Podcast

Entranhas do crime organizado: a morte do delator do PCC

Da Redação

13 de novembro de 2024(atualizado 13/11/2024 às 22h36)

Força-tarefa afasta policiais suspeitos de corrupção a partir de depoimento de empresário que lavava dinheiro para facção e acabou executado no aeroporto de Guarulhos

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

Temas

Compartilhe

 

A força-tarefa da Secretaria de Segurança Pública paulista anunciou nesta quarta-feira (13) ter afastado policiais civis citados na delação premiada de Vinicius Gritzbach, empresário assassinado na sexta (8) numa emboscada no aeroporto de Guarulhos. O Durma com Essa explica as conexões de Gritzbach, que revelou esquemas de lavagem de dinheiro do PCC e pagamentos de propina a agentes públicos.

O programa tem também João Paulo Charleaux mostrando as convergências das políticas externas de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, tem Mariana Vick falando sobre as prioridades da COP29 no Azerbaijão e Lucas Zacari comentando o relançamento no Brasil de um HQ em que um super-herói argentino combate o imperialismo na América Latina.

Assine o podcast: Megaphone | Apple Podcasts | Deezer | Google Podcasts | Spotify | Outros apps (RSS)

Edição de áudio Brunno Bimbati
Produção de arte Lucas Neopmann

Transcrição do episódio

Conrado: Um assassinato à luz do dia, no maior aeroporto do país. Uma execução levada a cabo por profissionais, usando armas de alto calibre que feriram outras pessoas e deixaram uma segunda vítima fatal que nada tinha a ver com isso. Uma ação que expõe as entranhas do crime organizado, cada vez mais incrustado em negócios de fachada no setor privado e na estrutura do poder público. Eu sou o Conrado Corsalette e este aqui é o Durma com Essa, o podcast de notícias do Nexo, que semanalmente aborda fatos que ecoam no debate público.

[vinheta]

Conrado: O programa desta semana fala também sobre a COP29, a conferência do clima que está sendo realizada no Azerbaijão. Fala também sobre a política externa do futuro governo dos Estados Unidos, com Donald Trump de volta à Casa Branca, e a convergência dessa política externa com os interesses brasileiros. E tem por fim detalhes sobre uma história em quadrinhos de um herói sul-americano que está intimamente ligado às ditaduras da região nos anos 70. Vamos que vamos!

[trilha]

Conrado: Uma força-tarefa da Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo anunciou o afastamento de policiais civis suspeitos de corrupção, em uma medida tomada nesta quarta-feira, 13 de novembro de 2024. O órgão do governo paulista não disse quantos policiais foram afastados, nem deu o nome deles. Mas são agentes citados na delação premiada do empresário Vinícius Gritzbach, de 38 anos. Além desses agentes afastados, já tem dois policiais presos devido a acusações de extorsão feitas pelo empresário.

Conrado: Gritzbach foi assassinado na sexta-feira passada, no aeroporto internacional de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Ele chegava de viagem com a namorada e se dirigia ao carro que havia ido buscá-lo quando foi executado por homens encapuzados. Os atiradores usavam armas de alto calibre, fuzis… Deram dezenas de tiros. Dez acertaram o empresário. Os disparos feriram outras pessoas ao redor. Uma delas, um motorista de aplicativo, não resistiu e morreu no hospital. 

Conrado: Gritzbach morreu ali mesmo. Aquela pessoa marcada para morrer estava morta, em plena luz do dia, numa área aeroportuária, portanto de jurisdição da Polícia Federal. Uma ação para lá de ousada. As primeiras suspeitas recaíram sobre o PCC, o Primeiro Comando da Capital. Afinal, o empresário tinha relação com a facção criminosa, acabou envolvido numa guerra interna do grupo e decidiu fazer delação premiada, ou seja, contar o que sabia sobre os negócios do PCC.

Conrado: E como todo grupo de crime organizado, o PCC também tem suas conexões na polícia.  Nos depoimentos prestados a promotores paulistas, Gritzbach delatou não só integrantes da facção como também policiais corruptos que recebiam dinheiro em troca de acobertamentos e direcionamentos de investigações, tudo para tornar a vida do crime mais fácil dentro da estrutura do poder público, numa área que deveria justamente estar combatendo esse crime. 

Conrado: Guilherme Derrite, que é secretário de Segurança Pública do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, chamou a imprensa na segunda-feira para dizer que o empresário delator, depois de apontar esquemas de corrupção com policiais para os promotores do Ministério Público Estadual, foi chamado pela Corregedoria da Polícia Civil para prestar depoimento. Esse depoimento aconteceu oito dias antes de ele ser executado no aeroporto. 

Derrite: “A Corregedoria da Polícia Civil, no dia 31 de outubro agora, ouviu, na sede da Corregedoria da Polícia Civil, o indivíduo de nome Vinicius Gritzbach. Ele foi ouvido pela Corregedoria da Polícia Civil por conta de termos recebido, extratos dessa delação realizada com o Ministério Público, nós ainda não tivemos acesso a delação que ele fez com o Ministério Público, mas extratos dela em que ele falava nome de policiais civis que eventualmente teriam, de alguma maneira, de participado de algum tipo de extorsão contra ele…”

Conrado: O que se sabe até agora é que esse empresário, Vinícius Gritzbach, lavava dinheiro para o PCC, fazendo negócios com imóveis e com criptomoedas. Lavar dinheiro é pegar dinheiro sujo do tráfico de drogas, por exemplo, colocar num negócio lícito, manipular as contas desse negócio lícito e dali sair com o dinheiro legalizado. O empresário teria passado a perna em integrantes do PCC em alguns desses negócios e aberto uma crise dentro da facção criminosa. E aí teria mandado matar dois integrantes do PCC que estavam acusando ele de desviar dinheiro do crime. No meio de todas essas falcatruas, os policiais eram subornados para fazer vista grossa em relação aos esquemas de lavagem de dinheiro e para manipular as investigações das mortes dentro da guerra interna da facção. Ameaçado de morte e denunciado à Justiça por lavar dinheiro para o crime, Gritzbach decidiu fazer a delação premiada, a partir da qual contou o que sabia em troca de algum benefício penal. Foi lá e abriu a boca para os promotores. Expôs negócios do PCC e expôs também os policiais. Acabou morto no aeroporto. Ninguém sabia até a noite desta quarta-feira, 13 de novembro, quem puxou o gatilho e quem mandou puxar o gatilho. As suspeitas que inicialmente recaíram sobre o PCC, recaem também sobre policiais corruptos e até sobre pessoas que estavam devendo para o empresário. Quando desembarcou em Guarulhos, Gritzbach estava vindo de Maceió com uma mala de joias avaliadas em um milhão de reais. Era o pagamento de uma dívida que ele tinha ido receber na capital de Alagoas. 

[mudança de trilha]

Conrado: O PCC surgiu na chamada Casa de Custódia de Taubaté, no interior de São Paulo. A prisão era considerada no começo dos anos 1990 a mais segura do estado, era conhecida pelos encarcerados por suas condições precárias e violência interna. Oito presos da capital paulista foram transferidos para o local em 1993 e se uniram num pacto de proteção mútua.

Conrado: A facção adotou um discurso de unidade. As prisões viviam na época os impactos do massacre do Carandiru episódio que tinha ocorrido menos de um ano antes, em que policiais militares mataram 111 presos em São Paulo. Para o PCC, era necessário “combater a opressão dentro do sistema prisional paulista” e vingar as mortes da Casa de Detenção.

Conrado: O grupo criou seu estatuto sob a liderança de nomes como Sombra, Geleião e Cesinha. Em seus primeiros anos de existência, realizou atentados contra instituições do Estado e até contra a Bolsa de Valores. Em 2001 coordenou uma megarrebelião em 29 presídios paulistas. Dois anos depois, em 2003, a facção mostrou sua cara de máfia ao assassinar o juiz Antonio José Machado Dias em Presidente Prudente, no extremo oeste paulista, região de muitas penitenciárias.

Conrado: Por anos as autoridades paulistas negaram a existência do PCC. Mas isso deixou de ser possível em 2006, quando a facção comandou rebeliões em 74 penitenciárias de São Paulo e realizou ataques contra delegacias de polícia, cadeias e prédios públicos, matando 59 agentes de segurança. 

Conrado: Os ataques ocorreram em represália à transferência de presos para uma penitenciária de segurança máxima em Presidente Venceslau, outra cidade do extremo oeste paulista. Havia ainda insatisfação com a corrupção e o descaso no sistema carcerário e nas investigações policiais. 

Conrado: Supermercados, bares, escolas, universidades e comércios fecharam as portas, ônibus pararam de funcionar e houve toques de recolher me várias cidades do estado. Em resposta, agentes de segurança e grupos de extermínio saíram às ruas, o que aumentou a violência: 505 civis foram assassinados em apenas oito dias nessa represália.

Conrado: Você já deve ter ouvido falar no Marcola, apelido de Marcos Willians Herbas Camacho. Ele é um criminoso que entrou para o PCC em 1999. Assaltante de bancos, Marcola impôs uma nova dimensão para os negócios da organização. Ele não só impulsionou atividades como o tráfico de drogas e o roubo a bancos para financiar o grupo como passou a incentivar a violência a fim de conquistar mercados e eliminar concorrentes.

Conrado: Inicialmente, o PCC era piramidal, com a concentração de poder em nomes como Geleião e Sombra. Com a ascensão de Marcola, o quadro mudou. Seus membros ganharam autonomia, e o PCC se tornou uma rede em movimento. Orientações, recomendações ou avisos gerais chamados de “salves” circulam no boca a boca ou por mensagens e ligações de celular, atravessando diferentes localidades. O grupo regula a conduta de seus integrantes, interferindo nos modos de operar no tráfico de drogas e em outras atividades criminosas.

Conrado: Karina Biondi, antropóloga e autora do livro “Proibido roubar na quebrada: território, hierarquia e lei no PCC”, disse em entrevista ao Nexo o seguinte sobre a facção: “O PCC não se restringe a um grupo de pessoas; ele se efetiva a despeito de seus membros. É difícil dar conta de separar quem é membro do PCC de quem não é. Muitos etnógrafos registram pontos de venda de drogas que não são de membros do PCC, mas de um alinhamento com a ‘disciplina’ do Comando”.

Conrado: Fora das penitenciárias, o PCC doinou parte das periferias. Monopolizou o uso da força, ofereceu em troca proteção, recursos para seus integrantes e uma forma de justiça popular informal nos territórios. Pesquisadores afirmam ainda que a hegemonia do grupo em São Paulo está ligada à queda da taxa de homicídios no estado a partir dos anos 2000. Algo que o poder público minimiza.

[mudança de trilha] 

Conrado: O assassinato do empresário delator no aeroporto está ligado ao novo cenário de um PCC internacionalizado. Depois de se expandir pelo Brasil, a facção ampliou suas operações e passou a controlar rotas internacionais do Paraguai, da Bolívia e outros países da América do Sul. Mais recentemente, com nomes como o do André do Rap, obteve acordos de expansão para outros continentes, como a Europa. 

Conrado: Essa expansão gerou muito dinheiro. Dinheiro que precisa ser lavado a fim de que seja usado sem despertar tanta suspeita. E aí entram esquemas de lavagem envolvendo empresas de ônibus, organizações financeiras, postos de gasolina e negócios com imóveis. E não dá para fazer isso sem a ajuda do poder público. Além das conexões policiais, o PCC tem braços na política. Uma operação recente prendeu três vereadores paulistas e outras dez pessoas por suspeita de envolvimento num esquema de fraude de licitações para lavagem de dinheiro. Esse é apenas um exemplo, porque os tentáculos da facção são numerosos. 

Conrado: É claro que essa expansão do PCC gerou conflitos com outras facções, como o Comando Vermelho, originário do Rio de Janeiro. E também dentro do próprio PCC. Notícias recentes dão conta que Marcola e outras três lideranças da facção entraram em conflito devido a disputas de poder. Todos estão presos na Penitenciária Federal de Brasília, mas de lá deflagraram uma guerra interna que deixou um rastro de assassinatos em São Paulo em março de 2024. 

Conrado: Já a guerra interna que envolve o empresário Vinícius Gritzbach, executado no aeroporto na sexta-feira passada, ficou explícita em dezembro de 2021. Foi quando ocorreu o assassinato de um líder da facção conhecido como Cara Preta. Ele e seu segurança foram mortos na zona leste de São Paulo. Gritzbach foi acusado de ser o mandante. O empresário chegou a ser sequestrado pelo PCC, mas conseguiu sobreviver ao tribunal do crime. Ao fechar a delação premiada com os promotores paulistas em março de 2024, ficou com a cabeça ainda mais a prêmio.

Conrado: A execução no aeroporto ainda está bastante nebulosa, não só quanto a mandantes ou atiradores. O empresário tinha PMs como seguranças particulares, o que é vetado segundo as regras da corporação. Dois carros com os seguranças iriam buscá-lo em Guarulhos no desembarque. Mas estranhamente um dos carros teve problema no caminho. Ao parar num posto de gasolina, não ligou mais. Apenas um carro foi até o terminal. Ou seja, a segurança já estava reduzida. E claramente os criminosos encapuzados que desceram e fuzilaram o empresário sabiam que ele estava chegando. Os PMs que faziam a segurança particular foram afastados de suas funções no estado. 

Conrado: Com tudo o que veio a público até agora, já dá para ter uma noção do funcionamento do crime organizado e seus tentáculos privados e públicos. Mas o caso do aeroporto ainda precisa de muitos esclarecimentos. Talvez, ao fim das investigações, que estão nas mãos da Polícia Civil paulista e também da Polícia Federal, seja possível conhecer um pouco dessas entranhas que vez ou outra vêm a público.

Conrado: O Durma com Essa volta já

[mudança de trilha]

Conrado: A gente segue nas análises quanto às consequências da volta de Donald Trump à Casa Branca, depois da vitória acachapante sobre a democrata Kamala Harris nas eleições de 5 de novembro. Mas tem uma especialmente interessante no bloco “Além da fronteira” desta semana, com João Paulo Charleaux. O João fala aqui sobre a política externa do republicano dialoga com o Brasil, especialmente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chegou a declarar apoio à Kamala Harris.

João: “Olá, ouvintes, olá, amigos do Durma com Essa. A vitória de Trump foi, sem dúvida, uma baita má notícia para todo o setor da esquerda em muitas partes do mundo, incluindo, é claro, o Brasil. Na área ambiental e também na questão da defesa da democracia – incluindo aí o respeito às instituições, ao sistema eleitoral e aos freios e contrapesos – Trump é uma marcha à ré e tanto. Mas há um setor em que – talvez até de forma inesperada – o presidente eleito dos EUA pode acabar desempenhando um papel bem afinado com o que o Brasil deseja. Eu me refiro aqui à chance de que Trump se mostre menos intervencionista e belicista, imperialista que seus adversários democratas. O maior exemplo dessa possibilidade – uma possibilidade que eu considero bem alta, aliás; sobretudo se a gente considera o mandato anterior que ele exerceu – é a questão da Ucrânia. Trump não quer seguir dando armas e munições para que a Ucrânia assuma a linha de frente de um conflito europeu contra Moscou. Ele acha que isso não é um problema dos Estados Unidos. Em fevereiro, na Carolina do Sul, ele chegou a dizer que os russos poderiam fazer “o que diabos quisessem com os europeus” que os EUA não se meteriam nisso. Essa ideia de que Vladimir Putin pode mesmo ficar com parte da Ucrânia também encontra eco no Brasil, onde o presidente Lula chegou a sugerir que a saída para o conflito seria a realização de um plebiscito nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia. Tanto Trump quanto Lula acham que é bobagem seguir investindo na ideia de impor uma derrota militar a Putin. A Europa parece discordar – mesmo que seu fôlego militar se mostre cada vez mais curto. É curioso notar, no entanto, como – por meios diferentes, é verdade – a política externa de Trump e de Lula podem convergir para posições semelhantes em alguns contextos, mesmo que partam de pontos muito diferentes e tenham sinais ideológicos completamente invertidos entre si.”

[mudança de trilha]

Conrado: A COP29, conferência do clima das Nações Unidas, começou na segunda-feira em Baku, no Azerbaijão. No bloco “Clima é urgente” desta semana Mariana Vick fala aqui sobre o que está em jogo nessa cúpula. Lembrando que no ano que vem a COP30 é no Brasil, em Belém do Pará. Bom, Mariana, o que esperar da conferência do Azerbaijão?

Mariana: “A COP29 tem sido chamada de ‘COP das Finanças’. Isso porque ela deve dar um grande espaço para debates sobre o financiamento climático, que, em outras palavras, é o pagamento para a implementação de medidas de combate e adaptação à mudança climática. A COP29 deve tentar aprovar a chamada Nova Meta Quantificada Coletiva, que é o montante que países ricos, os principais responsáveis pelo aquecimento global, vão ter que levantar a partir de 2025 para alimentar esse financiamento em países em desenvolvimento, que são os mais vulneráveis aos efeitos da mudança do clima. O Acordo de Paris estabeleceu que esse montante teria que ser de US$ 100 bilhões por ano, e agora a COP29 quer aprovar um valor maior. Outra expectativa para a conferência é a conclusão da regulamentação dos chamados mercados de carbono, que aparecem no Artigo 6 do Acordo de Paris. Os mercados de carbono buscam precificar o lançamento de gases que geram o efeito estufa. Os países que participam da COP29 conseguiram um avanço importante sobre esse tema já no primeiro dia do evento, mas novas discussões ainda devem acontecer nos próximos dias. Outros temas que vão ser discutidos são uma nova Meta Global de Adaptação climática e a criação de um fundo para perdas e danos.”

Conrado: E, Mariana, os primeiros dias da COP29 estão sendo marcados por um pessimismo grande quanto ao futuro do planeta, né? De onde vem isso?

Mariana: “Esse pessimismo se deve em parte à publicação de um relatório da Organização Meteorológica Mundial publicado na segunda-feira, primeiro dia da COP29. O relatório diz que, de janeiro a setembro de 2024, a temperatura média do ar na superfície da Terra foi superior a 1,54ºC em relação à média pré-industrial, e o ano de 2024 deve ser o mais quente da história. Esse aquecimento de 1,54ºC é superior à meta do Acordo de Paris, de limitar o aumento das temperaturas a 1,5ºC até 2100 — o que significa que, neste ano, a gente estourou a meta. Quando a gente olha o aquecimento no mais longo prazo, ainda é possível a gente se manter na meta de 1,5ºC, mas vai ser preciso muito esforço pra isso. O presidente da COP29, que é ministro da Ecologia do Azerbaijão, disse no discurso de abertura da conferência na segunda-feira que, abre aspas, “o mundo está a caminho da ruína. E não se trata de problemas futuros. A mudança climática já está aqui”, fecha aspas. Outro fator que contribui para esse pessimismo na abertura da COP29 é a eleição recente de Donald Trump nos Estados Unidos, que pode levar a uma nova saída do país do Acordo de Paris. Em seu primeiro mandato, o republicano tinha tirado o país do tratado climático. O sucessor Joe Biden recolocou os americanos no acordo.”

Conrado: O Durma com essa volta já.

[mudança de trilha]

Conrado: Nesta semana no bloco “Tudo é cultura” Lucas Zacari fala com a gente sobre um lançamento bem interessante para quem gosta de histórias em quadrinhos. A editora Pipoca & Nanquim lançou na sexta-feira passada uma edição definitiva de “O eternauta”, HQ de ficção científica criada pelo autor argentino Héctor Germán Oesterheld em 1957. Essa HQ estava há mais de dez anos fora do catálogo brasileiro e se destaca por trazer os desenhos originais do desenhista Solano López em alta definição. Lucas, qual é a trama “O eternauta”?

Lucas: “‘O eternauta’ traz uma invasão extraterrestre em Buenos Aires. Logo nas primeiras páginas, o viajante no tempo Juan Salvo vai pro final da década de 1950 e encontra um roteirista de quadrinhos, que é uma espécie de alter ego do autor Héctor Oesterheld, para quem o protagonista conta o que acontecerá na capital argentina no futuro. Em uma noite de 1963, uma nevasca mortal cai sobre a cidade, matando qualquer pessoa que tivesse contato com a neve. Juan está protegido em uma casa com amigos quando a neve começa a cair. Para descobrir o que está acontecendo, o protagonista sai de casa usando um traje isolante, que dá origem ao Eternauta. Ele descobre que a capital argentina está sendo atacada por alienígenas, que são combatidos a partir de atos de heroísmo coletivo entre os sobreviventes. A ambientação fidedigna de Buenos Aires é um dos principais aspectos de “O eternauta”, com a apresentação de locais como o Monumental de Núñez, que é o estádio do River Plate, e a Plaza de Mayo. Em uma segunda versão da história, Oesterheld faz críticas contundentes ao imperialismo americano e europeu, afirmando que as grandes nações ofereceram à América Latina aos extraterrestres.

Conrado: E, Lucas, esse personagem acabou virando símbolo da política argentina, né? Como isso aconteceu?

Lucas: “As primeiras histórias da sequência “O eternauta 2” foram lançadas em 1976. Na nova trama, tem uma mudança do foco do heroísmo coletivo para dar um papel de liderança a Juan Salvo. Ele passa a estar disposto a fazer tudo para libertar o “povo das covas” da ameaça extraterrestre. Isso pode ser interpretado como uma metáfora aos montoneros, um grupo guerrilheiro o qual Héctor Oesterheld era integrante durante a ditadura argentina, que durou entre 1976 e 1983. Antes disso, Oesterheld fez a biografia em quadrinhos de Che Guevara. O autor desapareceu em abril de 1977, após ser levado por autoridades do regime argentino. Posteriormente, um militar disse a um jornalista italiano que a biografia de Che foi o motivo de seu desaparecimento.”

Conrado: Leia mais sobre os temas que a gente tratou neste episódio em nexojornal.com.br. 

[vinheta]

Conrado: Das entranhas do crime organizado expostas por uma execução à luz do dia no maior aeroporto do país, passando pela conjunção de interesses entre Trump e Lula, pelas prioridades da COP29 e por um super-herói argentino que agora está de volta nas livrarias brasileiras, Durma com Essa.

Conrado: O programa desta semana teve Conrado Corsalette no roteiro, produção e apresentação, teve Aline Pellegrini na edição de texto, teve participações de João Paulo Charleaux, Mariana Vick e Lucas Zacari, teve Lucas Neopmann na produção de arte e Brunno Bimbati na edição de áudio. A gente volta semana que vem. Até!

NEWSLETTER GRATUITA

Nexo | Hoje

Enviada à noite de segunda a sexta-feira com os fatos mais importantes do dia

Este site é protegido por reCAPTCHA e a Política de Privacidade e os Termos de Serviço Google se aplicam.

Gráficos

nos eixos

O melhor em dados e gráficos selecionados por nosso time de infografia para você

Este site é protegido por reCAPTCHA e a Política de Privacidade e os Termos de Serviço Google se aplicam.

Navegue por temas