gestão. Financiado com R$ 2 bilhões pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, o programa busca construir parques alagáveis (construídos nas margens de rios) para reduzir os riscos de enchentes. A obra, por outro lado, deve desapropriar milhares de pessoas que vivem nas regiões e dizem ter poucas informações sobre para onde vão.
40
comunidades do Recife devem ser afetadas pelas ações, e até agora 17 são conhecidas, segundo reportagem da Agência Pública; mais de 3.000 famílias devem ser desapropriadas
Moradores da região reclamam de falta de diálogo e transparência. “Falta participação social na implementação das medidas”, disse Jesus ao Nexo. “Como esses R$ 2 bilhões vão ser usados? O que foi apresentado à população? O papel da prefeitura é conversar e garantir espaços de tomada de decisão direta”, afirmou, propondo, por exemplo, a criação de conselhos.
Para a Agência Pública, a prefeitura do Recife disse que “foram realizadas 55 oficinas com a participação de 4.500 moradores das áreas beneficiadas” e que “todas as etapas sempre contam com escuta popular dos moradores”. Também afirmou que “na necessidade de reassentamento, a equipe social do Promorar fará as escutas necessárias para definir juntamente com as famílias a melhor solução para cada caso. Conforme o marco de reassentamento do programa, as soluções previstas são: unidade habitacional; compra assistida e reassentamento por permuta.
O Recife foi a primeira capital do país a reconhecer, em 2019, estado de emergência climática e a elaborar um plano de análise de riscos e estratégias de adaptação. A cidade se destacou no passado por conta desse tipo de iniciativa. “O Recife teve um grande destaque nacional na promoção da pauta climática de 2012 a 2019, reunindo fóruns municipais sobre o tema”, disse ao Nexo Hugo Mariz, biólogo e doutorando em ciência política na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).
Não havia uma urgência tão grande para ações de adaptação aos efeitos da mudança do clima naquela época, segundo Mariz. Falava-se mais sobre mitigação — isto é, medidas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa da cidade. Esse contexto levou à criação de uma série de leis, decretos, planos e outros documentos — que, no entanto, não têm sido implementados da forma adequada.
“Por mais que agora haja essa urgência, a pauta climática vem perdendo força nos últimos anos. Não vou dizer que não houve políticas públicas importantes combatendo os efeitos da mudança do clima, mas elas não tiveram o selo de ação climática, que seria importante para educar a população. Por mais que se façam ações de urbanismo — como o plantio de árvores —, a falta de divulgação focada na questão climática distancia o público da pauta”
Hugo Mariz
biólogo e doutorando em ciência política na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), em entrevista ao Nexo
Para Jesus, as metas estabelecidas pelos planos não são coerentes com a análise de risco feita pelos próprios documentos sobre os efeitos da crise climática no Recife. “Há ações para serem concluídas em 2050, o que é extremamente incompatível com a urgência e emergência da realidade atual. Já as pautas de curto e médio prazo não foram cumpridas.”
“O Recife precisa fazer seu dever de casa para o futuro, porque os instrumentos existem”, disse Mariz. “Há planos de mitigação, áreas mapeadas para os riscos de vulnerabilidades da cidade, inventários de emissão de gases de efeito estufa. falta implementar e colocar o selo de que aquilo está sendo implementado como ação climática”
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