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Alicia Kowaltowski

As novas revelações sobre o metabolismo de dinossauros

01 de junho de 2022

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Cientistas descobriram método que permite determinar taxas metabólicas de animais fossilizados, incluindo as de espécies como o Tyrannosaurus rex

Dinossauros sempre atiçam a nossa curiosidade. Talvez este interesse se relacione ao fato de que estão extintos há mais de 60 milhões de anos, e, portanto, nunca foram vistos pelo homem (que surgiu há menos de meio milhão de anos). Talvez sejam fascinantes por terem dominado a Terra por cerca de 200 milhões de anos antes de sumir, tendo assumido formas e estilos de vida vastamente diferentes. Exemplos incluem o brasileiroAustroposeidon magnificus , que comia plantas e media estonteantes 25 metros de comprimento (o mesmo que dois ônibus), e Hesperonychus elizabethae , um pequeno carnívoro norte-americano que andava com duas pernas e pesava menos de dois quilos (metade do peso de um gato doméstico).

Sabemos sobre a vida de dinossauros através do estudo de fósseis. Estes nos dão informações sobre a anatomia destes animais, e a partir do formato de seus corpos é possível determinar características de como viviam. Porém, o metabolismo dos dinossauros, ou as reações químicas que transformam as suas moléculas e aquilo que eles comiam, é mais difícil de entender por meio de fósseis. Moléculas grandes, como as que compõem nossos corpos, não se preservam bem no tempo, e não estão presentes em fósseis. Até mesmo o DNA, a biomolécula mais resiliente que temos, só pode ser encontrado em amostras de até cerca de milhão de anos, e mesmo assim em condições especiais, como nos corpos de mamutes congelados na Sibéria , e já com significativa degradação.

Um trabalho publicado em maio desenvolveu uma técnica que pode ajudar a dar pistas sobre o metabolismo de animais a partir de tecidos fossilizados e muito antigos. Usando técnicas espectroscópicas avançadas, eles conseguiram medir quantidades de resquícios de moléculas que são alteradas por radicais livres nos fósseis. Animais como os atuais mamíferos e pássaros, que mantém suas temperaturas corporais quentes constantemente, necessitam quebrar mais moléculas para gerar a energia que os aquece, e neste processo também geram mais radicais livres. As alterações causadas por estes radicais nas moléculas se preservam com o tempo, e podem ser usadas para estimar as taxas metabólicas de animais fossilizados. Usando fósseis de animais que sabemos ser endo ou ectotérmicos (de sangue quente ou frio, em termos coloquiais), os cientistas puderam demonstrar que as taxas de modificação destas moléculas por radicais livres são distintas o suficiente, e não se alteram com o tempo de fossilização, permitindo assim saber qual a temperatura dos corpos dos fósseis de dinossauros.

De modo geral, ter temperaturas corporais mais altas acelera a velocidade em que ocorrem reações metabólicas nos corpos de animais. Isso traz a distinta vantagem de ter corpos que funcionam e são capazes de responder a estímulos, procurando comida, socializando e escapando de predadores mesmo quando as temperaturas diminuem, como à noite e no inverno. Animais que não aquecem seus corpos ativamente, como anfíbios e répteis, se aquecem predominantemente a partir do calor ambiente (e por isso podem ser vistos frequentemente deitados ao sol), e possuem baixa capacidade de realizar qualquer atividade no frio. Se por um lado esta dependência do calor do ambiente os faz mais vulneráveis a serem caçados por predadores e menos adaptáveis a diferentes ambientes, ter temperaturas corporais baixas é muito econômico metabolicamente. Por causa de suas temperaturas independentes de calor metabólico, anfíbios e répteis precisam comer muito menos que mamíferos e aves para se manter vivos.

Este balanço de vantagens e desvantagens entre ter corpos quentes ou frios e taxas metabólicas maiores ou menores foi testado pela evolução em mais de uma instância, conforme demonstrado nos experimentos com fósseis dos dinossauros. O estudo verificou que dinossauros descendem de ancestrais com sangue quente, uma característica que persistiu em espécies como oTyrannosaurus rex e na classe de saurópodes do brasileiroAustroposeidon magnificus. Esta característica também persiste nos atuais pássaros, que descendem de ancestrais doT. rex. Por outro lado, dinossauros como o Stegosaurus e Triceratops tinham taxas metabólicas lentas típicas de animais de sangue frio, embora descendam dos mesmos dinossauros precursores de sangue quente. Isso indica que houve uma adaptação em que seus ancestrais desenvolveram corpos mais frios. Por outro lado, nós mamíferos não descendemos de dinossauros, mas sim de animais de sangue frio. O fato de termos sangue quente mostra que a natureza adaptou o metabolismo de animais várias vezes para mais quente ou mais frio, dependendo das pressões evolutivas presentes.

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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