Expresso

5 anos após o Brexit, como estão Reino Unido e União Europeia

João Paulo Charleaux

23 de junho de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h32)

Perdas econômicas e divisões políticas marcam a saída britânica do bloco de integração do continente

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FOTO: LEON NEAL/REUTERS – 30.12.2020

Boris Johnson faz sinal de positivo com as duas mãos e sorri para as câmeras diante de diversas bandeiras do Reino Unido

Primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, em assinatura de acordo pós-desligamento da União Europeia

A saída do Reino Unido da União Europeia completa cinco anos nesta quarta-feira (23). A data diz respeito ao plebiscito realizado em 2016, no qual 52% dos britânicos votaram pela saída e 48% pela permanência.

Passados cinco anos, a maioria dos britânicos está arrependida, e diz que, se a consulta fosse feita novamente agora, votariam diferente . Como previsto , as perdas maiores foram sentidas do lado do Reino Unido. Já os 27 países-membros da União Europeia seguiram juntos em seu projeto comum.

Neste texto, o Nexo mostra em gráficos como o apoio ao Brexit caiu entre 2016 e 2021. Além disso, quantifica as perdas no comércio bilateral e explica o principal problema político do Reino Unido após o Brexit: as tensões separatistas na Escócia e, principalmente, na Irlanda do Norte – países nos quais a maioria da população votou para permanecer na União Europeia há cinco anos, mas foi voto vencido.

Uma onda que baixou

A decisão de sair da União Europeia foi tomada pelos britânicos no ápice de uma onda de populismo de extrema direita nacionalista , produzida por políticos locais embalados por projetos ideológicos semelhantes nos EUA e em alguns países europeus, sendo os principais deles a Hungria, a Polônia e, à época, a Itália.

Passados cinco anos, essa onda não se extinguiu, mas diminuiu. O arrefecimento ocorreu após a derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas de 2020. No plano europeu, o acontecimento mais adverso para esse setor de extrema direita tinha sido a derrocada do nacionalista Matteo Salvini na Itália, em agosto de 2019.

FOTO: HANNAH MCKAY/REUTERS – 24/5/2019

Nigel Farage, líder do movimento pelo Brexit no Reino Unido, vota na eleição para o Parlamento Europeu, em Londres

Nigel Farage, líder do movimento pelo Brexit no Reino Unido, vota na eleição para o Parlamento Europeu, em Londres

Políticos britânicos ligados a esse setor se tornaram conhecidos e fizeram carreira na onda Brexit. Quem encabeçou o movimento foi Nigel Farage, que em 2016 viria a fundar o Reform UK, também chamado de Partido do Brexit. Quem alçou voos mais altos foi o atual premiê, Boris Johnson, que assumiu o cargo sob a promessa de selar o desligamento britânico a qualquer custo.

Quando Johnson cumpriu a promessa, em 2020, o processo já levava quatro anos. E o custo foi alto. Metade das exportações britânicas tinham como destino a União Europeia. Essa troca comercial não será necessariamente interrompida, mas muda de status fiscal, sanitário e alfandegário. Só em custos burocráticos e operacionais para implementar a mudança, o prejuízo estimado para o Reino Unido é de US$ 9,7 bilhões.

Só no primeiro trimestre de 2021, a queda nas exportações do Reino Unido para a União Europeia foi de US$ 2,7 bilhões, considerando apenas o comércio de alimentos e bebidas. Especificamente com relação aos laticínios, o recuo das exportações britânicas para o bloco europeu foi de 90%.

O entusiasmo com o Brexit aparece quantificado no primeiro gráfico abaixo, que mostra o resultado do plebiscito de 2016. Já a desilusão com o resultado da separação aparece no segundo gráfico, que mostra o resultado de pesquisas de opinião feitas pelo You.gov em novembro de 2020.

Em 2016

Em 2020

Gráfico mostra opinião dos britânicos sobre a saída da União Europeia em novembro de 2020: 47% preferiria ter ficado, enquanto 38% concorda com a saída

O arrependimento britânico, expresso nas pesquisas, não significa entretanto que haja uma disposição de refazer todo o processo e trabalhar para reintegrar o Reino Unido à União Europeia. Embora 47% tenham dito que preferiam nunca ter saído do bloco, só 42% afirmam que teriam interesse num esforço de reintegração cinco anos depois.

Divisões internas

Além das perdas econômicas, o Brexit também trouxe problemas políticos internos para o Reino Unido, que é formado por Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte. A adesão ao Brexit não foi uniforme, o que provocou tensões que estão pondo em dúvida a solidez da unidade britânica.

A maioria dos eleitores da Inglaterra e do País de Gales optou por sair da União Europeia. Porém, na Escócia e na Irlanda do Norte, a maioria optou por ficar. Na contagem geral, prevaleceu a saída. E o descontentamento de escoceses e norte-irlandeses também.

Divisão

Brexit_Escócia Brexit_Irlanda Inglaterra_Brexit

Essa divisão inflamou correntes separatistas. Na Escócia, o governo local começou a discutir a realização de um plebiscito para decidir se o país segue fazendo parte do Reino Unido ou se desliga, para entrar sozinho na União Europeia. “Há uma percepção de que os interesses do governo escocês foram simplesmente ignorados nesse processo”, disse ao Nexo a diretora do Centro Escocês para Relações Europeias, Kirsty Hughes, numa entrevista publicada em janeiro de 2020, quando o o Brexit finalmente se concretizou.

Na Irlanda do Norte, a questão é mais grave. O país faz fronteira com a República da Irlanda, que não pertence ao Reino Unido e, como tal, segue fazendo parte normalmente da União Europeia. Com o Brexit, seria necessário construir uma fronteira física com controle alfandegário e migratório entre as duas Irlandas, mas a proposta é inadmissível no contexto local.

Mapa mostra a localização da Irlanda do Norte e da República da Irlanda em relação ao Reino Unido.

Os irlandeses viveram 30 anos de guerra civil entre unionistas (que defendiam o pertencimento das Irlandas ao Reino Unido) e independentistas (que advogavam pela separação total do Reino Unido e a formação de uma só Irlanda independente). O conflito deixou 3.700 mortos, e culminou com a assinatura do Acordo de Sexta-feira Santa, em 1998.

FOTO: CLODAGH KILCOYNE/REUTERS – 13.02.2019

Adesivo Brexit

Adesivo contra o Brexit em placa de trânsito na Irlanda

Esse acordo manteve a situação congelada, mas o Brexit reavivou o debate. Nenhuma das duas Irlandas têm interesse na construção de uma fronteira física, que voltaria a exacerbar o contraste entre as correntes unionista e independentista. Com isso, o governo britânico propôs uma saída intermediária, que é a de estabelecer postos marítimos de controle alfandegário entre a Irlanda do Norte e os demais países do Reino Unido, para controlar mercadorias que vêm da República da Irlanda/União Europeia.

O remendo não agradou porque deixou os norte-irlandeses com um status diferente em relação ao País de Gales, à Escócia e à Inglaterra, submetidos a maiores burocracias.

Como resultado, cresceu a insatisfação no país e a pressão por um plebiscito que reveja o arranjo tanto com o Reino Unido quanto com a União Europeia, mostrando que a onda separatista não é exclusividade dos que advogaram há cinco anos pelo Brexit.

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