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Alicia Kowaltowski

Por que a ciência deve pautar políticas públicas

13 de julho de 2022

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A pouca importância que o atual governo dá aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável é realçada pela predatória política ambiental, associada a um tosco e intencional negacionismo científico

Esta coluna foi escrita para a campanha #ciêncianaseleições, que celebra o Mês da Ciência. Em julho, colunistas cedem seus espaços para refletir sobre o papel da ciência na reconstrução do Brasil. Quem escreve é o físico e professor da USP (Universidade de São Paulo) Ricardo Galvão.

O desenvolvimento socialmente justo e sustentável é um dos desafios mais complexos enfrentados pela humanidade em sua história. Visando superá-lo, a ONU (Organização das Nações Unidas) propôs, na Conferência RIO+20, realizada no Rio de Janeiro em 2012, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS, formalmente instituídos em sua Assembleia Geral, em 2015. Esse documento, também referido como Agenda 2030, é “universal e exige ação de todos os países, pobres, ricos e de renda média, para promover o crescimento econômico inclusivo e o desenvolvimento social, protegendo o planeta”. No entanto, sua implantação está longe de ser simples e, apesar de alguns esforços bem-sucedidos, poucas nações têm tomado as medidas necessárias para alcançar esses objetivos.

Um fator que tem dificultado a implantação da Agenda 2030, além dos entraves econômicos e da resistência de grupos de interesse, é a ausência do conhecimento científico e tecnológico moderno na formulação de políticas públicas. Em documento publicado em 2016, o Conselho Científico Consultivo do Secretário-Geral da ONU realça o papel crucial da ciência para o desenvolvimento sustentável, afirmando que “as políticas de desenvolvimento sustentável devem ser ancoradas nos melhores conhecimentos e práticas científicas disponíveis dos seres humanos”, e que “a criação de conhecimento científico e as plataformas de tomada de decisão política devem estar, a este respeito, intrinsecamente ligadas”.

Infelizmente, em nosso país a Agenda 2030 caminha a passos trôpegos e aleatórios. Apesar do esclarecimento da Secretaria de Governo, publicado em 30 de janeiro de 2020 e atualizado em 9 de março 2020, o veto presidencial à adoção dos ODS como diretriz do Plano Plurianual 2020–2023 é uma demonstração inequívoca da pouca importância que o atual governo dá a esses objetivos. Isso é fortemente realçado pela predatória política ambiental, associada a um tosco e intencional negacionismo científico. Mas estamos na véspera de uma eleição que pode alterar esse cenário, trazendo alento e esperança de retomada da trilha para o desenvolvimento socialmente justo e sustentável em nosso país. Assim, é importante analisar o papel da ciência a partir dessa perspectiva.

A grave situação econômica em que nos encontramos, associada a um enorme retrocesso na educação, sustentabilidade alimentar, empregabilidade e bem-estar social, meio ambiente, atividade industrial, atividade científica e inovação etc., representa um assustador desafio para o próximo governo. Além disso, a fim de evitar consequências desastrosas do aquecimento global, o governo deverá ser capaz de formular e implantar estratégias de resiliência, incluindo a transição energética e a agricultura sustentável. Mas a recuperação do país e o enfrentamento do aquecimento global não se darão sem incorporar o conhecimento científico na formulação das políticas públicas.

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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