Entrevista

Desastres: ‘é preciso ter memória viva e alertas permanentes’ 

Mariana Vick

11 de outubro de 2024(atualizado 11/10/2024 às 20h21)

Ana Karin Nunes, professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisadora nos temas de comunicação de risco e crise, fala sobre o furacão Milton e as diferenças com eventos extremos no Brasil 

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FOTO: Nadia Zomorodian/News-Journal/USA Today Network via Reuters - 11.out.2024Caixa de correio branca, com a porta aberta, está acima da superfície de água em uma área urbana. Há uma árvore e uma casa branca atrás, ambas parcialmente cobertas pela água.

Caixa de correio em área inundada após passagem do furacão Milton, na Flórida, nos EUA

A passagem do furacão Milton nesta semana deixou um rastro de destruição na Flórida, nos Estados Unidos. O fenômeno foi menos intenso que o previsto pelas autoridades, que haviam se antecipado para um desastre maior. Dias antes de o furacão chegar ao país, governos recomendaram a evacuação das áreas de sua rota, e mais de 1 milhão de pessoas deixaram o estado americano.

Ana Karin Nunes, professora na Faculdade de Comunicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e pesquisadora nos temas de comunicação de risco e crise, afirmou ao Nexo que a Flórida acertou na preparação para o furacão, ainda que ele não tenha agido como o previsto. “Não houve receio de dizer as coisas”, disse. Para ela, essas informações representam a diferença entre a vida e a morte nesse tipo de desastre.

Nesta entrevista, concedida ao Nexo na quinta-feira (9), Nunes analisou a comunicação de risco no caso do furacão Milton e a comparou com a de outros desastres recentes — inclusive no Brasil, onde eventos climáticos extremos são marcados pela falta de alertas. Para ela, é preciso fortalecer a cultura de prevenção e a educação para riscos no Brasil. Leia os principais trechos.

O furacão Milton já fez vários estragos na Flórida. Mesmo assim, parece que, nesse caso, houve mobilização para prevenir mais danos, com o anúncio antecipado do evento e a evacuação de mais de 1 milhão de pessoas, por exemplo. Faz sentido pensar dessa forma? 

ANA KARIN NUNES Sim, faz muito sentido pensar nessa preparação antecipada, que foi o que aconteceu nesse caso — embora nem todos os fenômenos se comportem exatamente como as previsões mostram. Esse furacão, especificamente, foi mudando de comportamento ao longo da rota. Mas a gente vê uma preocupação do Estado americano, de forma geral, em preparar as pessoas para lidar com essas condições. 

É importante destacar que, como não é a primeira vez que isso acontece naquela região — que é uma rota de furacão —, os Estados Unidos aprenderam com os erros ao longo do tempo. Nenhum processo de prevenção ou de mobilização das pessoas é perfeito; eles vão se aperfeiçoando na medida em que os eventos vão acontecendo. Dá para citar dois exemplos anteriores ao Milton: o furacão Helene, que aconteceu agora, em 2024, e o Irma, em 2017. Em vários momentos [desses dois furacões], criticou-se a demora [das autoridades] em dizer para as pessoas quando elas deveriam sair de casa e quais eram os efetivos riscos de elas ficarem ou saírem. Acho que, agora, eles conseguiram diminuir essas falhas. 

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Mas tem uma coisa que aconteceu agora para a qual eles não estavam preparados, que foram os tufões. Todos os alertas do Milton estavam se concentrando no momento em que o furacão iria tocar o solo, mas a maioria dos estragos e mortes relatadas nas notícias até agora se deram em função dos tufões que atingiram a Flórida antes de o furacão chegar. Houve, inclusive, um recorde de número de alertas durante um evento de furacão nos Estados Unidos nos últimos dias, justamente por causa dos tufões que se formaram e fizeram um estrago maior. 

[Os Estados Unidos] foram felizes em muitas medidas. Dá para considerar também que a Flórida é uma rota de furacões, e há uma previsão da agência meteorológica dos Estados Unidos de que neste ano deve haver um recorde de volume de furacões no país — então eles já vêm se preparando para isso há mais tempo. Mas, por outro lado, eles vão ter que aprender a lidar com os fenômenos que antecedem um furacão dessa natureza. 

Por que, mesmo com os problemas que a sra. citou, a preparação  para furacões — que vemos geralmente fora do Brasil — parece ser tão melhor do que para outros eventos climáticos extremos, como as inundações que vimos neste ano no Rio Grande do Sul? Quais são as principais diferenças entre esses casos?

ANA KARIN NUNES É importante entender que não existe resposta única. Múltiplos fatores diferenciam os casos do Rio Grande do Sul e o da Flórida. O primeiro deles é a recorrência e o histórico dos fenômenos, que são muito maiores quando a gente pensa nos furacões da Flórida do que nas enchentes no Rio Grande do Sul. Já tínhamos tido enchentes antes, mas não na proporção que tivemos em maio. 

Isso me leva para o segundo fator, que é a memória social. Se um evento tem recorrência e histórico maiores, é possível constituir a memória social e a percepção das pessoas de que aquele risco é difícil de ser gerenciado no contexto no qual elas vivem. 

Outros fatores são a própria preparação do Estado para lidar com esses fenômenos. Tivemos várias situações no Brasil relativamente recentes, como em Petrópolis e no interior de São Paulo, que envolveram um grande volume de chuvas — e em que a gente viu que o Estado brasileiro não é capaz de lidar com esses eventos. Não foi diferente no Rio Grande do Sul. Por outro lado, nos Estados Unidos, o Estado — e falo do Estado-nação — é melhor do ponto de vista de seus equipamentos e das pessoas preparadas para lidar com isso. 

Também podemos citar a confiança das pessoas na informação dos especialistas — que, especialmente para a população em geral, lá está um pouco mais consolidada, enquanto aqui ainda temos uma certa tendência a duvidar das informações que vêm dos órgãos especializados — e a própria estrutura do tipo de evento. Não dá para comparar uma enchente com um furacão ou tufão. As enchentes normalmente atingem certo contingente de uma cidade, não necessariamente uma cidade inteira. Até pode acontecer, mas é mais raro. Normalmente, elas atingem camadas da população mais vulneráveis. Por outro lado, tufões e furacões atingem indistintamente a população de um estado ou um país inteiro. 

De que forma foi construída essa cultura de prevenção contra furacões e outros eventos para os quais há mais preparo? Penso, por exemplo, também nos terremotos, cujos danos muitos países conseguem aliviar.

ANA KARIN NUNES Se a gente for falar em cultura da prevenção, que eu acho que é um termo sobre o qual precisamos conversar mais no Brasil, temos que citar primeiro os países asiáticos. São culturas milenares que trabalham com isso, até pela localização geográfica — o próprio Japão, com terremotos e tsunamis. O Chile também tem uma cultura de prevenção muito forte, que vem de muito tempo. Tudo isso está associado à questão da memória social. Quão frequentes são esses eventos? Quanto eles estão vivos na memória da população? E quanto fazem com que essa população desenvolva essa cultura de prevenção? 

Cultura de prevenção não é uma coisa que construímos em um, dois ou três anos. É algo que construímos em décadas ou centenas de anos. Ela não tem a ver só com a atuação do Estado — que foi um fator que mencionei antes —, mas com a questão de o cidadão individualmente estar preparado para responder a uma situação de emergência. Vimos muitas imagens nos últimos dias de pessoas pregando tapumes nas janelas de casa na Flórida, por exemplo, ou indo se abastecer em supermercados. As pessoas não esperam que o desastre aconteça. Elas pensam em se proteger imediatamente. Estão em um contexto de educação sobre riscos — esse é o termo que usamos — um pouco diferente do que temos aqui no Brasil, onde essa cultura ainda é muito recente e incipiente. 

FOTO: CIRA/NOAA/Handout via Reuters - 09.out.2024Imagem de satélite mostra enorme furacão sobre o oceano, perto do continente.

Furacão Milton avançando antes de sua chegada prevista na Flórida, no Golfo do México

Cultura de prevenção envolve muito trabalho: trabalho em rede, integrando pessoas, sistemas, diferentes níveis de governo, organizações governamentais e não governamentais. Envolve também muito treinamento e memória, para que as pessoas tenham a lembrança viva de que esse risco pode se materializar em um problema maior. 

Temos outra questão aqui no Brasil, que estamos vivendo agora no Rio Grande do Sul. Temos recebido muitos alertas da Defesa Civil sobre novos eventos climáticos que estão acontecendo neste mês, e as pessoas dizem: “ah, mas é muita informação, de novo estamos recebendo alerta”. Precisamos manter essa memória viva, e precisamos que as pessoas comecem a reconhecer que os alertas vão ser cada vez mais permanentes, que precisam se proteger e que precisamos formar essa cultura. Também não podemos ter medo de informar ou de dar informações em excesso sobre eventos dessa natureza, porque é justamente isso que fará com que as pessoas tenham cada vez mais a percepção de quão importante isso é no cotidiano delas. 

Estamos acompanhando o furacão Milton há alguns dias, inclusive por imagens de satélite. Esse parece ser um evento mais fácil de prever do que inundações ou secas, por exemplo. Isso é verdade? Essa previsibilidade dos furacões também é um dos fatores que tornam a preparação mais eficaz? 

ANA KARIN NUNES Não. É claro que a previsibilidade é um item importante nesse contexto. Mas, na verdade, hoje temos vários modelos meteorológicos para todos esses eventos que possibilitam que tenhamos uma previsão um pouco antecipada. É que essa previsão um pouco antecipada não necessariamente é no tempo que precisamos para preparar as pessoas nesses lugares. 

Vou dar um exemplo aqui do Rio Grande do Sul. Quando soubemos das chuvas intensas [de maio], o tempo de evacuação, por exemplo, de quem morava no Vale do Taquari — onde as chuvas foram muito intensas e vieram num volume muito rápido — foi muito menor do que o tempo necessário para fazer o mesmo alerta de prevenção para as pessoas que moravam no sul do estado, onde os habitantes estavam mais distantes desse fenômeno e onde a água, pela própria forma como a bacia hidrográfica se comporta, não atingiria níveis tão altos em tão pouco tempo. A previsibilidade tem muito a ver com os tempos dos fenômenos e os tempos de resposta. 

É por isso que não posso dizer tecnicamente que é mais fácil prever o fenômeno A, B ou C. Todos os fenômenos contam com modelos de previsibilidade que podem ou não se concretizar — e que podem se concretizar, inclusive, em graus diferentes. Mas, a depender de onde esse fenômeno chega ou de sua intensidade, pode haver mais ou menos tempo de resposta para as pessoas que estão naquela região. 

Quais boas práticas adotadas com os furacões poderiam ser aplicadas a eventos extremos no Brasil? E quais não poderiam? 

ANA KARIN NUNES Das boas práticas que precisamos adotar no Brasil, acho que há uma fundamental: a integração das informações, com a criação de redes de informação e de fontes confiáveis. Há muita gente produzindo e gerando conteúdo sobre determinados eventos no Brasil, e a população fica refém disso, porque não sabe em quem confiar. Vimos muito isso aqui no Rio Grande do Sul. Onde busco informação? É na prefeitura? No governo do estado? Em qual agência meteorológica? Isso é algo que precisamos amadurecer. Tanto os Estados Unidos quanto o Japão e o Chile têm agências estatais de referência, e são essas agências que alimentam de forma escalonada outros órgãos, inclusive a imprensa.

FOTO: Ricardo Arduengo/Reuters

Furação Milton se aproxima da cidade de Fort Myers, na Flórida

Outro aprendizado que podemos ter com os exemplos de fora é a criação de protocolos de comunicação, a depender do tipo de evento e da intensidade. O que digo? Para quem digo? Quem fala? Essa é uma outra coisa que é muito difícil no Brasil. Nesse caso [do Milton] nos Estados Unidos, pela magnitude do evento, o próprio presidente foi porta-voz [do desastre], por exemplo. Aqui, todo mundo fala, mas, ao mesmo tempo, ninguém dá um direcionamento. 

Por outro lado, não poderíamos fazer algo muito relacionado à cultura local de um país. Vi muita gente questionando que, nos Estados Unidos, as pessoas estavam anotando seus nomes no braço, para facilitar a identificação de corpos caso morressem. Teve toda uma questão de sensacionalismo. Mas isso é a cultura americana. O americano está acostumado com isso. Aqui no Brasil, não estamos acostumados a receber informação desse jeito. Aplicar esses modelos à cultura, à realidade e à forma como o povo brasileiro consome informação é importante. Não podemos simplesmente copiar modelos externos. 

Por que parece ser ainda um tabu falar em comunicação de riscos no Brasil? A sra. comentou, por exemplo, que aqui todo mundo fala do desastre, mas ninguém dá um direcionamento. Quais são os obstáculos para melhorar essa comunicação? 

ANA KARIN NUNES Há uma insegurança muito grande. O próprio tema comunicação de risco veio para o Brasil mais pela área da saúde na década de 1980, também muito atrelado à questão de algumas indústrias multinacionais. Mas esse tema não amadureceu. Na faculdade de comunicação, que é onde deveríamos estudar isso, por exemplo, pouco se vê [sobre comunicação de riscos]. O fato de que, culturalmente, sempre dizemos que o Brasil é um país livre desses grandes eventos climáticos nos deixou, por muito tempo, alheios a algumas situações. 

A ausência de comunicação de risco mata, porque ela trabalha justamente nesse limiar de “eu preciso dizer o que uma pessoa precisa saber neste momento, que é a diferença entre viver e morrer”. Vimos isso acontecer no Rio Grande do Sul. 

Precisamos preparar mais os profissionais de comunicação para lidar com isso, porque são esses profissionais que vão ter que preparar os gestores para que saibam o que comunicar — e quando comunicar. Também é importante resgatar a ideia de não ter medo de falar, desde que a informação seja confiável. Se alguém tem informações confiáveis — mesmo que não haja 100% de precisão, porque, em eventos meteorológicos, isso é quase impossível —, precisa dizer para as pessoas o que elas devem fazer para tentar se manter minimamente seguras. 

No caso do Milton, vimos depoimentos de autoridades dizendo: “este será o maior evento que provavelmente ocorrerá na história do país. Vocês precisam sair, precisam evacuar”. Não houve receio de dizer as coisas. Isto é algo que precisamos aprender mais do ponto de vista da comunicação de risco no Brasil: fortalecer estruturas, fortalecer pessoas e capacitá-las, para que a comunicação de risco efetivamente dê o mínimo de condições para que uma pessoa tome uma decisão em uma hora crucial, que pode representar a vida ou a morte. 

Qual é o papel da imprensa nesse contexto? A sra. vê diferenças na cobertura de eventos como um furacão no exterior e uma inundação no Brasil? 

ANA KARIN NUNES Esse ponto é importante. Temos, num desastre, o momento da preparação e o momento da resposta — que é quando o evento está acontecendo e precisamos comunicá-lo imediatamente. A imprensa cumpre um papel importantíssimo nesses dois momentos. Mas vejo que, de forma geral, falta na imprensa no Brasil ter um preparo maior para passar informação técnica e confiável, para que as pessoas se mantenham em segurança.

Assisti, por causa do Milton, a alguns vídeos de simulações que a imprensa americana cria para mostrar à população o que esperar de uma inundação. Havia, num deles, um jornalista no centro de uma arena com uma animação que mostrava a água subindo em torno dele. A animação explicava o quanto aquilo [o furacão] poderia representar um risco, dependendo do volume de água. A imprensa enfatizou fortemente isso. É algo que precisa ser comunicado em todos os lugares, de forma massiva e intensa, para que as pessoas saibam como agir. 

Nossa imprensa tem assumido um papel muito importante de denúncia, de trazer os fatos à tona. Mas precisamos, talvez, subir um degrau a mais. Além de dizer o que está sendo feito e o que não está, precisamos cumprir um papel social de ajudar a manter as pessoas em segurança no momento em que elas precisam. Precisamos capacitar a imprensa brasileira para trabalhar em rede e melhorar a comunicação de risco, especialmente na fase de resposta. 

Tenho insistido muito nessa questão da educação para riscos — o quanto precisamos educar e preparar a população e a imprensa para que saibamos lidar com essas situações. Elas estão aí e vão acontecer. Precisamos aprender com os erros de hoje, para que eles não se repitam em outros eventos.

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