Expresso

Podcast ‘Flow’: do sucesso de audiência à demissão de Monark

Cesar Gaglioni

08 de fevereiro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h21)

Programa vê debandada de patrocínios após apresentador defender existência de partido nazista e direito de ser ‘antijudeu’. Antes, já tinha questionado por que não é possível ter ‘opiniões racistas’

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FOTO: REPRODUÇÃO/YOUTUBE

O influenciador digital Bruno Aiub, o Monark

O influenciador digital Bruno Aiub, o Monark

Em menos de 24 horas, o podcast “Flow”, um dos mais ouvidos do Brasil, viu-se diante de sua maior crise de imagem, que culminou em cancelamentos de contratos de patrocínio, em pedidos de remoção de entrevistas e na saída de um de seus sócios e apresentadores.

Não foi a primeira vez que o programa passou por uma crise em seus quase dois anos de existência, mas a intensidade da atual é inédita. Palco de convidados como atores, influenciadores, humoristas e políticos, o “Flow” já havia flertado com o racismo. Na segunda-feira (7), foi a vez do nazismo.

466,9 milhões

é o número de visualizações totais do canal do “Flow” no YouTube até a noite de terça (8)

Neste texto, o Nexo explica a debandada pela qual passa o podcast e relembra sua rápida ascensão, de uma conversa informal no clima “mesa de bar” a uma empresa milionária que produz 14 programas diferentes.

O que aconteceu no programa

Tudo começou na noite de segunda (7), quando os apresentadores Igor Coelho (conhecido como Igor3K) e Bruno Aiub (conhecido como Monark) receberam os deputados federais Tabata Amaral (PSB-SP) e Kim Kataguiri (DEM-SP).

Em uma discussão sobre regimes radicais de direita e esquerda, Monark saiu em defesa do antissemitismo. “Se o cara quiser ser antijudeu, eu acho que ele deveria ter o direito de ser”, disse o apresentador, tentando incluir esse tipo de discurso numa pretensa “liberdade de expressão”.

Tabata Amaral classificou a declaração como “esdrúxula” e disse que a liberdade de expressão termina quando se manifesta contra a vida de outras pessoas, destacando que o nazismo representa um risco para a população judaica. “De que forma?”, perguntou Monark.

FOTO: REPRODUÇÃO/YOUTUBE

Monark, à esquerda, e Kim Kataguiri, à direita, falam ao microfone, sentados à mesa, durante gravação de um podcast.

O podcaster Monark (à esq.) e o deputado federal Kim Kataguiri (Podemos-SP)

Kim Kataguiri afirmou na conversa achar errado que a Alemanha tenha criminalizado o nazismo depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), durante a qual o governo nazista liderado por Adolf Hitler promoveu o extermínio de milhões de judeus e outros grupos.

O deputado também se queixou de partidos comunistas terem mais espaço na imprensa que defensores do nazismo – uma comparação que não se sustenta, uma vez que partidos como o PCdoB não pregam a exclusão de minorias étnicas e hoje jogam dentro das regras da democracia brasileira.

Como foram as reações

As declarações de Monark foram amplamente repudiadas. Nesta terça-feira (8), o grupo Judeus pela Democracia criticou o argumento de Monark da “liberdade de expressão” ilimitada e disse que “ideologias que visam a eliminação de outros”, como o nazismo, “têm que ser proibidas”.

A Conib (Confederação Israelita do Brasil) também se manifestou, dizendo que “o discurso de ódio e a defesa do discurso de ódio trazem consequências terríveis para a humanidade, e o nazismo é sua maior evidência histórica”.

A embaixada da Alemanha no Brasil também criticou a fala do podcaster . “Defender o nazismo não é liberdade de expressão. Quem defende o nazismo desrespeita a memória das vítimas e dos sobreviventes desse regime e ignora os horrores causados por ele”, afirmou a instituição em nota.

Em vídeo publicado depois nas redes sociais, Monark pediu desculpas pela fala, e disse que estava bêbado na hora em que falou sobre o tema, além de ressaltar seu desejo de aprendizado. O vídeo da entrevista com Tabata e Kataguiri foi removido e uma nota oficial, divulgada.

No Twitter, Kim Kataguiri disse que acredita que é melhor expor a crueldade da ideologia nazista do que silenciar seus apoiadores. “Sufocar o debate só faz com que grupos extremistas cresçam na escuridão e não sejam devidamente combatidos e rechaçados”, afirmou. “Fato é que distorceram um debate sobre como é a melhor maneira de rechaçar o nazismo .

A Procuradoria-geral da República, na figura do procurador-geral Augusto Aras, abriu uma apuração para investigar se houve apologia ao nazismo no episódio. Caso o inquérito conclua que houve crime, a Procuradoria pode denunciar Kataguiri ao Supremo – dado seu cargo de deputado – e Monark à Justiça de São Paulo.

No Brasil, segundo a Lei 7.716, é crime “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular, símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”. A pena prevista é de dois a cinco anos de cadeia e multa. A lei brasileira também proíbe a criação de um partido nazista junto à Justiça Eleitoral.

A perda de patrocínios

Nas redes sociais, cresceu a pressão para que patrocinadores do “Flow” retirem recursos do programa. No Twitter, havia mais de 560 mil menções ao tema na noite de terça (8). Ao menos cinco marcas encerraram contratos ou pediram para serem retiradas de ações do podcast , como Puma, iFood e Mondelez. Essas marcas veicularam publicidade ou patrocinaram o programa ao longo do tempo.

Entrevistados de episódios antigos pediram para que a empresa removesse os vídeos dos canais oficiais, tanto de programas do Flow, quanto de outros podcasts produzidos pelos estúdios Flow. Até a noite de terça-feira (8), eram pelo menos 17 nomes, entre eles o vocalistada banda Detonautas, Tico Santa Cruz, o crítico de cinema PH Santos e a advogada, apresentadora e influenciadora digital Gabriela Prioli.

As entrevistas vão ao ar de segunda a sexta, no YouTube e na Twitch. Até terça (8), 578 convidados tinham passado pelo programa. Entre os políticos, estiveram lá João Doria (PSDB), Eduardo Leite (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL), Eduardo Bolsonaro (PSL) e Luiz Henrique Mandetta (DEM), entre outros.

O afastamento de Monark

Além das rupturas com patrocinadores e pedidos de remoção, a crise culminou na saída de Bruno Aiub, o Monark, da empresa. O “Flow” emitiu um comunicado oficial na qual anunciava o desligamento de Monark. O texto, no entanto, não deixava claro se ele deixaria apenas o cargo de apresentador ou se também sairia da sociedade da empresa.

O Nexo falou com a assessoria de imprensa da empresa, que informou que Monark não é mais sócio dos estúdios Flow.

As movimentações burocráticas e jurídicas devem começar a acontecer nos próximos dias. A assessoria diz que vão permanecer como sócios apenas o apresentador Igor Coelho e o diretor Gianluca Eugênio.

A trajetória do Flow

O “Flow” começou em 2018, se profissionalizando em 2020 e rapidamente se consagrou como um dos maiores podcasts do país.

3,6 milhões

é o número de seguidores do ‘Flow’ no YouTube

1 milhão

é o número de seguidores do ‘Flow ’ na plataforma Twitch

US$ 35 mil

é a estimativa de ganhos do ‘Flow ’ em janeiro de 2022, segundo a plataforma YouTubers.Me com veiculação de publicidade no YouTube

R$ 50 mil

era o salário mensal de Monark em outubro de 2021, segundo ele mesmo

R$ 1,4 milhão

é o capital social (valor de abertura de uma empresa) dos estúdios Flow

O modelo do “Flow” veio dos EUA, inspirado no podcast do comediante Joe Rogan, que desde 2009 fala com figuras importantes das mais diversas áreas. Já estiveram no programa americano o empresário Elon Musk, CEO da Tesla e SpaceX; o ex-candidato à Presidência americana Bernie Sanders e o cineasta Quentin Tarantino (“Pulp Fiction”). Assim como Monark, Rogan é uma figura controversa.

A polêmica mais recente ocorreu com a participação do médico Robert Malone no programa em 31 de dezembro de 2021. Na ocasião, Malone disse que vacinas foram desenhadas para alterar o DNA de quem as toma – o que é mentira – e que a ivermectina, remédio para o tratamento de parasitas e ineficaz contra a covid-19, era o melhor caminho para lidar com a doença.

FOTO: JASEN VINLOVE-USA TODAY SPORTS/VIA REUTERS – 9.MAI.2020

Joe Rogan usa fone de ouvido com microfone

Joe Rogan comenta luta do UFC

No início de janeiro de 2022, 270 cientistas e médicos assinaram uma carta pedindo ao Spotify – plataforma de distribuição do programa – que tomasse medidas contra Rogan, acusando-o de espalhar falsidades no podcast. A crise culminou na saída de músicos como Neil Young e Joni Mitchell da plataforma, além de queda nas ações da empresa.

Dos cinco podcasts mais ouvidos do Brasil – segundo dados da Apple referentes à audiência semanal em todas as plataformas de streaming – , dois programas, PodPah e Flow, seguem o formato conhecido como “mesacast”, no qual um ou mais apresentadores sentam em volta de uma mesa e trazem um convidado para uma conversa informal que dura cerca de duas horas ou mais.

Há podcasts no Brasil pelo menos desde 2004, mas foi a partir de 2019 que a mídia chegou ao mainstream nacional. De acordo com dados do Ibope publicados em julho de 2021, o país se tornou o quinto maior produtor de programas do mundo entre 2019 e 2020.

28 milhões

é o número de ouvintes recorrentes de podcasts em 2021, segundo o Ibope

7 milhões

é o número de pessoas que começaram a ouvir podcasts entre 2019 e 2020

A primeira crise

Monark é conhecido por se posicionar ideologicamente à direita, adotando para si discursos do liberalismo e do anarcocapitalismo. Ele se apresenta como sendo alguém que “fala o que pensa” e que defende a liberdade de expressão irrestrita. Igor Coelho ficou conhecido por ter opiniões mais ponderadas e menos extremas do que o colega e ex-sócio.

Monark, publicou uma mensagem no Twitter no dia 26 de outubro de 2021 questionando: “ter uma opinião racista é crime?” .

Depois da repercussão negativa ao comentário, o aplicativo de entrega iFood retirou o patrocínio do podcast. Dias depois, iFood e Flow publicaram uma nota apaziguadora, pedindo mais diálogo e menos polarização.

“Minha opinião ainda é que liberdade de expressão é também permitir que ideias que possam ser consideradas preconceituosas sejam expressadas até para que possam ser corrigidas”, escreveu Monark, após a repercussão de sua publicação.

No meio da crise, o iFood sofreu um ataque hacker. Cerca de 6% dos restaurantes cadastrados no aplicativo tiveram seus nomes mudados para a veiculação de mensagens políticas de extrema direita, com discurso antivacina e ofensas à ex-vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL), assassinada em 2018.

O ataque que o iFood sofreu é um tipo de ação hacker conhecida como “defacement” (remoção de rosto, em livre tradução). Ela é considerada crime , pelo artigo 154-A do Código Penal, com pena de três meses a um ano de detenção e multa.

ESTAVA ERRADO: Uma versão deste texto afirmava que Kim Kataguiri é do Podemos. Na verdade, embora ele tenha anunciado que pretende migrar para o Podemos, o deputado ainda está no DEM. A informação foi corrigida às 22h57 de 8 de fevereiro de 2022. Também foi dito que o Flow tinha começado em 2020. Na verdade, o programa começou em 2018, se profissionalizando dois anos depois. A informação foi corrigida às 09h22 do dia 14 de dezembro de 2022.

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