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Como as ondas de calor na Índia contribuem para a desigualdade

Ramit Debnath e Ronita Bardhan

13 de maio de 2023(atualizado 28/12/2023 às 17h24)

Ano de 2022 foi o mais quente no país em mais de um século. Temperaturas mortais ameaçam reverter desenvolvimento

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ARTIGO ORIGINAL

Deadly heatwaves threaten to reverse India’s progress on poverty and inequality – new research

The Conversation

Maio de 2023

Autoria: Ramit Debnath e Ronita Bardhan

Tradução: Mariana Marques

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FOTO: HIMANSHU SHARMA/REUTERS

Mulher indiana tomando água nos arredores da cidade de Ajmer, na província desértica do Rajastão

Mulher indiana tomando água nos arredores da cidade de Ajmer, na província desértica do Rajastão

As ondas de calor registradas em abril de 2022 colocaram 90% da população indiana sob um maior risco de sofrer com insegurança alimentar, perda de rendimentos ou morte prematura, de acordo com nosso novo estudo .

O ano de 2022 foi considerado o mais quente dos últimos 122 anos para os indianos. Em 2023, as altas temperaturas apareceram mais cedo, 60% da Índia registrou temperaturas máximas acima do normal para o mês de abril, segundo o Departamento Meteorológico do país. Com o El Niño, um fenômeno climático natural que ocorrerá em 2023, a perspectiva é que a região registre ainda mais calor.

O aumento da frequência das ondas de calor mortais poderá travar ou mesmo inverter os progressos que a Índia tem feito em áreas como redução da pobreza, segurança alimentar, aumento de renda e equidade de gênero, prejudicando a qualidade de vida de mais de 1,4 bilhão de pessoas.

É natural que uma onda de calor atinja o subcontinente indiano uma vez a cada, aproximadamente, 30 anos. Com as alterações climáticas provocadas pela atividade humana, as altas temperaturas têm sido mais recorrentes. Desde 1992, a Índia registrou mais de 24 mil mortes relacionadas com as altas temperaturas, a onda de calor de maio de 1998 foi uma das mais devastadoras, matando mais de 3.000 pessoas.

Durante maio de 2010, as temperaturas em Ahmedabad (cidade localizada no oeste da Índia) atingiram 47,8°C e o número de recém-nascidos internados devido ao calor aumentou 43%. O episódio levou a cidade a se tornar uma das primeiras do país a implementar um plano de ação contra o calor, destinado a organizar preparativos e respostas de emergência para as ondas de calor. Desde que foi implementado, o plano salvou milhares de vidas.

Após as ondas de calor de 2015, que provocaram a morte de 2.330 pessoas, o ministério do governo responsável pela gestão de catástrofes definiu diretrizes para evitar as mortes e pressionar os estados a desenvolverem os seus próprios planos para evitar tragédias.

A não aplicação dessas estratégias pode ser um entrave ao progresso econômico do país, que pode perder 2,8% e 8,7% do seu PIB até 2050 e 2100, respectivamente.

A não aplicação destas estratégias pode gerar entraves ao progresso econômico da Índia. Esta é uma tendência preocupante, especialmente quando levamos em conta o objetivo da Índia de se tornar uma economia de US$ 10 trilhões até 2030.

Uma medida ‘realista’

Os planos de ação contra as altas temperaturas só são úteis se puderem mitigar as consequências das ondas de calor para toda a população. Para que as autoridades indianas reconheçam quando estão enfrentando um calor mortal (e quando é necessária uma ação de emergência), o governo tem de saber como a população se sente.

Utilizamos uma medida de saúde ambiental popular nos EUA chamada índice de calor para determinar a sensação térmica que o corpo humano pode sentir em relação à temperatura do ar e aos níveis de umidade. Isso nos ajudou a mapear a sensibilidade das pessoas às temperaturas em toda a Índia e a descobrir que 90% do país estava em risco de sofrer consequências severas devido a onda de calor de 2022.

É importante medir com exatidão a vulnerabilidade da Índia a temperaturas letais. A métrica utilizada pelo governo indiano, conhecida como índice de vulnerabilidade climática, não leva em conta os perigos físicos do calor para a saúde humana. A nossa investigação demonstrou que a combinação da temperatura do ar com os níveis de umidade relativa do ar proporcionou ao nosso índice de calor uma medida de “sensação real” do calor extremo. Em outras palavras, a sensação de calor extremo para as pessoas que o experimentam.

Menosprezo

Subestimar os efeitos do calor extremo na Índia pode reduzir ou mesmo inverter o seu progresso numa série de objetivos de desenvolvimento sustentável, como os relacionados com a pobreza, a fome, a saúde e o bem-estar, a igualdade, o crescimento econômico, a inovação industrial e a biodiversidade. Isso seria especialmente preocupante, uma vez que os progressos da Índia no sentido de atingir estes objetivos abrandaram nos últimos 20 anos, enquanto o número de fenômenos meteorológicos extremos aumentou.

O calor extremo, por exemplo, pode agravar a seca do solo e perturbar os padrões de precipitação, prejudicando a produção agrícola e a segurança alimentar, o que põe em perigo a saúde e o bem-estar de uma grande parte da sociedade indiana. Tratando-se de uma economia essencialmente agrícola, as perdas de produtividade nesse setor ameaçam o emprego e a saúde de milhões de agricultores periféricos e pequenos proprietários, bem como a sua capacidade de adaptação e de aquisição de novos meios de subsistência. Uma outra tendência preocupante das ondas de calor é o aumento das doenças transmitidas pela água e por insetos, o que pode sobrecarregar ainda mais o sistema de saúde pública da Índia.

Todos os anos, milhões de pessoas das zonas rurais migram para as metrópoles indianas em busca de uma melhor qualidade de vida. Mas o calor também tem um efeito desastroso na população urbana do país. Praticamente toda a cidade de Deli, capital do país, e os seus 32 milhões de habitantes foram ameaçados pelas ondas de calor de 2022.

A maioria dos migrantes é forçada a se instalar nos bairros pobres da cidade, onde os efeitos da temperatura extrema são particularmente catastróficos. Infelizmente, essas comunidades não têm meios para comprar aparelhos de ar-condicionado que possam aliviar o seu sofrimento.

Os atuais procedimentos de avaliação da sensibilidade dos indianos às alterações climáticas não podem ajudar as pessoas a resistir ao calor exponencial que tem sido registrado nos últimos anos e devem ser melhorados imediatamente.

O IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas) estima que as ondas de calor no sul da Ásia se tornarão mais fortes e frequentes neste século. Os planos de ação serão cruciais para acelerar os esforços de mitigação e adaptação aos efeitos, mas devem representar a complexidade das vulnerabilidades da Índia às mudanças climáticas.

Tornar as cidades indianas resistentes ao calor extremo é fundamental, uma vez que as áreas urbanas irão vivenciar uma explosão demográfica nos próximos dez anos. Há uma oportunidade de incorporar métodos de adaptação ao calor extremo através da concepção de novas casas que sejam mais fáceis de manter frescas.

Prevendo-se que, no futuro, um número muito maior de pessoas na Índia será afetado por temperaturas ainda mais elevadas, são necessárias medidas financeiras, de concepção urbana e de educação para ajudar as pessoas a adaptarem-se.

Ramit Debnath é pesquisador naUniversidade de Cambridge (Reino Unido).

Ronita Bardhan éProfessora Associada de Sustentabilidade nos Ambientes Urbanizados na Universidade de Cambridge.

A seção “Externo” traz uma seleção de textos cedidos por outros veículos por meio de parcerias com o Nexo ou licenças Creative Commons.

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