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Movimento Pessoas à Frente

A gestão de pessoas no serviço público precisa ser tema nas eleições

02 de julho de 2024

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A administração municipal pode ser muito mais ao valorizar as pessoas que a compõem

O município é o coração da gestão pública e onde a vida cotidiana acontece. Nas cidades, as pessoas vivem, trabalham e realizam seus sonhos. É a instância federativa mais próxima do cidadão, na qual a gestão pública impacta mais rapidamente as suas vidas, por meio de serviços de saúde, educação, zeladoria, mobilidade, e diversos outros. 

As eleições municipais, a cada quatro anos, são a oportunidade para a sociedade refletir sobre a qualidade destes serviços públicos, cobrar seus governantes e dar o seu voto a quem acha que melhor pode liderar e cuidar da sua cidade no período. Os candidatos e candidatas aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador, protagonistas do processo eleitoral, são os que ganham mais visibilidade neste período. 

No entanto, a partir do primeiro dia do seu mandato, essas lideranças precisarão coordenar um grande efetivo de pessoas para transformar as promessas eleitorais em melhorias concretas nos serviços oferecidos aos cidadãos. Para isso, dependerão de outros atores, muitas vezes pouco evidenciados no debate: os servidores públicos.

É imprescindível que todos os programas de governo prevejam uma abordagem estratégica de gestão de pessoas no setor público

Nos municípios, trabalham quase 60% dos servidores públicos em atividade no país, totalizando 6,5 milhões de pessoas. Esses profissionais são responsáveis por transformar diretrizes políticas em ações concretas, mobilizando os recursos necessários e, muitas vezes, atuando em situações adversas para servir à população. Sem tê-los motivados, engajados e atuantes, é muito difícil que as lideranças eleitas consigam promover mudanças significativas.

Em pesquisa Datafolha realizada a pedido do Movimento Pessoas à Frente em 2023, 83% dos entrevistados afirmaram acreditar que os funcionários públicos poderiam oferecer mais à população se o Estado proporcionasse melhores condições para a realização de suas tarefas. É imprescindível, portanto, que todos os programas de governo prevejam uma abordagem estratégica de gestão de pessoas no setor público, aderente às melhores práticas de gestão e desenvolvimento de recursos humanos. Isso significa ir além das atividades táticas e operacionais dos Departamentos de Pessoal, que muitas vezes se limitam à gestão da folha de pagamento e à alocação de pessoas em cargos.

Uma nova abordagem deve começar pela escolha de lideranças empenhadas e com perfil adequado para as secretarias, selecionadas com base nas competências necessárias para o bom desempenho de suas funções. Importa combinar competências políticas, gerenciais e técnicas. Assim, além do alinhamento com a agenda eleita nas urnas, devem ser priorizadas as qualificações necessárias para atuar nas temáticas das pastas assumidas. 

Alguns atributos imprescindíveis para uma boa atuação em cargos de liderança são: capacidade de delegar tarefas de forma eficaz; habilidade de se comunicar de forma clara e objetiva; de tomar decisões com base em dados e evidências; planejar e organizar tarefas, projetos e recursos; identificar problemas rapidamente e encontrar soluções efetivas; além da capacidade de identificar e desenvolver talentos.

Líderes bem escolhidos são capazes de inspirar e motivar suas equipes, promover um ambiente de trabalho seguro, harmonioso e impulsionar a eficiência e a eficácia dos serviços públicos. Evidências de diferentes pesquisas apontam que um corpo de servidores municipais qualificados, em número suficiente e bem geridos, promove melhores resultados fiscais, administrativos e orçamentários. Há resultados positivos na diminuição de irregularidades na gestão de recursos e na efetividade das políticas públicas.

Ainda em linha com a avaliação dos brasileiros, 93% acreditam que funcionários públicos deveriam ter seu trabalho avaliado de maneira constante, sendo recompensados de acordo com o seu desempenho. Um programa de gestão de desempenho e desenvolvimento que fortaleça lideranças e suas equipes é essencial para transformar o talento e a motivação dos servidores em serviços de qualidade para a população. 

A promoção da equidade étnico-racial e de gênero é outro aspecto fundamental para o aprimoramento do Estado e deve ser tratada de forma transversal em toda mudança do modelo de gestão de pessoas. Pessoas brancas ocupam cerca de 60% das vagas de liderança nos três níveis da federação, e as mulheres recebem apenas 74,2% da remuneração média do total de servidores. Corrigir essas desigualdades históricas, por meio de políticas de equidade, promove a confiança da população nas instituições e resulta em políticas públicas mais efetivas. Na citada pesquisa Datafolha, 71% dos cidadãos afirmam que teriam mais confiança nas instituições se os ocupantes de cargos importantes do poder público fossem mais parecidos com eles.

O Movimento Pessoas à Frente, ciente da importância dessa agenda e com o objetivo de subsidiar lideranças municipais, prefeitos e gestores, está lançando a publicação “Gestão de pessoas para lideranças municipais: guia de recomendações e boas práticas”. Construído a partir de extensa pesquisa em bases de dados, literatura especializada e na experiência acumulada do Movimento em construir propostas para a melhoria da gestão de pessoas nacionalmente, trata-se de um documento de referência para a construção de planos de governo e de planejamento governamental em nível municipal.

Uma efetiva estratégia de gestão de pessoas, devidamente planejada e executada, pode ampliar o potencial de impacto positivo na vida dos cidadãos. Além da seleção de lideranças mencionada anteriormente, é crucial focar na gestão de carreiras, na gestão do desempenho e do desenvolvimento, na elaboração de políticas adequadas de incentivos financeiros e não financeiros, no aumento da transparência e participação social e na promoção de uma burocracia mais representativa. A administração municipal já é um espaço de inovação diária, mas pode muito mais ao valorizar as pessoas que a compõem. 

Eduardo Araujo Couto é mestre em Ciência Política pela UFSCar e integrante do Movimento Pessoas à Frente.

Glaucio Neves é sócio da Macroplan Consultoria & Estratégia, mestrando em Economia da Estratégia no Insper/SP e pós-graduado em Administração pela Coppead/UFRJ e em projetos pela FGV/RJ. Possui 20 anos de experiência profissional e liderança de projetos de alta complexidade nos setores públicos e empresariais.

Movimento Pessoas à Frenteé uma organização da sociedade civil, plural e suprapartidária. Com base em evidências, ajuda a construir e viabilizar propostas para aperfeiçoar políticas públicas de gestão de pessoas no setor público, com foco em lideranças. A rede de membros do Movimento Pessoas à Frente une especialistas, parlamentares, integrantes dos poderes públicos federal e estadual, sindicatos e terceiro setor, que agregam à rede visões políticas, sociais e econômicas plurais.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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