Coluna

Alicia Kowaltowski

3 desafios para um governo que valoriza a ciência

27 de julho de 2022

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É preciso combater o triste cenário de desestímulo aos pesquisadores brasileiros e recompor o financiamento científico

Esta coluna foi escrita por Hugo Aguilaniu para a campanha #ciêncianaseleições, que celebra o Mês da Ciência. Em julho, colunistas cedem seus espaços para refletir sobre o papel da ciência na reconstrução do Brasil. Hugo Aguilaniu é biólogo geneticista e diretor-presidente do Instituto Serrapilheira.

Se o próximo governo federal estiver interessado – e desejamos que esteja – em abraçar a ciência brasileira e valorizá-la, após anos de desmonte, ele terá que enfrentar três grandes desafios.

O primeiro é a recomposição do financiamento à ciência – não apenas dos fundos do próprio Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações, mas também do FNDCT, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. O cenário dos investimentos públicos em ciência sempre foi de insegurança e fragilidade porque eles nunca constituíram uma política de Estado, e sim de governo. Além disso, o financiamento público federal à ciência tem caído sistematicamente desde 2014, com imenso prejuízo a instituições e pesquisadores de todo o país. Garantir a continuidade de políticas implica estruturar um sistema mais robusto de financiamento à ciência.

O segundo desafio é estancar a fuga de cérebros do Brasil. O Instituto Serrapilheira começou a financiar jovens cientistas em 2018 e chegou a um total de 142 pesquisadores apoiados em 2022, mas dez deles já deixaram o país. Isso é só um indicador de um processo muito mais amplo, que vem se acentuando com a crise das instituições de pesquisa, com a estagnação dos valores de bolsas e auxílios e com as dificuldades burocráticas enfrentadas por pesquisadores.

Sabemos que os recursos financeiros que oferecemos não são suficientes para segurá-los por aqui porque eles não sentem a segurança de que conseguirão dar continuidade a suas pesquisas depois que o apoio acabar. Isso se deve a um sistema precarizado de financiamento. O Serrapilheira, como um instituto privado, é um agente suplementar à verba pública no fomento à ciência.

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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