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Dia a dia do golpe: a marcha da família com Deus pela liberdade

Mariana Vick

18 de março de 2024(atualizado 12/04/2024 às 15h54)

O ‘Nexo’ recupera nesta série de textos os momentos determinantes da ruptura democrática promovida pelos militares em 1964. Relembre a primeira grande manifestação contra Jango há exatos 60 anos 

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FOTO: Wikimedia CommonsImagem em preto-e-branco mostra multidão de pessoas, numa manifestação.

Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de 1964

Quando João Goulart discursou em frente à Central do Brasil a favor das reformas de base, em 13 de março de 1964, janelas da zona sul do Rio de Janeiro exibiram velas em vigília. O ato religioso e político condenava o então presidente e seu chamado “comunismo ateu”. A reação se transformaria seis dias depois na maior manifestação em mais de três anos contra o governo trabalhista: a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, com cerca de 500 mil pessoas nas ruas de São Paulo.

A imensa “massa humana” que caminhou por uma hora e meia no centro da cidade, da praça da República à catedral da Sé, como descreveram os jornais na época, expressou em cartazes a repulsa à guinada à esquerda de Jango. “Verde e amarelo, sem foice e sem martelo”, “reforma com Deus e pela pátria”, “democracia tudo, comunismo nada”, diziam os textos. Um dos oradores sintetizou o espírito da data:

“Hoje é o dia de São José, padroeiro da família, o nosso padroeiro. Fidel Castro é o padroeiro de [Leonel] Brizola [então deputado e aliado do presidente]. É padroeiro de Jango. É o padroeiro dos comunistas. Nós somos o povo. Não somos do comício da Guanabara [discurso da Central do Brasil de Jango], estipendiado pela corrupção. Aqui estão mais de 500 mil pessoas para dizer ao presidente da República que o Brasil quer a democracia, e não o tiranismo vermelho”

Benedito Mário Calazans

padre e então senador pela UDN, em discurso em 19 de março de 1964, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo 

A imputação da “ameaça comunista” a Jango era um exagero, como disseram historiadores mais tarde. A expressiva parcela da população que se reuniu em 19 de março de 1964, puxada por setores conservadores e religiosos, no entanto, via no governo da época a representação de seus principais medos. Contra eles valia tudo — até um golpe militar.

O que aconteceu naquele dia

O comércio do centro de São Paulo fechou as portas às 15h, horário em que estava previsto o início da concentração na praça da República, e o setor industrial permitiu que empregados fossem ao ato. A cidade adquiriu “aspectos de feriado”, como definiu o jornal Folha de S.Paulo. 

Delegações de mais de dez estados e do interior de paulista foram à manifestação, divulgada em anúncios na imprensa no dia anterior. Articulado pelo deputado estadual Antônio Sílvio da Cunha Bueno, com apoio do governador Ademar de Barros, o ato foi preparado por entidades femininas e rurais e classes produtoras de São Paulo. Mulheres, religiosos e militares estavam entre os participantes do evento, destacado nos jornais por seu caráter cívico:

O protesto buscava sensibilizar a opinião pública contra as reformas anunciadas por Jango poucos dias antes. Oradores, políticos e manifestantes expressaram repúdio ao comunismo e enalteceram Deus, a liberdade e as leis brasileiras contra o que viam ser uma tentativa de ditadura do governo. Também apareceu nos discursos a defesa da família e de uma intervenção militar que “saneasse” o país:

“Esta manifestação popular é uma prova de que São Paulo e o Brasil querem ver sua bandeira eternamente livre. A liberdade é como a saúde: somente lhe damos valor depois que a perdemos. Queremos paz, tranquilidade. E, sobretudo, exigimos respeito à Constituição e às instituições democráticas” 

Cyro Albuquerque

deputado estadual de São Paulo pelo PSP e então presidente da Assembleia Legislativa, em 19 de março de 1964; depois ele se filiaria à Arena, partido da base de apoio da ditadura militar

“Sentimos que hoje é um dia de importância histórica para o Brasil. O povo veio à praça pública para demonstrar sua confiança na democracia. Veio para afirmar perante a nação que os democratas não permitirão que os comunistas sejam os donos da pátria. Democratas do Brasil, confiem, não desconfiem das gloriosas Forças Armadas de nossa pátria. […] Que sejam feitas reformas, mas pela liberdade. Senão, não”

Auro Soares de Moura Andrade

senador pelo PSD e então presidente do Congresso Nacional, em 19 de março de 1964; depois ele se filiaria à Arena, partido da base de apoio da ditadura militar

“Bravos soldados, marinheiros e aviadores de nossa pátria, sereis capazes de erguer vossas armas contra aqueles que querem se levantar, aqueles que se levantam contra a desordem, a subversão, a anarquia, o comunismo? Contra aqueles que querem destruir os lares e a soberania da pátria? Esta manifestação não vos comove? Será possível que permitireis, ainda, que o Brasil continue atado aos títeres de Moscou?”

Plínio Salgado

militante integralista e então deputado federal pelo PRP, em discurso em 19 de março de 1964; depois ele se filiaria à Arena, partido da base de apoio da ditadura militar

Presente no ato, o veterano Geraldo Goulart, que tinha participado da Revolução Constitucionalista de 1932, comparou a situação de então com a que havia originado o movimento paulista contra Getúlio Vargas. “1, 2, 3, Brizola no xadrez”, gritavam os manifestantes, que acenavam com lenços brancos. Depois da caminhada, a marcha terminou com  uma missa “pela salvação da democracia”, junto com a distribuição do “Manifesto ao povo do Brasil”, que convocava a população a se mobilizar.

A importância histórica daquele dia

Para historiadores, a Marcha da Família representou a legitimação popular do golpe que viria depois. Partidários do evento falaram no aspecto pacífico, heterogêneo e aparentemente espontâneo da multidão, que unia de senhoras paulistas a grupos de estudantes. O grupo buscava se contrapor à plateia de Jango na Central do Brasil, reduzida pela oposição a militantes de esquerda.

O ato também foi marcado pela presença de figuras políticas importantes, como a esposa do governador de São Paulo, Leonor Barros, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, e o presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade. Havia ainda a chancela de entidades e de setores da economia paulista. Entre as organizações que encabeçaram ou apoiaram o protesto, pode-se destacar:

  • a Campanha da Mulher pela Democracia
  • a União Cívica Feminina
  • o Movimento de Arregimentação Feminina
  • a Fraterna Amizade Urbana e Rural
  • a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo)
  • o Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo)

Diversos registros da época atribuíram às mulheres o protagonismo do evento. Formadas por integrantes das elites e classes médias, as associações cívicas femininas foram um fenômeno importante da vida política brasileira entre os anos 1950 e 1960. Atuando contra a “infiltração comunista” e a “degradação dos valores cristãos” no país, elas trouxeram à manifestação de 1964 um elemento “civilizador”, segundo estudos:

“A interferência da mulher, ser privado, no mundo político, tem […] um sentido redentor, de salvação do lar, da família, da religião — instituições fundantes do modo de vida cristão, que estão acima de disputas e querelas políticas. […] como elemento “estabilizador, civilizador e pedestal da moral”, [a figura feminina] foi transformada em símbolo de uma ‘revolução’ supostamente pacífica, que não derramou sangue, salvadora e purificadora da nação”

Janaína Martins Cordeiro 

professora adjunta de história contemporânea da UFF (Universidade Federal Fluminense), em artigo de 2021 sobre a marcha de 1964 

Além de legitimar o golpe nas vésperas de sua realização, a marcha foi usada depois dele para justificar a manutenção da ditadura militar. Não era sem motivo: as manifestações continuaram a ocorrer após a deposição de Jango, rebatizadas de “marchas da vitória”. Em 2 de abril, dois dias após o levante militar, no Rio de Janeiro, estima-se que o maior desses atos tenha reunido 1 milhão de pessoas.

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marchas da família com deus pela liberdade ocorreram de 19 de março a 1º de junho 1964, segundo levantamento; depois, movimento se dissolveu 

Como a data repercutiu

A marcha ganhou uma cobertura ampla e elogiosa nos principais jornais do país. “Espetáculo”, “maior movimento cívico já observado em nosso estado” e “fabulosa concentração popular” foram algumas das descrições dadas ao evento pela Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo. Mesmo os pequenos incidentes da manifestação, contados em tom de curiosidade, não passaram despercebidos:

“Outro fato […] foi a detenção que a polícia que vistoriava a passeata efetuou na praça da Sé, de dois jovens que portavam dentro do carro grande quantidade de ovos de galinha. Apontados por transeuntes, que disseram que os rapazes iam jogar os ovos na multidão, os dois foram detidos e encaminhados ao Dops [Departamento de Ordem Política e Social]. Só então foi constatado que as caixas se destinavam a um supermercado”

Folha de S.Paulo

em nota publicada no dia 20 de março de 1964 

Imagem mostra três capas de jornais, lado a lado, com destaque para a marcha da família com deus pela liberdade em 1964.

Capas dos jornais O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo em 20 de março de 1964

Se nas reportagens havia elogios, os editoriais (texto que expressa a opinião de um jornal) deixaram clara a simpatia da imprensa pelo ato. Depois de ter comparado Jango aos ditadores pelo comício das reformas de base, a Folha de S.Paulo disse sobre a marcha: “ali estava o povo mesmo, o povo povo, constituído pela reunião de todos os grupos que trabalham pela grandeza da pátria”. O Estadão teve o mesmo discurso:

“Já estão muito bem definidas, em todo o país, as posições das duas parcelas em que se divide a nação nestas horas históricas de nossa evolução política: a minoria disposta a rasgar a Constituição para arrastar-nos à ditadura totalitária e a imensa maioria do povo brasileiro decidida a opor-se a tais propósitos e a consolidar e aperfeiçoar a iniciativa”

O Estado de S. Paulo

no editorial “A hora decisiva”, publicado em 20 de março de 1964 

Não houve nos textos menção aos pedidos dos manifestantes de intervenção militar — possibilidade, aliás, defendida pela Folha contra Jango em editorial publicado dias antes. Também não houve críticas no jornal O Globo ao ato. Para o veículo carioca, não era mais possível que os democratas continuassem a fazer concessões ao governo:

“Para evitar o agravamento da situação, para contemporizar, à espera de que a sucessão presidencial solucione naturalmente o conflito político, para não parecer insensíveis às reivindicações de justiça social que têm servido de pretexto a muitas cargas contra o regime, os democratas brasileiros têm transigido demais. Não é possível transigir por mais tempo, pois esta atitude está sendo tomada como de fraqueza”

O Globo

no editorial “A palavra de ordem dos patriotas”, publicado em 20 de março de 1964 

O que veio logo depois

Seis dias depois da marcha, ocorreu no Rio de Janeiro outro evento que se somou aos antecedentes do golpe militar: a Revolta dos Marinheiros, episódio em que 2.000 integrantes da categoria resistiram a uma ordem de prisão contra seus principais representantes emitida pelo então ministro da Marinha Sílvio Mota. Liderada por José Anselmo dos Santos, conhecido como cabo Anselmo, a rebelião foi sufocada pelo Exército. Jango, porém, demitiu o ministro e mandou libertar os presos.

FOTO: Arquivo Nacional/Correio da ManhãImagem em preto-e-branco mostra gorros de marinheiros espalhados em calçada.

Gorros de marujos lançados à calçada em resistência a ordem de prisão em 1964

Essa história vai ser detalhada no dia 25 de março de 2024, quando o Nexo publica mais um capítulo desta série sobre o dia a dia do golpe. O texto vai descrever o que ocorreu no dia da revolta, qual foi sua importância histórica e quais foram as reações e os passos seguintes. Acompanhe! 

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