Rebranding militar: Bolsonaro e a crise das Forças Armadas
Piero Leirner
01 de abril de 2021(atualizado 26/12/2023 às 16h54)Toda a imprensa celebra que as ‘instituições estão funcionando normalmente’ e que os militares deram um basta no presidente. Curiosamente, aquele que criou o incêndio também aparece como o bombeiro
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Embora não seja novidade o fato de que há mais de três anos podemos passar o dia em um canal de notícias vendo o carimbo “urgente” estampado na tela, parece que nos últimos dias quebramos o recorde. Algo muito novo parece ter acontecido, pois o episódio da demissão do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, parece ter provocado vários efeitos: de um lado, uma esquizofrenia nas explicações; de outro, parece ter gerado um consenso: todo mundo entendeu que Bolsonaro avançou uma casa em direção ao golpismo, ao mesmo tempo em que todo mundo viu uma resposta das Forças Armadas impondo um limite a ele.
No dia 30 de março, resolvi colecionar algumas explicações: a relação com Azevedo se deteriorou depois que Bolsonaro fez ele subir em um helicóptero para sobrevoar apoiadores de um golpe; foi o fato de Bolsonaro ter falado “meu Exército”; foi por pressão do centrão; foi por causa do viés político dos militares que trabalham no governo dando certeza a Bolsonaro de que ele seria apoiado; foi o problema do general Pazuello na gestão da pandemia; foi a entrevista do general Paulo Sérgio ao Correio Braziliense; porque Bolsonaro quer mais apoio militar já que perdeu apoio político; porque Bolsonaro quer mais poder político e ia usar os militares como chantagem; foi consequência de uma recusa dos militares ao alinhamento; foi porque Azevedo não quis repetir maio passado; foi porque o Exército se recusou a pressionar o STF na decisão do Lula. É notável como apesar de tudo isso todas essas versões alinhavam uma descontinuidade entre Bolsonaro e militares. No entanto, prefiro uma outra versão dos fatos, ou das interpretações, como queira. Para isso temos que recuar algumas casas.
Parto da hipótese de que Bolsonaro foi antes de tudo um projeto militar. Mesmo considerando o apoio que teve em amplos setores, e dos mais variados campos – empresários, evangélicos, sistema financeiro, agronegócio, classe média, a maior parte do Sul e Sudeste, enfim, dezenas de atores que estrategicamente impulsionaram sua campanha –, podemos dizer seguramente que quem iniciou a ideia “Bolsonaro: Presidente” foi um grupo de generais da reserva e da ativa em novembro de 2014, provavelmente algo entre minutos e dias depois da vitória de Dilma Rousseff naquela eleição. No dia 29 daquele mês, Bolsonaro estava fazendo campanha na Aman (Academia Militar das Agulhas Negras) – o que só é possível com autorização de toda a cadeia de comando. Ele repetiu isso lá e em outras instalações militares das três Forças em 2015, 2016, 2017 e 2018.
Nesses quatro anos de campanha muita coisa foi feita e pensada. O atual deputado Major Vitor Hugo (PSL) abandonou uma brilhante carreira militar em 2015 (ele foi o 1º colocado em todas as escolas que passou, e isso geralmente rende entre militares a alcunha de “tenente-general”) e passou em um concurso de “consultor legislativo”. Nos quatro anos seguintes, Vitor Hugo esteve muito próximo a Bolsonaro. O major é sabidamente um dos maiores “forças especiais” do Exército, especialidade que tem em seu currículo uma notável cultura de “operações psicológicas, informações e contra-informações”.
Essa crise da pandemia precisou ensejar uma operação de “choque e pavor” cognitivo, produzindo uma simulação ao extremo de que Bolsonaro quis capturar os militares para uma aventura golpista e eles botaram um freio nessa tentativa
Fato é que assim que começa a campanha de Bolsonaro entre militares também começa o seu rebranding, possivelmente mediado por “oficiais de ligação” com a ativa das Forças Armadas. Podemos dizer que há um cálculo em vários de seus passos que coincidentemente opera como em manuais militares. Não é à toa que seus alvos sempre possuíam capacidade de mobilização de “amplo espectro”, pensando sempre na possibilidade de com eles galvanizar uma série de rótulos que poderiam agregar um antipetismo. Maria do Rosário (PT), por exemplo, desagradava toda a sorte de conservadores, mas também, e principalmente, militares que tinham atravessado na garganta sua atuação em relação à Comissão Nacional da Verdade. Com alvos escolhidos cirurgicamente, foi possível projetar a longo prazo a costura de setores que pretendiam virar a mesa do petismo mas nunca conseguiram densidade para tal.
Mais do que tudo, o que importa é que o “lado militar” dessa operação passou por todo mundo absolutamente camuflado. Assim como o próprio Bolsonaro, que só apareceu no “sprint final” de 2018. É preciso ver as várias partes desse processo se agregando para entender como isso se deu. Resumidamente, é interessante notar que houve dois passos fundamentais – além do controle que o Judiciário teve das eleições, decidindo o “lado do PT” – para entender porque o “contraponto petista” foi canalizado para Bolsonaro e não para outros candidatos.
Em primeiro lugar, o grampo que derreteu o governo Temer, que era uma aliança dos grupos políticos derrotados de 2014 com a direita que antes estava plasmada no próprio governo petista. Após isso, o “homem-forte” do governo passou a ser justamente o general Sérgio Etchegoyen, que reestruturou o GSI (a central de informações brasileira; curiosamente a mesma que deveria ter evitado o tal “grampo”). Em segundo lugar, a intervenção no Rio de Janeiro em 2018, que travou toda a pauta reformista no Congresso – inutilizando politicamente a aliança entre Temer e PSDB – e projetou cotidianamente na mídia a ideia subliminar de que os militares poderiam “democraticamente” organizar um estado imerso no caos. É bom ter na cabeça que o general Villas Bôas, em seu discurso de despedida do Comando do Exército em 2019, agradece três pessoas pela “guinada” que o Brasil deu: o próprio Bolsonaro, que “acabou com o politicamente correto”; Sergio Moro, “que nos livrou da corrupção”; e o general Braga Netto, o interventor no Rio. O porquê Villas Bôas não disse, mas em parte dá para entender.
Reconstruí todos esses passos para se entender algo que é estrutural do governo Bolsonaro. Esse consórcio militar é o fundamento que está por trás de sua construção, foi assim na campanha e é assim no governo. Não se trata somente dos cargos militares (6.000 na conta do Tribunal de Contas da União, 11 mil na conta de levantamentos feitos no Portal da Transparência pelo site Poder 360), mas da própria reorganização da máquina estatal, que desde fins de 2018 vem produzindo decretos e projetos de lei em série para centralizar toda a engenharia organizacional do Estado na mesa do ministro-chefe do GSI. No entanto, o fundamento da ideia de que os militares operam camuflados na condução do processo de governo permaneceu inalterado. Entre outras coisas, a grande “operação psicológica” pós-eleições passou a ser concentrada na ideia de que Bolsonaro é uma espécie de homem-bomba ameaçando a democracia constantemente e que os militares são um fator de contrapeso aos seus arroubos. A imprensa, com ajuda de uma série de analistas políticos, ajudou a cristalizar essa imagem construindo uma ideia de que a “ala militar” se contrapõe a uma “ala ideológica” – e Bolsonaro sempre está alinhado a esta última, inclusive amarrando um enredo familiar ali.
Evidentemente essa é uma imagem que requer manutenção periódica, pois está sujeita a desgastes. A ideia de que um militar ia “cumprir uma missão” e obedecia a seu chefe errático, como ficou célebre no “caso Pazuello”, não foi suficiente para comprometer essa tão necessária “divisão” entre os militares e o governo – insisto, uma divisão emulada. Essa crise da pandemia precisou ensejar uma operação de “choque e pavor” cognitivo, produzindo uma simulação ao extremo de que Bolsonaro quis capturar os militares para uma aventura golpista e eles botaram um freio nessa tentativa.
A escolha do general Paulo Sérgio para comandar o Exército (ele mesmo que deu a entrevista mostrando o Exército como paladino das ações corretas no combate à covid, e que foi interpretado por alguns como o estopim da demissão de Azevedo), deixou ainda mais clara asensação dos “limites” a Bolsonaro. No entanto, nada de anormal ao se considerar a própria movimentação de acordo com a precedência hierárquica. O custo disso não foi exatamente barato – 4 cargos. Mas, afinal, o que é isto diante de 11 mil? A operação teve êxito. Como se viu, toda a imprensa celebrou que as “instituições estão funcionando normalmente” e que as Forças Armadas deram um basta em Bolsonaro. É a tal história: aquele que criou o incêndio curiosamente também aparece como o bombeiro. É assim, então, que se fez também um “rebranding militar”.
Piero Leirner é mestre e doutor em antropologia social pela Universidade de São Paulo. É professor titular da Universidade Federal de São Carlos e autor de “O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida: militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica”.
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