Léxico

Ba·gun·ça

Sofia Mariutti 
31 de março de 2019

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Uma vez, um amigo foi abordado por dois garotos num ônibus: “Você é uma graça! Está livre essa noite? Quer fazer uma baguncinha?” Tal uso libidinoso da palavra não está dicionarizado; nem sequer me parece corrente. Mas o elo entre o ato sexual e a confusão não é inédito. Faz lembrar do termo francês “bordel” — que quer dizer “casa de prostituição” e, ao mesmo tempo, “grande desordem” — e do português “orgia” — que pode ser sinônimo tanto de “suruba” como de “tumulto”.

“Bagunça” é um brasileirismo datado de 1926. A etimologia da palavra é controversa, mas talvez seja expressiva, isto é, de provável origem onomatopeica ou imitativa. Sua primeira acepção no Houaiss é “máquina de remover aterro”, que teria gerado os sentidos de “falta de ordem” e “baderna”. Imagino uma máquina desajeitada que fazia barulho e confusão por onde passasse, embora não tenha encontrado registro de sua existência para além dos dicionários; esse uso parece estar há muito soterrado.

“Mess” é bagunça, em inglês, mas também uma grande quantidade de alguma coisa: “a mess of peas” não é uma bagunça de ervilhas, e sim um punhado de ervilhas, que, no entanto, fará uma bela bagunça se entornado no chão da cozinha. Em português, “bagunçar o coreto de alguém” é intrometer-se numa situação, causando embaraço. “Não repara na bagunça”, dizemos invariavelmente quando alguém entra na nossa casa ou no nosso quarto, mesmo que tenhamos feito tudo o que podíamos pela manutenção da ordem.

Para os portenhos, “bagunça” é “quilombo”, o que seria uma das heranças linguísticas do racismo contra indígenas e afrodescendentes no Estado argentino, conforme lembra ensaio recente de José Bento Camassa para oNexo. O dicionário da Real Academia Espanhola mostra que esse sentido também vale para outros países da América Latina, como a Bolívia, o Paraguai e o Uruguai. Nesses países, “quilombo” tem ainda o sentido pejorativo de “prostíbulo”. O que é prova ainda pior do preconceito, e também de que a linguagem tende a atrelar a bagunça e a volúpia.

Para falar da dor da separação, na letra “Eu te amo”, Chico Buarque cria imagens pictóricas do emaranhamento dos corpos:

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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