Expresso

Como um estudo sobre conchas revela que os dias eram mais curtos

15 de março de 2020(atualizado 27/12/2023 às 17h23)

Analisando anéis de crescimento de moluscos fossilizados, pesquisadores fizeram descobertas sobre a órbita da Terra há 70 milhões de anos 

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FOTO: DIVULGAÇÃO

Pedra laranja com várias porosidades ao decorrer do corpo. Fundo preto

Rudistas do período Cretáceo encontrado nas atuais montanhas al-Hajar, no Omã

Cientistas belgas descobriram que há 70 milhões de anos, no período Cretáceo, um ano terrestre tinha 372 dias, e não os atuais 365. O planeta girava mais rápido e, com isso, a duração dos dias também era mais curta: 23 horas e meia.

De acordo com o estudo publicado na revista acadêmica “Paleoceanografia e Paleoclimatologia”, da União de Geofísica dos Estados Unidos, essa diferença é influenciada pelas forças gravitacionais entre Terra e Lua. As descobertas permitiram aos pesquisadores criar modelos que mostram o que mudou na distância entre os dois corpos celestes no decorrer da história do Universo.

Para chegar a essas conclusões, eles estudaram o fóssil de uma concha de molusco do período Cretáceo. O molusco era um rudista, animal que dominava recifes de águas tropicais pelo mundo, mas que foi extinto junto com os dinossauros.

Como o estudo foi feito

Os rudistas cresciam rapidamente formando novas camadas de anéis, em um processo diário. Com a ajuda de lasers, os pesquisadores estudaram fatias minúsculas da concha de um animal que viveu por nove anos.

O tamanho dos cortes foi de até 10 micrômetros de diâmetro, o equivalente a uma célula sanguínea. Acompanhando os padrões de faixa da concha, pôde-se identificar quando um ano começava e terminava.

Geralmente, reconstruções do passado longínquo descrevem mudanças na escala de milhares de anos. Analisando essas fatias, os cientistas puderam acompanhar a evolução desses animais e as condições da água da época com uma precisão de dias.

Análises químicas indicaram, por exemplo, que a temperatura dos oceanos no final do período Cretáceo era mais quente do que se imaginava: quase 40ºC no verão e mais de 30ºC no inverno. Na época, os polos não tinham gelo , e os oceanos tinham temperaturas mais uniformes. Hoje, elas vão de -2ºC (nos polos) a 35ºC (nos trópicos).

O estudo também encontrou evidências de que os rudistas abrigavam organismos fotossintéticos que mantinham vivos recifes. Segundo cientistas, esses moluscos eram tão importantes para o ecossistema como os corais atuais.

Forças gravitacionais entre Terra e Lua

Em termos de horas, a duração de um ano terrestre nunca mudou, porque a órbita da Terra em torno do Sol não muda. Já o número de dias vem diminuindo porque, ao longo de milhares de anos, o planeta tem feito cada vez menos rotações.

Isso acontece porque a intensidade das forças gravitacionais entre Terra e Lua vêm mudando. A interação entre os dois é sempre a mesma: Terra atrai Lua, e Lua atrai Terra. Mas essa atração é mais ou menos fraca em pontos diferentes do planeta: uma região à noite, por exemplo, é mais atraída pela Lua do que outra de dia. Os oceanos refletem isso com as marés.

Quanto mais rápido o planeta gira, mais forte é o efeito das marés. Em contrapartida, por estar em contato com as águas, o atrito desacelera o movimento de giro da Terra. A atração gravitacional entre Terra e Lua fica mais fraca e, em consequência, essa última vai se afastando.

O cálculo é que, a cada ano, o satélite se distancia 3,82 cm do planeta. Mas os cientistas sabem que essa nem sempre foi a taxa de afastamento. Cálculos mostram que, se seguisse esse ritmo, há 1,4 bilhão de anos a Lua estaria dentro da Terra – quando a formação do satélite data de pelo menos 4,5 bilhões de anos.

São esses buracos da trajetória que o estudo desse e de outros fósseis pode ajudar a preencher. Analisando a vida de organismos antigos, poderão ser propostos modelos para a formação do Sistema Solar e para o monitoramento das mudanças climáticas da Terra, segundo os pesquisadores.

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