Expresso

Como a ideia de polarização se aplica às eleições de 2022

Isabela Cruz

12 de junho de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h53)

Posição dos favoritos no espectro ideológico e opiniões de diferentes parcelas do eleitorado impõem ponderações ao uso do conceito numa eleição que deverá ser antagonizada por Lula e Bolsonaro

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 18.AGO.2021

Camisetas vermelhas com rosto de Lula e bandeiras do Brasil penduradas em varal, na rua

Camisetas com a foto de Luiz Inácio Lula da Silva e bandeiras do Brasil, usadas em grande volume nas manifestações bolsonaristas, à venda em Brasília

Caracterizadas por dois favoritos já bem definidos, por uma“terceira via” escanteada e pela exacerbação dos argumentos e afetos políticos, as eleições presidenciais de 2022 logo ganharam a designação de “polarizadas”.

Mas o uso automático e irrefletido desse termo pode acabar criando falsas equivalências entre um lado e outro da disputa, com importantes consequências para as percepções do eleitorado e para a própria democracia, afirmam os estudiosos da ciência política.

Afinal, como se dá o antagonismo ideológico e eleitoral na disputa de outubro, que promete ser protagonizada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo atual mandatário, Jair Bolsonaro (PL)?

Neste texto, o Nexo organiza os conceitos relacionados à polarização e mostra as proporções atuais da divisão política na sociedade brasileira.

As ideias de polarização e de assimetria

A organização da política em duas coalizões antagônicas em termos de ideais, com o encolhimento progressivo de posições intermediárias e o aumento das animosidades entre rivais, é discutida na ciência política dos Estados Unidos desde os anos 1980 .

No primeiro governo do democrata Barack Obama (2009-2013), a radicalização da oposição feita pelos republicanos, puxada por movimentos como o Tea Party, levou a ciência política a acrescentar uma ponderação nessa análise e passar a trabalhar com a noção de “ polarização assimétrica ”. É o que analisa Rodrigo Nunes, professor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio em ensaio publicado em março de 2020 na revista Serrote.

O conceito de polarização assimétrica descreve um cenário em que apenas um dos pólos se distancia do chamado centro político, deixando para o outro a responsabilidade de buscar o diálogo e fazer concessões. Nesse contexto, o próprio centro político pode ser deslocado.

FOTO: ALAN SANTOS/PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA – 17.03.2019

Mesa de jantar formal, com autoridades. Em pé, Bolsonaro discursa e segura um guardanapo de pano com as duas mãos. Ao lado, sentado, está Olavo de Carvalho, que observa Bolsonaro.

Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho lado a lado durante jantar em Washington (EUA)

No Brasil, movimentação do tipo ocorreu a partir das manifestações de 2013, com a projeção política de uma direita nova e radicalizada, afirmou Nunes. Em 2018, essa nova direita , que se apoia em ideias como aquelas do escritor Olavo de Carvalho (falecido no início de 2022), chegou à Presidência com Jair Bolsonaro, amplamente classificado como um político de extrema direita .

A vitória se deu contra o PT, um partido de esquerda que havia feito anos antes (2003-2016) um governo integrado em cargos-chave por pessoas da direita e marcado por políticas de conciliação entre interesses progressistas e conservadores — sendo classificado, portanto, como de centro-esquerda.

“Na ferradura ideológica [metáfora do filósofo Norberto Bobbio], enquanto Lula se situa um pouco à esquerda do centro da curvatura, Bolsonaro se posiciona na ponta direita que, ironicamente, quase toca a ponta esquerda”. Foi o que escreveu no final de 2017 o cientista político Cláudio Couto, professor da FGV de São Paulo, sobre a “polarização assimétrica” que se anunciava para a disputa eleitoral do ano seguinte, entre Bolsonaro e Lula.

Lula acabou impedido de disputar as eleições daquele ano, por ter sido condenado criminalmente por corrupção, num processo anulado em 2021. Ele foi substituído na chapa presidencial por Fernando Haddad,ex-prefeito de São Paulo.

FOTO: ANDRESSA ANHOLETE/REUTERS

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin durante evento em Brasília

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin durante evento em Brasília

Onde está a polarização em 2022

Em 2022, a disputa entre Lula e Bolsonaro se cristaliza, e a descrição dela como polarizada se repete , assim como os alertas dos cientistas políticos para a assimetria dessa polarização em termos político-ideológicos.

Pré-candidatos que estão mais abaixo nas pesquisas insistem na ideia dos “dois extremos”, como se o ex-presidente e o presidente estivessem cada um numa ponta da ferradura. Mas tanto o histórico quanto os movimentos políticos dos dois desmentem a tese.

Lula prepara uma chapa com seu ex-adversário Geraldo Alckmin (PSB), que fez a carreira política no PSDB — justamente o partido que protagonizou, contra o PT, o que era a polarização brasileira dos anos 1990 até as eleições de 2014. Já Bolsonaro, atualmente no PL, pretende ter como vice o general da reserva Walter Braga Netto, que foi ministro no governo atual.

FOTO: REPRODUÇÃO /@IGORIZY

Lula e Bolsonaro em grafitti do artista Igor Izy, no Rio de Janeiro: ambos estão frente a frente e se olham, com os rostos azuis. formando um coração. Ao fundo, traços coloridos em verde, amarelo, vermelho e azul

Lula e Bolsonaro em grafitti do artista Igor Izy, no Rio de Janeiro

Além da posição ideológica, a assimetria ocorre também nas tendências reveladas pelas pesquisas eleitorais. Nos diferentes levantamentos, o petista aparece como favorito com ampla diferença, podendo vencer em primeiro turno. A discrepância se dá ainda na rejeição a cada um dos candidatos.

48%x27%

é o percentual de eleitores que pretendem votar no primeiro turno das eleições em Lula e em Bolsonaro, respectivamente

33%x54%

é o percentual de eleitores que não votariam de jeito nenhum em Lula e em Bolsonaro, respectivamente

Analistas têm apontado também que o balanço da polarização assimétrica varia a depender do grupo social em análise. Por exemplo, entre eleitores pretos e pardos, grupo que representa 70% do eleitorado, mais de dois terços (68%) declaram que votariam em Lula num segundo turno contra Bolsonaro.

Os números apresentados acima são da pesquisa do Instituto Datafolha realizada nos dias 25 e 26 de maio com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, no caso dos percentuais gerais. O levantamento está registrado no TSE sob o código BR-05166/2022.

Diretor da Quaest Pesquisa e professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Felipe Nunes afirma que a repartição das intenções de voto entre Lula e Bolsonaro fica razoavelmente equilibrada entre:

  • homens
  • brancos
  • pessoas de alta renda
  • habitantes da região Sul do país

Já outros grupos registram grande desequilíbrio em favor de Lula. São eles:

  • mulheres
  • negros
  • pessoas de baixa renda
  • habitantes da região Nordeste

“A polarização política se transformou em polarização social . A disputa não é mais entre partidos, mas entre grupos sociais que lutam por direitos, privilégios, garantias e recursos limitados”, escreveu Nunes no Twitter.

Polarização como estratégia e suas consequências

Em ensaio publicado no Nexo , os cientistas políticos Rafael Poço, idealizador do projeto Despolarize, e Rodrigo de Almeida afirmam que, embora “o antogonismo político e a polarização sejam inerentes à disputa democrática”, existe um problema quando a polarização é alimentada pelas campanhas . Essa estratégia pode beneficiar candidaturas, mas promove hostilidades extremas e barra soluções para os problemas coletivos,eles afirmam.

Determinados políticos se beneficiam da polarização — e fazem dela uma estratégia eleitoral —, porque um repúdio ao campo político adversário gera entre seus eleitores grande permissividade quanto ao seu próprio comportamento, inclusive para atropelar regras e instituições .

“O que explica essa espantosa capacidade de comportar-se de uma maneira que, diria a sabedoria convencional, destruiria a carreira de qualquer político? Qual superpoder permite ao presidente [americano Donald] Trump, parafraseando suas próprias palavras, dar um tiro em alguém em plena Quinta Avenida, sem perder o apoio de seus seguidores?”, questionou o economista Filipe Campante, professor na Johns Hopkins University (EUA), em coluna no Nexo .

Para ele, a polarização é a razão central desse fenômeno. “Muitos eleitores que tenderiam a reprová-lo viram nele um mal menor em comparação ao seu adversário”, disse Campante. Em 2016, Trump disputou a Presidência dos Estados Unidos contra a democrata Hillary Clinton. Na campanha, ela foi alvo de uma série de notícias falsas e teorias da conspiração envolvendo temas como pedofilia e satanismo, o que não tem base na realidade .

A degradação institucional liberada pela polarização pode chegar ao abandono da democracia, afirma o economista Cláudio Ferraz, professor da Universidade de British Columbia (Canadá) e da PUC-Rio. Em coluna no Nexo , Ferraz diz que, num contexto de polarização extrema, “muitos eleitores estarão dispostos a abrir mão de um sistema democrático para ter um país que se aproxime de suas preferências partidárias”.

Citando o cientista Milan Svolik, professor na Universidade Yale (EUA), Ferraz mostra que líderes autoritários como Hugo Chávez, na Venezuela, Viktor Orbán, na Hungria, e Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, “exploram de forma magistral o dilema entre princípios democráticos e interesses partidários”, transformando as tensões sociais de seus países num “conflito político entre lados opostos”.

“Como argumenta Svolik, níveis altos de polarização permitem que líderes autoritários possam subverter a democracia sem serem punidos nas urnas”, disse Ferraz.

NEWSLETTER GRATUITA

Nexo | Hoje

Enviada à noite de segunda a sexta-feira com os fatos mais importantes do dia

Este site é protegido por reCAPTCHA e a Política de Privacidade e os Termos de Serviço Google se aplicam.

Gráficos

nos eixos

O melhor em dados e gráficos selecionados por nosso time de infografia para você

Este site é protegido por reCAPTCHA e a Política de Privacidade e os Termos de Serviço Google se aplicam.

Navegue por temas