Expresso

Como a reação dos governos à ômicron difere pelo mundo

Estêvão Bertoni

05 de janeiro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h17)

Em meio a recorde de novos casos, países evitam medidas drásticas devido aos sintomas mais leves da doença. No Brasil, especialistas não descartam fechamento das escolas por causa do atraso na vacinação de crianças

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FOTO: CHRISTIAN HARTMANN/REUTERS – 31.DEZ.2021

Imagem mostra profissional de saúde de avental, máscara e luvas colocando um cotonete no nariz de um homem sentado, que faz cara de dor, em tenda armada em frente a uma farmácia, na França

Homem faz teste da covid-19 em tenda montada em frente à farmácia em Paris, na França


O avanço da variante ômicron desde o final de 2021 tem feito uma série de países registrarem recordes de casos de covid-19 no início de 2022. Na terça-feira (4), pela primeira vez desde o início da pandemia, os Estados Unidos ultrapassaram a marca de 1 milhão de infectados em apenas um dia. Com isso, o número de casos da doença no mundo superou 2,5 milhões em 24 horas, marca também inédita.

Apesar da explosão no número de pessoas com a doença, as mortes pelo novo coronavírus têm se mantido estáveis. Na quarta-feira (5), o site Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford, registrou 7.890 óbitos no mundo nas últimas 24 horas, número distante do recorde em 26 de janeiro de 2021, com 17.442 mortes. A OMS (Organização Mundial da Saúde) vem ressaltando que as evidências indicam que a ômicron causa sintomas mais leves , por atacar principalmente o trato respiratório superior, não causando tantos casos de pneumonias.

Por causa disso, países têm evitado impor restrições mais pesadas à circulação de pessoas. Na terça-feira (4), o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, afirmou haver “boas chances” de que o Reino Unido, um dos mais afetados pela ômicron na Europa, passe pela onda de covid-19 sem medidas mais drásticas, apesar de o país ter ultrapassado pela primeira vez na pandemia a marca de 200 mil casos confirmados num único dia.

Neste texto, o Nexo mostra qual tem sido o impacto da variante pelo mundo, como os países vêm lidando com o aumento de casos e quais os cenários possíveis para o Brasil, segundo epidemiologistas.

O caso da África do Sul

A variante ômicron do novo coronavírus foi identificada em 24 de novembro de 2021, na África do Sul, e suas características causaram preocupação imediata na comunidade científica internacional pela grande quantidade de mutações. Se a delta, até então predominante no mundo, trazia 9 mutações, a ômicron tinha 50, sendo que 32 delas eram na proteína usada pelo vírus para entrar nas células humanas.

Com um potencial até seis vezes maior de infectar pessoas do que a delta, a ômicron já havia sido detectada em todos os continentes menos de uma semana depois de ter sido classificada como variante “preocupante” pela OMS.

A África do Sul, onde a cobertura vacinal é baixa (apenas um em cada quatro sul-africanos completou o esquema vacinal com duas doses até o começo de janeiro) observou uma explosão de casos no começo de dezembro. A curva de novas infecções atingiu o pico ainda em meados daquele mês, e logo começou a cair.

Na tentativa de conter a transmissão da doença, o governo havia decretado medidas como toque de recolher, que acabou suspenso ainda no final de dezembro. Festas em comemoração ao Ano Novo foram permitidas e ocorreram em todo o país. “Pico em quatro semanas e declínio abrupto em outras duas. Foi mais uma inundação do que uma onda”, afirmou Fareed Abdullah, do Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul, segundo notícia da Rádio França Internacional .

No começo de janeiro, o número de novos casos já era menos da metade do observado no começo de dezembro. As autoridades também suspenderam as quarentenas obrigatórias para pessoas que tiveram contato com infectados em caso de não haver sintomas.

As máscaras ainda são obrigatórias em locais públicos, inclusive os abertos, e há limites para aglomerações, que não podem ultrapassar 1.000 pessoas em espaços fechados e 2.000 em áreas ao ar livre. A capacidade está limitada a menos de 50% em locais pequenos.

O ‘plano B’ do Reino Unido

No Reino Unido, um dos mais afetados pelo avanço da ômicron na Europa, o primeiro-ministro Boris Johnson tem resistido a adotar medidas mais radicais. Seu argumento está amparado no número de hospitalizações e de mortes, que não seguiu a tendência de casos.

Na terça-feira (4), o país confirmou 218.724 novas infecções, mas apenas 48 mortes em 24 horas. Ao todo, 14.210 pessoas estavam internadas com a doença. Segundo as autoridades britânicas, a situação é fruto da cobertura vacinal no país, onde 70,6% receberam duas doses da vacina, e 50,6% a terceira dose, de reforço.

Em sua fala, na terça-feira, Johnson defendeu como medida para enfrentar a onda da nova variante a ampliação das doses de reforço. Segundo ele, 60% dos doentes com covid-19 internados nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) não haviam recebido nenhuma dose, e cerca de 90% não tinham a terceira.

No início de dezembro, o Reino Unido adotou o que o primeiro-ministro chamou de “plano B”, uma série de medidas que incentivam o trabalho remoto de casa, uso de máscaras em locais fechados (obrigatório no transporte público), e a apresentação do passaporte vacinal em alguns locais. “Ao lado das medidas do ‘plano B’ que introduzimos antes do Natal, temos uma chance de sair dessa onda da ômicron sem fechar nosso país mais uma vez. Podemos manter nossas escolas e negócios abertos, podemos achar uma forma de viver com o vírus”, disse.

No domingo (2), o governo anunciou que as máscaras não serão obrigatórias aos estudantes mais velhos no retorno às aulas. Segundo Johnson, a política de enfrentamento ao vírus vai depender, entretanto, de saber se a doença vai se comportar como na África do Sul, que superou o pico em poucos dias, ou se ela vai continuar se espalhando rapidamente.

“Eu diria que há uma boa chance de passarmos pela onda da ômicron sem a necessidade de novas restrições e sem a necessidade, certamente, de um lockdown”

Boris Johnson

primeiro-ministro britânico, em discurso na terça-feira (4)

Medidas contra não vacinados na França

A França também tem batido recordes de infecções. Antes da ômicron, o país tinha alcançado, no máximo, 118 mil casos num único dia. Na terça-feira (4), foram 271.686 mil novos casos , o maior número desde o início da pandemia.

Por causa da situação, o presidente Emmanuel Macron, que tenta se reeleger, tem declarado guerra aos não vacinados. Em entrevista a um jornal local, ele disse que os casos poderiam ser reduzidos se as pessoas que não se vacinaram fossem “sacaneadas” ou “irritadas” ainda mais.

“Não estou aqui para sacanear os franceses (…). Mas, os não vacinados, eu quero realmente sacaneá-los. É isso que vamos continuar fazendo até o fim. É essa a estratégia”

Emmanuel Macron

presidente da França, em entrevista na terça-feira (4)

Ele também chamou os não vacinados de irresponsáveis por colocarem as demais pessoas em risco. Suas declarações causaram reação em seus adversários políticos, que chamaram de “insultos” as afirmações de Macron.

Na França, cerca de 79% da população recebeu as duas doses da vacina, e 35%, as doses de reforço. A proposta do presidente é barrar a entrada de não vacinados em restaurantes, bares e estabelecimentos culturais, ao exigir a apresentação do passaporte vacinal — atualmente, o acesso a esses locais é liberado com um exame negativo para a covid-19, e ele seria substituído por um comprovante de vacinação. Pesquisas mostram que a maioria da população francesa apoia a adoção do passaporte vacinal.

Menor isolamento nos EUA

Nos Estados Unidos, a resposta do país à pandemia também está atrelada à menor severidade do vírus. No final de dezembro, por exemplo, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) recomendou que o tempo de isolamento de pessoas com diagnóstico positivo de covid-19 fosse reduzido de dez para apenas cinco dias. O objetivo é reduzir o impacto econômico da medida.

“A mudança é motivada pela demonstração científica de que a maior parte da transmissão da Sars-CoV-2 [vírus que causa a covid-19] ocorre no início do curso da doença, geralmente de um a dois dias antes do início dos sintomas e de dois a três dias depois”, afirmou o órgão, em comunicado. Depois de cinco dias de isolamento, a recomendação é que a pessoa use máscara por mais cinco dias para “minimizar o risco de infectar outras pessoas”.

O que preocupa o país, entretanto, é que, ao contrário dos países europeus, há aumento das internações pela doença nos Estados Unidos. Segundo dados do jornal americano The New York Times, as hospitalizações, em média, aumentaram 33% no começo de janeiro, enquanto as mortes caíram 4%.

O problema apontado pelo governo, assim como nos países europeus, são os não vacinados. O presidente Joe Biden defendeu, na terça-feira (4), a aplicação da dose de reforço, disponível para toda a população acima dos 12 anos.

“Os não vacinados estão tomando os leitos dos hospitais, emergências lotadas e unidades de terapia intensiva. Então, por favor, se vacinem agora”

Joe Biden

presidente dos EUA, na terça-feira (4)

O presidente americano também tem prometido a disponibilização de mais testes, inclusive a distribuição gratuita de exames que podem ser feitos em casa, e anunciou a ampliação da compra das pílulas antivirais desenvolvidas pela Pfizer, que estarão acessíveis a 20 milhões de pessoas.

A discussão no Brasil

O Brasil ainda não tem uma real dimensão do avanço da ômicron no país, devido ao apagão de dados no Ministério da Saúde, que sofreu um ataque hacker em dezembro. O sistema vem apresentando falhas na coleta e divulgação de dados. Além disso, o país é um dos que menos testa sua população, o que impede uma avaliação precisa da situação epidemiológica.

Mesmo assim, dados das redes privadas indicam aumento de casos. Há também demora no atendimento nos prontos-socorros, que podem estar relacionados também com uma epidemia de gripe causada pelo H3N2, um subtipo do vírus Influenza A, que ocorre de maneira simultânea à pandemia de covid-19.

Preocupados, os governos têm anunciado o cancelamento do Carnaval de rua, como a prefeitura do Rio de Janeiro fez na terça-feira (4), a exemplo do que já havia acontecido em Salvador, um dia antes. Ainda não se discute a adoção de medidas mais rigorosas.

Em entrevista ao Nexo , o doutor em epidemiologia Bernardo Lessa Horta, que é professor da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), lembra que medidas mais restritivas, como os lockdowns, são utilizadas com o objetivo de diminuir a velocidade de contaminação e dar tempo aos serviços de saúde se prepararem para atender os doentes.

“Se a gente não tiver o estrangulamento do sistema de saúde, acho menos plausível a implantação de medidas mais restritivas”, disse. Segundo ele, a diferença no comportamento das taxas de internação na Europa (que permanecem baixas) e nos Estados Unidos (em alta) indica que o problema pode estar relacionado à cobertura vacinal (maior nos países europeus do que nos Estados Unidos).

“Pelos relatos que chegam, vários dos pacientes hospitalizados eram pessoas sem vacina. Isso leva a crer que, antes de pensar em lockdown, tem que pensar em vacinar todo mundo”, afirmou. No Brasil, 67,4% da população completou o esquema vacinal, e apenas 13,1% receberam a dose de reforço até o começo de janeiro.

Apesar dos casos serem mais leves, os governos não devem ficar parados em relação ao aumento de infectados, segundo o professor. Ele defende restrições a grandes eventos. “No caso de gripe, não se costuma fazer nada, mas agora se pode pensar no Carnaval e em outros grandes eventos que vão aglomerar gente. Será que seria o momento apropriado de fazê-los?”, questiona.

Para a também epidemiologista Ethel Maciel, professora da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), não são só os óbitos que devem ser levados em consideração, porque as infecções podem deixar sequelas, o que significa que a pessoa, mesmo apresentando quadro moderado da doença, poderá precisar do serviço de saúde por muito mais tempo.

“Se a ômicron tiver aqui um comportamento semelhante ao que aconteceu no Reino Unido e nos Estados Unidos, uma doença bem mais leve e sem internação, a gente talvez não tenha imposição de restrição nas atividades econômicas, mas tudo depende de como vai ser esse espalhamento e da pressão no serviço de saúde, porque efetivamente não é só o óbito e só a internação”, afirmou ao Nexo .

Segundo ela, a tendência deve ser de menor imposição de restrições das atividades econômicas por causa da ampliação da vacinação que deve acontecer com a imunização de crianças. “As crianças representam 10% da população, são mais de 20 milhões de pessoas de 5 a 11 anos. A gente precisa avançar nesse grupo porque senão teremos um grupo grande sem vacinar que vai manter o vírus circulando, com a possibilidade de infectar adultos”, disse.

Apesar da aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para a vacinação de crianças de 5 a 11 anos em dezembro, o Ministério da Saúde retardou o início da imunização infantil, que recebe oposição do presidente Jair Bolsonaro. A pasta decidiu abrir uma consulta pública sobre o tema, e só anunciou na quarta-feira (5) a previsão para o início da imunização em 14 de janeiro em crianças com comorbidade, deficiência permanente, indígenas e quilombolas. Como as aulas estão previstas para retornar em fevereiro, não haveria tempo para vacinar todas as crianças até lá.

Para a epidemiologista, a tendência será manter as escolas abertas mesmo com aumento nos casos por causa da ômicron, devido aos prejuízos aos alunos causados pela suspensão das atividades. “Vai depender muito do monitoramento de casos e de internações de cada município. É possível, que em alguns locais, a escola vá ter que ficar fechada, até se fazer o isolamento e diminuir a transmissão”, afirmou.

Bernardo Horta, da Ufpel, diz ainda ser cedo para avaliar o fechamento de escolas. Segundo ele, o país pode apresentar um cenário como o da África do Sul, em que os casos crescem rapidamente, mas o pico logo é superado. O cenário, portanto, teria que ser avaliado às vésperas do início das atividades escolares. Mas o professor não descarta um adiamento.

“Se realmente as crianças vão chegar às escolas não vacinadas, nem tendo recebido a primeira dose, e o pico estiver muito alto, talvez seja mais sensato atrasar [o início das atividades] até a vacinação”, disse.

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