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Cássia Caneco, Jessica Tavares e Graciela Medina
Naturalizar diferenças não somente silencia debates de raça no Brasil, mas também atrasa a resposta para transformar boletins de mortes em políticas públicas. Políticas que não sejam higienistas e excludentes
Para entender a pandemia à moda brasileira é preciso conhecer o Brasil. Há 50 dias vislumbramos projeções de um futuro pós-pandêmico com possibilidades de reinvenção, com músicas nas sacadas, ações solidárias, com a sociedade civil pressionando o Estado a adotar medidas que ampliassem os gastos sociais contrariando a cartilha neoliberal. Streamings semeavam um otimismo visionário acompanhado de solos de saxofone.
Precisou que o coronavírus, depois de atravessar o Atlântico, vencesse também as distâncias dos caminhos entre a periferia e o centro da cidade de São Paulo. Que chegasse aos extremos, viajando junto às trabalhadoras e trabalhadores, em mais uma extensa jornada de retorno para casa, no horário de pico, entre baldeações subterrâneas, conduções lotadas e lanches pouco nutritivos para que os planos de superação conjunta se apartassem.
Apesar da subnotificação, já em abril ficava claro, a partir da territorialização dos óbitos, que embora o número de casos diagnosticados fosse maior entre a população da zona centro-oeste de São Paulo, as mortes aconteciam em maior número na periferia. Na mesma cidade, duas curvas distintas relacionadas ao vírus. Porém, só uma delas era consequência de precariedades históricas. As narrativas sobre as desigualdades urbanas na grande mídia e nas redes sociais mandavam avisar que não caberiam todos no futuro.
A caracterização territorial da moradia, desde antes da pandemia, coincide com a ausência de saneamento básico, coabitação e/ou precariedades habitacionais. A progressão do contágio e da letalidade da covid-19 também evidencia a distribuição desigual dos serviços públicos na cidade. (As regiões mais ricas e centrais da cidade concentram mais de 60% dos leitos de UTI do SUS ).
No entanto, a diferença centro x periferia não pode ser a leitura única para compreensão dos padrões de contágio, já que não dá conta de entender a vulnerabilidade de grupos sociais específicos e porque pode, ainda, endossar discursos preconceituosos de culpabilização da pobreza.
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