
Cidade de Tijuana, fronteira do México com os Estados Unidos
“Estamos em tempos conturbados”, disse o padre Pat Murphy, diretor da Casa del Migrante, em Tijuana, no México. A associação civil fornece moradia, educação e aconselhamento a milhares de pessoas que chegam à fronteira dos EUA em busca do sonho americano.
O corte nos fundos de financiamento dos EUA à Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), executado por Donald Trump, impacta diretamente a associação.
“Temos que esquecer os fundos da Usaid”, alerta Patricia Mercado, diretora da fundação mexicana Conexión Migrante.
Sua organização, uma mistura de plataforma de mídia e assistência, enfrenta sérios problemas: “Foi a primeira vez que conseguimos o financiamento da Usaid e contratamos pessoas somente há pouco mais de 20 dias. Depois nos ligaram e disseram: ‘A partir de hoje, não tem mais nada’. Foi terrível”, acrescenta.
A jornalista explica que as organizações do “primeiro andar”, ou seja, aquelas que trabalham diretamente com os migrantes, são as mais afetadas pela medida.
“Tijuana foi muito afetada e Chiapas também. Muitas organizações foram afetadas aqui na Cidade do México. Algumas vão fechar as portas, outras vão resistir para se manter. Aonde isso vai levar? Os migrantes não vão ter ajuda”, disse Mercado.
São muitos casos. Para dar apenas dois exemplos: o Cesfom (Centro Scalabrini de Formación para Migrantes), em Tijuana, ofereceu cursos gratuitos para 1.200 pessoas em 2024. Neste ano, vai perder 75% de seus recursos.
A Casa Frida, que apoia a população LGBTI+ deslocada, teve 60% de seu financiamento suspenso: “Sabemos que, em se falando da população LGBTI+ e deslocamento humano, é difícil que recuperemos os fundos”, disse Mariana de la Cruz, uma das responsáveis pelo abrigo localizado na Cidade do México, em um artigo da Radio France Internationale.
Reação entre governos latinos de esquerda
Os governos de esquerda, que sempre consideraram a Usaid um braço do imperialismo, comemoraram a medida de Trump.
O governo mexicano não apenas não demonstrou grande preocupação, como a própria presidente, Claudia Sheinbaum, declarou em fevereiro: “Há tantas coisas sobre a Usaid que, na verdade, é melhor que eles a fechem e, de qualquer forma, se houver ajuda de um tipo diferente, que abram outros tipos de canais transparentes. Essa é a questão, essa é a grande questão”.
Sheinbaum segue a linha de seu antecessor, Andrés Manuel López Obrador, que acusava a ajuda financeira dos Estados Unidos de financiar seus oponentes e a mídia crítica. O ex-presidente mexicano era um tradicional opositor dessa ajuda americana.
Na Venezuela, o ministro Diosdado Cabello garantiu que o regime está investigando as ONGs que receberam fundos da Usaid e essas informações “serão úteis até mesmo para o governo dos EUA” em seu plano de desmantelar a agência.
Assim, paradoxalmente, políticos de esquerda comemoram a decisão do ultradireitista Trump, que considera que a Usaid “é dirigida por um bando de lunáticos radicais, e nós os estamos expulsando”.
Enquanto isso, organizações como a Save the Children lutam para continuar alcançando os mais vulneráveis. “Entre 8 e 12 milhões das pessoas que recebem ajuda da organização serão afetadas, em um momento em que uma em cada 11 crianças e adolescentes no mundo precisa de assistência humanitária”, disse a organização.
Os programas da Save the Children no Peru, por exemplo, serão gravemente impactados.
O Unicef, fundo da ONU para crianças, também se manifestou, embora sem citar diretamente Donald Trump. “O Unicef implora a todos os doadores que continuem financiando os programas de ajuda mais cruciais para as crianças do mundo. Não podemos deixá-las na mão agora”, disse sua diretora executiva, Catherine Russell, em um comunicado.
Impacto continental
Na Guatemala, na Costa Rica, na Colômbia e no Equador, a suspensão desses fundos, que, em parte, eram destinados a programas de migrantes, foi agravada pelo fechamento dos escritórios de Mobilidade Segura. Essas organizações trabalham para reduzir a mortalidade nas estradas, um dos principais fatores de morte na região.
Nos últimos quatro anos, durante o governo de Joe Biden, a Guatemala recebeu US$ 690 milhões de dólares. Um dos projetos beneficiados (com US$ 6 milhões em fevereiro) foi o de Proteção de Vítimas de Tráfico de Pessoas e Crianças Migrantes Desacompanhadas.
Outro projeto, Resposta Integrada à Migração na América Central, recebeu U$S 33,7 milhões de dólares, que deveriam ser implementados em investimentos entre 2020 e fevereiro deste ano.
Alguns especialistas estão confiantes de que esses fundos voltarão à Guatemala, especialmente aqueles destinados a conter a migração.
No entanto, isso significa que, provavelmente, o país vai ter que aceitar novas condições, mais severas, para receber deportados de seu próprio país e de outras nacionalidades.
A jornalista Mariela Castañón explica que “após a visita do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em fevereiro, o presidente guatemalteco, Bernardo Arévalo, aceitou receber migrantes de outras nacionalidades deportados dos Estados Unidos”.
O mesmo aconteceu na Costa Rica e no Panamá. Neste último, ficaram famosas as imagens do Hotel Decapolis, repleto de migrantes que pediam ajuda por meio de cartazes nas janelas. A origem da maioria desses migrantes era asiática.
Depois de mantê-los no hotel, o governo os transferiu para um abrigo na entrada da selva de Darién. Tudo isso ocorreu em meio às ameaças de Donald Trump de “retomar” o controle do Canal do Panamá, a principal fonte de renda do país.
A migração de retorno
A organização Fe y Alegría está testemunhando o retorno forçado. Elías Cornejo, coordenador do serviço de migração da organização, explica que, no início de março, mais de 2.000 pessoas já estavam no Darién, em direção ao sul, rumo ao continente. “Acreditamos que esse número vai aumentar. Já existe um acordo entre o Panamá e a Costa Rica para que os migrantes passem diretamente do primeiro país para o Darién”, explicou.
Cornejo acrescenta que, embora o fluxo de migrantes pelo Darién em direção ao norte tenha diminuído, ele não desapareceu. “Nos dois primeiros meses do ano, entraram no país 2.600 pessoas. Houve uma queda muito acentuada, mas continuam chegando pessoas da Venezuela, Colômbia, Equador, África e Ásia. No entanto, o fluxo que está crescendo é o inverso.”
Roy Arias, do Serviço Jesuíta para Migrantes na Costa Rica, tem a mesma percepção. “A migração reversa, de norte a sul, de venezuelanos, colombianos e equatorianos rumo à América do Sul está crescendo. Vemos cerca de cem pessoas por dia.” Ele trabalha no distrito de Canoas, na fronteira da Costa Rica com o Panamá.
Além disso, o governo da Costa Rica acolheu deportados dos EUA: “Dois voos chegaram com aproximadamente 200 pessoas de mais de 15 países da África e da Ásia. Atualmente, elas estão sendo mantidas no Catem, o centro de acolhimento de migrantes do governo da Costa Rica. Não temos muita clareza sobre os acordos entre o governo dos EUA e o governo de Rodrigo Chaves [presidente da Costa Rica]. Portanto, não sabemos se é possível que mais voos cheguem. A situação dessas pessoas é realmente preocupante”, diz Arias.
A Colômbia, o primeiro destino sul-americano para os migrantes que retornam, também é o país mais afetado pelo congelamento dos fundos de ajuda dos EUA. Em 2024, o país recebeu US$ 447 milhões de dólares de diferentes agências norte-americanas, a cifra mais alta do continente.
A jornalista colombiana Estefanía Colmenares explica que a maior parte desses fundos é destinada a programas humanitários, inclusive destinados aos migrantes. A Colômbia acolheu a maior parte da diáspora venezuelana.
“Em Cúcuta, por exemplo (onde Colmenares vive), 27% da população são migrantes da Venezuela. Sua chegada gera pressão sobre áreas como saúde e educação. Nesse contexto, a cooperação internacional, principalmente a da Usaid, foi muito importante. No departamento de Norte de Santander, 70% das fundações que prestavam serviços ao longo da chamada Ruta del Caminante já fecharam. De 26 organizações, restam apenas oito”, relatou.
Para Murphy, o padre norte-americano da Casa del Migrante, a política de Trump é “horrível, um insulto. Toda vez que ele fala, me dá vontade de vomitar”.
Murphy ainda acrescenta que as medidas podem prejudicar os próprios Estados Unidos. “Se os migrantes forem embora, quem fará o trabalho que ninguém quer fazer?”, questiona.
Enquanto isso, alguns começam a sentir uma nostalgia pelos antigos mecanismos de assistência americanos, como a Usaid. Apesar das pertinentes críticas, os mecanismos são claramente preferíveis ao porrete que Donald Trump está empunhando agora na região.
Este texto foi traduzido com a ajuda de um programa de inteligência artificial. O conteúdo foi revisado e editado pela equipe do Nexo.