Expresso

A transição energética pode evitar futuras crises de energia?  

Mariana Vick

17 de outubro de 2024(atualizado 19/10/2024 às 00h15)

Enel diz que apagão que atingiu São Paulo foi resolvido seis dias após chuvas. Episódio mostra vulnerabilidade de rede elétrica a eventos climáticos extremos e expõe necessidade de alternativas

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FOTO: Paulo Pinto/Agência BrasilMulher de costas para a câmera caminha em corredor de mercado, rodeada por prateleiras. Está escuro.

Mulher em mercado sem energia durante apagão em São Paulo

O presidente da Enel, Guilherme Lencastre, afirmou nesta quinta-feira (17), seis dias após a tempestade que deixou milhões de clientes sem luz na Grande São Paulo, que o apagão foi resolvido. Pelo menos 36 mil imóveis, no entanto, seguem no escuro. A concessionária diz que o número é considerado “muito próximo da normalidade”.

3,1 milhões

domicílios na região metropolitana de São Paulo foram afetados pela falta de energia em algum momento desde sexta-feira (11); o número divulgado inicialmente havia sido de 2,1 milhões, mas Lencastre o corrigiu nesta quinta (17)

A área onde houve o apagão registrou chuvas e rajadas de vento de até 108 km/h na sexta (11), o que provocou danos graves na rede elétrica. Quedas de árvores atingidas pela massa de ar contribuíram para danificar postes e fiações. Esta é a segunda vez em menos de um ano que São Paulo registra esse tipo de crise, desencadeada por um evento climático extremo.

Neste texto, o Nexo explica como apagões como esse podem ser prevenidos por meio de políticas de transição energética, uma das principais ferramentas de combate à mudança climática. Mostra também quais são as medidas propostas, quais são os desafios para implementá-las e quais são as propostas para a área nas eleições municipais de São Paulo. 

O que é a transição energética

A transição energética é o processo pelo qual uma sociedade muda a forma pela qual obtém e consome energia. A humanidade já usou diversos tipos de fonte energética na história, como a do fogo, a dos animais e a da água. Hoje, o conceito de transição se refere à substituição de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, por outras alternativas.

A adoção de novas fontes de energia busca reduzir as atuais emissões  de gases de efeito estufa, cujo excesso gera a mudança climática. O setor energético é o que mais contribui a nível global para o aumento da temperatura média da Terra. As fontes que mais têm recebido investimentos na busca por essa transição são a eólica e a solar. 

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A transição energética também pode fazer as sociedades repensarem outros aspectos de seus sistemas de energia. Além de propor novas fontes, ela pode contribuir para a qualidade e a segurança energética, por exemplo. Essa segurança se refere ao objetivo de um lugar de manter seu fornecimento de energia adequado, estável e previsível — que tem sido cada vez mais ameaçado pelos extremos do clima.

Quais as vulnerabilidades do setor elétrico

O setor elétrico brasileiro é vulnerável à mudança climática por diferentes razões. A primeira delas não tem a ver com as chuvas, como a que atingiu São Paulo na sexta (11), mas com as secas. A geração de energia no país é baseada em hidrelétricas, e, quando as precipitações diminuem, o nível dos reservatórios cai — o que faz o preço da energia subir.

60%

da eletricidade do Brasil vem de fontes hidrelétricas, segundo dados do Ministério de Minas e Energia

Essa situação tem ocorrido neste segundo semestre de 2024, no contexto da seca que atinge o Brasil. A queda de produtividade das hidrelétricas fez o sistema ter que acionar usinas termelétricas — que são mais caras, além de serem poluentes — para compensar a falta de energia. A troca fez a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) anunciar que em outubro a bandeira tarifária na conta de luz será vermelha, patamar 2.

A Coalizão Energia Limpa, rede de organizações da sociedade civil, publicou em 2023 um relatório que mapeia as vulnerabilidades do sistema elétrico brasileiro. O texto defende a diversificação das fontes de energia para enfrentar futuras secas, que tendem a ficar mais frequentes e intensas no contexto da mudança do clima. Analisa também o potencial da energia eólica e solar em regiões como o Nordeste do Brasil.

Mas o sistema elétrico brasileiro também é vulnerável às chuvas. A distribuição de energia — etapa em que a energia produzida e levada das geradoras até os centros de distribuição é enviada aos consumidores finais — é mantida nas cidades por uma rede aérea de fios. Quando chove forte e há queda de árvores, como ocorreu em São Paulo na sexta (11), esses fios são atingidos, podendo interromper o fornecimento de energia para a população.

Quais os processos do setor elétrico

Geração

O processo de fornecimento de energia elétrica é dividido em três etapas. A geração, a primeira delas, é a transformação de energia primária (da água, do vento, do sol etc.) em energia elétrica. O Brasil tem usinas de grande porte, principalmente hidrelétricas, geralmente localizadas longe dos grandes centros de consumo. 

Transmissão

A transmissão, segunda etapa do fornecimento de energia elétrica, consiste no transporte da energia gerada nas centrais de geração até as subestações distribuidoras. O Brasil tinha 180 km de linhas de transmissão em 2022. Parte dos grandes consumidores industriais do país recebe energia diretamente por essa rede, em alta tensão. 

Distribuição

A distribuição, terceira etapa do processo, recebe a energia transmitida  e a distribui para os centros consumidores residenciais e industriais. As distribuidoras, como a Enel, são empresas responsáveis por fazer essa entrega. Essas companhias detêm toda a infraestrutura de distribuição de sua área, formada por postes de luz, cabos, fios e subestações. 

Qual o papel da transição energética

A transição energética pode contribuir para a prevenção de crises como a que começou em São Paulo na sexta (11). Rodrigo Iacovini, diretor-executivo do Instituto Pólis, disse ao Nexo que medidas como a instalação de sistemas solares off-grid (ou seja, autônomos) nas cidades podem fazer com que os consumidores produzam a própria energia. Essa mudança pode torná-los menos dependentes da rede aérea pública:

“A geração de energia tem que ser distribuída, ou seja, tem que deixar de estar concentrada. A geração de energia solar pode ser feita dentro das próprias unidades — por exemplo, em prédios ou conjuntos habitacionais. É importantíssimo que o governo brasileiro — federal, estaduais e municipais — incentive a geração pelos próprios consumidores para mitigar os apagões que vão acontecer”

Rodrigo Iacovini

diretor-executivo do Instituto Pólis, organização parte da Coalizão Energia Limpa, em entrevista ao Nexo 

Os sistemas solares off-grid são formados por painéis solares que captam a radiação solar. Essa energia é então armazenada em baterias — acionadas quando não há luz — e usada para abastecer a unidade onde foram construídos. Esses sistemas costumam ser vantajosos em áreas remotas e não conectadas à rede elétrica pública, mas, para Iacovini, podem também ser uma alternativa para cidades vulneráveis à mudança climática.

Outra medida possível para evitar problemas como o que atingiu São Paulo — que não tem relação com mudanças nas fontes de energia, mas com a segurança do sistema — é o aterramento de cabos de energia e comunicação. A conversão da rede de fios aérea em subterrânea evita que chuvas e quedas de árvores suspendam os serviços. Além disso, a medida traz outras vantagens:

  • a preservação de árvores na cidade, hoje afetadas pelos fios 
  • a segurança das pessoas, ao evitar acidentes com fios e postes
  • mais espaço nas calçadas, hoje ocupadas por postes
  • a melhoria na paisagem, com menos poluição visual 

Diferentes governos da cidade de São Paulo já prometeram enterrar os fios em outras crises. Dados da TelComp (Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecom Competitivas) mostram, no entanto, que em 2023 menos de 0,3% da rede de energia no município estava totalmente subterrânea. Problemas operacionais, administrativos e judiciais impediram o avanço da política.

Quais são os desafios para implementá-la 

Apesar de reduzir a vulnerabilidade das cidades ao clima extremo, a implementação das adaptações do sistema elétrico tem diversos desafios. O principal deles é o preço. Para Vinicius Oliveira, especialista em energia do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente), tanto o aterramento de fios quanto os sistemas off-grid são caros, e é difícil adotá-los no curto prazo:

“Mudar a estrutura de distribuição do Brasil não é um processo fácil nem rápido, além de ser muito caro. Fazer tudo isso na escala que precisa ser feita demanda muitos recursos financeiros — e, no fundo, isso vai precisar ser pago de alguma forma, que vai ser basicamente pela tarifa de energia elétrica das pessoas” 

Vinicius Oliveira

especialista em energia do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente), em entrevista ao Nexo

Oliveira acrescentou que o sistema off-grid é uma solução individual, que não resolve os problemas da cidade. “A casa, indústria ou o comércio com seu próprio sistema resolve seu problema, mas toda a sociedade que não tem recursos ou espaço para ter essa solução individual vai ficar à mercê da rede [pública]”, disse ao Nexo. Para ele, é mais adequado adotar outras medidas, como a poda controlada de árvores e o monitoramento eficiente da rede de distribuição.

Iacovini disse concordar que o preço é um desafio para a implementação dessas medidas. Para ele, no entanto, é preciso que elas sejam implementadas. Tanto as concessionárias, como a Enel, podem tirar esses investimentos de sua margem de lucro, quanto os governos podem apoiá-los por meio de linhas de financiamento ou busca de financiamento internacional, segundo ele.

“Não é porque é caro que não é necessário. Isso significa que a conta tem que ficar mais cara para os consumidores? Não. Uma concessionária como a Enel tem que ter como investimento a realização do aterramento sem repassá-la para a tarifa. Quando há a privatização do setor [elétrico] — que não deveria ter sido feita, em primeiro lugar —, a concessionária tem que assumir esses riscos”

Rodrigo Iacovini

diretor-executivo do Instituto Pólis, organização parte da Coalizão Energia Limpa, em entrevista ao Nexo 

Para ele, é importante que os governos apoiem principalmente as populações de baixa renda — mais sujeitas à intermitência de energia — caso invistam nos sistemas off-grid, “como medida de justiça social”. Para a classe média, pode haver outros incentivos para a instalação desses sistemas, como abatimento de IPTU (Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana). “Seria importante que isso acontecesse, e é viável implementar em São Paulo”, afirmou.

“Embora a gente tenha uma cidade com uma escala gigantesca, uma das maiores do mundo, e isso efetivamente seja um desafio, estamos falando também de uma das cidades mais ricas do país, da América Latina e do mundo. Temos que pensar em como redistribuir essa riqueza gerada em São Paulo para uma adaptação da transição energética que beneficie de fato a todos e todas”

Rodrigo Iacovini

diretor-executivo do Instituto Pólis, organização parte da Coalizão Energia Limpa, em entrevista ao Nexo

Quais as propostas nas eleições de São Paulo

O apagão em São Paulo tem dominado a disputa eleitoral para a prefeitura da capital da cidade desde sexta (11). Ricardo Nunes (MDB), atual prefeito e candidato à reeleição, e Guilherme Boulos (PSOL) trocam provocações sobre a responsabilidade pela crise. O tema foi o mais discutido do primeiro debate televisivo do segundo turno, promovido na segunda (14) pela Band.

Ambos os candidatos pedem a cassação da concessão da Enel em São Paulo. Nunes ataca o Ministério de Minas e Energia do governo Lula — aliado de seu adversário — por manter o contrato com a concessionária. Já Boulos acusa o prefeito de se omitir na crise e culpa também a Aneel, lembrando que o presidente da agência foi indicado por Jair Bolsonaro (PL), que apoia o emedebista.

FOTO: Paulo Whitaker/Reuters - 24.nov.1998Homem pendurado em meio a fiações e torres de energia, durante o dia.

Trabalhador da antiga Eletropaulo em meio a torres de energia em São Paulo

Os planos de governo dos dois candidatos trazem poucas pistas sobre o que pretendem fazer na área de energia caso sejam eleitos. Tanto Nunes quanto Boulos, ao tratarem do tema, priorizam temas de mobilidade urbana, com propostas como a ampliação da frota de ônibus elétricos. Não há menção ao apagão de 2023 nem a medidas que poderiam atenuar esse tipo de crise.

Pesquisa Datafolha desta quinta-feira (17) mostra que Nunes tem 51% das intenções de voto em São Paulo, enquanto Boulos registra 33%. Esta é a primeira pesquisa eleitoral sobre o segundo turno na capital paulista divulgada após o apagão. A votação acontece no dia 27 de outubro. 

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