Entrevista

‘A necropolítica não é novidade na história brasileira’

João Paulo Charleaux

10 de julho de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h14)

Historiador Sidney Chalhoub, da Universidade de Harvard, fala ao ‘Nexo’ sobre as epidemias do século 19 e as lições que elas deixam para a pandemia atual

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FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 07.10.2021

Foto mostra cruzes de madeira azuis em túmulos, com flores e faixas com mensagens. Ao fundo, um homem caminha pelo cemitério

Túmulos de vítimas da covid-19 no cemitério Parque Taruma, em Manaus, Amazonas

O negacionismo científico do governo de Jair Bolsonaro e a sua negligência em relação a medidas sanitárias, bem como a instabilidade política e as tensões ligadas à covid-19 no Brasil têm suas peculiaridades, mas não são fenômenos inéditos. Vários elementos da crise sanitária atual também ocorreram em epidemias do passado, e deixaram lições.

A constatação está nesta entrevista que o historiador Sidney Chalhoub , da Universidade de Harvard, concedeu por escrito ao Nexo no dia 2 de julho de 2021. O brasileiro é especialista na história do Brasil no século 19, mais precisamente na observação dos efeitos políticos, econômicos e sociais que as pandemias provocaram nessa época.

Chalhoub foi o convidado de terça-feira (6) do ciclo de palestras sobre a covid-19 promovido pelo Consulado da França em São Paulo, em parceria com a Unesco, órgão das Nações Unidas para educação e cultura, e com os Blogs de Ciência da Unicamp. A palestra de Chalhoub foi transmitida ao vivo e a gravação está disponível na página do Consulado da França no Youtube.

O que epidemias do passado, como a da febre amarela (1849-1850), a da cólera (1855) e a da varíola (1904) ensinam sobre a relação entre saúde e poder político, sobre as relações entre governo e sociedade no Brasil?

Sidney Chalhoub A febre amarela de 1849-1850 ocorreu quando o governo brasileiro sofria pressões para abolir o tráfico negreiro. Além da pressão inglesa, havia receio de revoltas escravas em áreas rurais e urbanas nas quais os africanos escravizados eram a grande maioria. A febre amarela era conhecida como uma doença que causava muitas mortes entre pessoas brancas, especialmente imigrantes europeus recém-chegados às Américas. O mesmo ocorreu no Brasil, pois portugueses morreram em grande número enquanto os africanos, talvez porque houvessem adquirido imunidade ao contrair a doença na África, mesmo quando adoeciam não iam a óbito. A gravidade daquela epidemia, vista como um flagelo para os brancos e poupadora dos negros, ajudou o governo a ter a determinação política necessária para abolir o tráfico africano em setembro de 1850.

FOTO: JOHANN MORITZ RUGENDAS/WIKIMEDIA COMMONS

Pintura retrata porão de navio negreiro cheio de escravizados seminus deitados no chão

O porão de um navio negreiro é representado pelo pintor alemão Johann Moritz Rugendas na tela ‘Nègres a fond de calle’

A epidemia de varíola de 1904 no Rio de Janeiro é mais lembrada, paradoxalmente, pela iniciativa governamental de combatê-la por meio da vacinação obrigatória, causando uma revolta que durou dias e foi reprimida com violência. A vacina antivariólica existia havia décadas, mas nunca se firmara entre a população. A aplicação era dolorida, a vacina deteriorava e não pegava, descobriu-se que espalhava doenças como a sífilis, e pessoas vacinadas contraíam varíola porque não se sabia da necessidade de revacinação. Apesar de a vacina ser mais segura no início do século 20, a população resistia, incentivada por políticos que achavam a vacinação um atentado à liberdade individual . Para completar o quadro que conduziu à revolta, um grupo de militares e políticos tentou aproveitar a situação para dar um golpe de Estado e derrubar o presidente [Rodrigues Alves, que governou de 1902 a 1906].

Pandemias e grandes epidemias podem ser aceleradores de processos de transformação política? Crises sanitárias do passado desembocaram em grandes mudanças?

Sidney Chalhoub É claro que epidemias graves levam a um desarranjo mais ou menos importante da vida de modo imediato. A discussão sobre os possíveis prejuízos econômicos de medidas sanitárias é velha. No século 19, pandemias se tornam mais frequentes devido à aceleração dos transportes, provocada pelo navio a vapor e pelas estradas de ferro; além disso, as notícias sobre elas chegam mais rápido por causa do telégrafo. Logo que se sabia da ocorrência de um evento epidêmico numa cidade portuária de comunicação frequente com portos brasileiros, começava-se a polêmica a respeito da adoção da quarentenas dos navios, da necessidade de fechamento ou não dos portos para embarcações de certas procedências, de como organizar inspeções sanitárias, etc.

FOTO: DOMÍNIO PÚBLICO

Protestos da Revolta da Vacina no Rio

Bonde virado no Rio de Janeiro durante a Revolta da Vacina de 1904

Todavia, as mudanças mais importantes causadas pelas pandemias tendem a acontecer mais lentamente e a ser mais duradouras. Por exemplo, as pandemias de cólera no século 19, que passaram a se espalhar por vários continentes a partir da década de 1830, fizeram emergir políticas públicas destinadas a fornecer água tratada à população, organizar a limpeza das cidades, construir redes de esgoto, aterrar pântanos, proibir enterramentos em igrejas e estabelecer cemitérios em bairros afastados. Tudo isso envolveu também a criação de comissões de saúde e estruturas de fiscalização para implementar as medidas recomendadas. O aumento da frequência e do alcance das epidemias por grandes áreas do globo também provocou, a longo prazo, a maior profissionalização da pesquisa e do atendimento médicos.

A partir de sua experiência em investigar a história das epidemias, como o sr. acredita que a epidemia da covid-19 no Brasil passará à história, e o comportamento deste governo em particular?

Sidney Chalhoub Uma brincadeira entre historiadores é que deixamos as previsões para economistas e cientistas políticos, assim só eles erram sempre. Mas é possível ensaiar duas explicações históricas de longo prazo para a opção do atual governo em apostar na negação da ciência e insistir no plano cruel de deixar as pessoas adoecerem e morrerem na esperança de que o país atingisse a chamada imunidade de rebanho.

O fenômeno do negacionismo científico contemporâneo tem sua gênese na década de 1950, quando surgem pesquisas médicas mostrando a relação entre tabagismo e câncer. Nas décadas seguintes, a indústria do cigarro agiu para promover “pesquisas” que lançassem dúvidas sobre os avanços de conhecimento nessa área e para influenciar políticas de governo evitando a criação de regulamentos para minorar os efeitos do tabagismo na saúde da população. O mesmo ocorre na campanha atual de negacionismo quanto às mudanças climáticas causadas pela intervenção humana na natureza. Setores econômicos poderosos atuam politicamente para evitar que governos adotem regras de proteção ao meio ambiente. Essa agenda inspira a direita política norte-americana desde [Ronald] Reagan nos anos 1980 e alcançou um paroxismo no governo [Donald] Trump [2017-2021]. O negacionismo científico está no cerne da ideologia da extrema direita global. Isso inclui, é claro, a ciência médica, que afinal estava lá na origem desse processo na década de 1950.

A segunda explicação, de longuíssimo prazo, é que a necropolítica não é nenhuma novidade na história brasileira. Basta pensar na forma como funcionava a escravidão no país. O regime escravocrata dependeu até meados do século 19 da importação massiva de africanos escravizados. Mortalidade elevada, baixa reprodução natural, alguma importância das alforrias para fins de controle social, e tráfico negreiro intenso. Dos 12 milhões de africanos escravizados nas Américas, cerca de 5 milhões vieram só para o Brasil. Daí decorrem muitas linhas de continuidade da história brasileira, inclusive a ideia de esperar pela imunidade de rebanho deixando morrer em grande número aqueles que, por suas circunstâncias de vida, não podem se proteger ficando em casa e praticando distanciamento social – medidas, aliás, criticadas pelo governo, causando mais confusão enquanto negligenciava a compra de vacinas.

A atual pandemia já reduziu a expectativa de vida no Brasil, além de ter causado ou agravado perdas econômicas e sociais profundas. Com base na observação do passado, é possível analisar como será a fase de recuperação e de cicatrização de todas essas feridas?

Sidney Chalboub Historiadores só prevêem o passado, e em geral não concordam entre eles sobre o que provavelmente aconteceu. Todavia, sabemos que uma das grandes transformações da experiência humana no último século foi o aumento incrível na expectativa de vida, que mais do que dobrou em quase toda parte do planeta. Há vários motivos para isso, mas a centralidade dos avanços da ciência médica é inescapável. A invenção da penicilina e o desenvolvimento de vacinas para várias doenças simplesmente mudaram o mundo. Como minhas pesquisas são principalmente sobre o século 19, conheço bem a mortalidade que doenças como sarampo, varíola, febre amarela, tuberculose e tantas outras causavam antes do desenvolvimento de imunizantes. Sobreviver ao primeiro ano de vida era um desafio enorme naquele tempo.

Não há justificativa alguma, nenhuma desculpa cabível, para a negligência do governo brasileiro na aquisição de vacinas, na demora que continua a custar dezenas de milhares de vidas. Como cicatrizar as feridas? Que se comece por investigar e punir os responsáveis. Se ficar por isso mesmo, o passado nos espera de novo logo à frente – vide o que ocorre agora à luz da ditadura de 1964, que permaneceu insepulta porque seus crimes não foram punidos.

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