Coluna

Alicia Kowaltowski

5 anos após a pandemia, involuímos cientificamente

31 de março de 2025

Temas

Compartilhe

É irônico lembrar que o avanço das vacinas contra a covid veio de uma ação apoiada por verbas públicas estadunidenses durante a primeira presidência de Trump

Há exatos cinco anos, a recomendação para quase todas as pessoas, em quase todos os países do mundo, era ficar em casa e evitar contato ou proximidade desnecessária com outros. Era uma tentativa global de conter o avanço de um vírus altamente transmissível sobre o qual conhecíamos muito pouco, mas que claramente causava uma doença grave e mortal. 

Quando nos lembramos dessa época, certamente vem a tristeza pelas perdas de vidas e a admiração pelos profissionais de saúde e trabalhadores essenciais que continuaram se arriscando para garantir o bem-estar da sociedade. Fica também a lembrança distópica das cidades esvaziadas e da passagem de grande parte das nossas vidas para o mundo virtual, além da incerteza sobre o que iria acontecer. Eu particularmente me lembro de pensar sempre que, apesar de todas as dificuldades, haveria um benefício quando tudo passasse: que as pessoas aprenderiam mais sobre como a ciência funciona e passariam a respeitá-la.

E de fato aprendemos muito em muito pouco tempo. Compreendemos os mecanismos da doença, aprendemos características sobre o vírus e como ele se transmite, entendemos melhor como a sociedade responde a essas situações. Aprendemos isso tudo com boa ciência, que adaptou técnicas sofisticadas e redirecionou os esforços de seus cientistas para a crise do momento. Os avanços científicos não podem ter passado despercebidos da população geral, até porque eles geraram um feito incrível: a criação de vacinas em menos de um ano, incluindo os imunizantes novos e altamente eficazes de mRNA, capazes de revolucionar completamente a história natural da doença. Esse avanço obviamente não veio do nada, e o público geral conheceu como se gera esse conhecimento com base em estudos e preparos anteriores. 

É irônico lembrar que o avanço das vacinas de mRNA contra a covid veio de uma ação para aceleração de desenvolvimento de vacinas apoiada por verbas públicas estadunidenses durante a primeira presidência de Donald Trump. Isso porque, menos de cinco anos depois, estamos em um segundo governo Trump com um secretário de Saúde que é abertamente antivacina. As atitudes de Robert F. Kennedy Jr. têm ajudado a disseminar o sarampo em seu país, uma doença que não deveria sequer existir dada a eficácia prolongada de imunizantes. Para piorar o quadro de involução, o mesmo Kennedy Jr. espalha desinformação ao sugerir que suplementos ricos em vitamina A, como óleo de fígado de bacalhau, são eficazes para tratar sarampo – o que tem elevado casos de danos ao fígado no sistema estadunidense. Nos Estados Unidos, o retrocesso não ocorre somente na área de saúde: envolve também a ciência, justamente a base de sustentação que sempre diferenciou os EUA em seu desenvolvimento econômico.

Apesar de ser um progresso termos no governo Lula pessoas que não se opõem abertamente a vacinas ou cientistas, como ocorria no governo Bolsonaro, é preciso admitir que as ações têm sido insuficientes no Brasil. O apoio financeiro ou logístico para atividades de pesquisa ainda é escasso, assim como a valorização da carreira de cientista é muito baixa. Mesmo em ações de saúde como a vacinação, em que o Brasil sempre se destacou, involuímos: os  índices de vacinação infantil estão um pouco melhores do que no fim da gestão Bolsonaro, mas ainda muito mais baixos do que deveriam ser. 

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Navegue por temas