Como a ideia de polarização se aplica às eleições de 2022
Isabela Cruz
12 de junho de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h53)Posição dos favoritos no espectro ideológico e opiniões de diferentes parcelas do eleitorado impõem ponderações ao uso do conceito numa eleição que deverá ser antagonizada por Lula e Bolsonaro
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Camisetas com a foto de Luiz Inácio Lula da Silva e bandeiras do Brasil, usadas em grande volume nas manifestações bolsonaristas, à venda em Brasília
Caracterizadas por dois favoritos já bem definidos, por uma“terceira via” escanteada e pela exacerbação dos argumentos e afetos políticos, as eleições presidenciais de 2022 logo ganharam a designação de “polarizadas”.
Mas o uso automático e irrefletido desse termo pode acabar criando falsas equivalências entre um lado e outro da disputa, com importantes consequências para as percepções do eleitorado e para a própria democracia, afirmam os estudiosos da ciência política.
Afinal, como se dá o antagonismo ideológico e eleitoral na disputa de outubro, que promete ser protagonizada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo atual mandatário, Jair Bolsonaro (PL)?
Neste texto, o Nexo organiza os conceitos relacionados à polarização e mostra as proporções atuais da divisão política na sociedade brasileira.
A organização da política em duas coalizões antagônicas em termos de ideais, com o encolhimento progressivo de posições intermediárias e o aumento das animosidades entre rivais, é discutida na ciência política dos Estados Unidos desde os anos 1980 .
No primeiro governo do democrata Barack Obama (2009-2013), a radicalização da oposição feita pelos republicanos, puxada por movimentos como o Tea Party, levou a ciência política a acrescentar uma ponderação nessa análise e passar a trabalhar com a noção de “ polarização assimétrica ”. É o que analisa Rodrigo Nunes, professor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio em ensaio publicado em março de 2020 na revista Serrote.
O conceito de polarização assimétrica descreve um cenário em que apenas um dos pólos se distancia do chamado centro político, deixando para o outro a responsabilidade de buscar o diálogo e fazer concessões. Nesse contexto, o próprio centro político pode ser deslocado.
Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho lado a lado durante jantar em Washington (EUA)
No Brasil, movimentação do tipo ocorreu a partir das manifestações de 2013, com a projeção política de uma direita nova e radicalizada, afirmou Nunes. Em 2018, essa nova direita , que se apoia em ideias como aquelas do escritor Olavo de Carvalho (falecido no início de 2022), chegou à Presidência com Jair Bolsonaro, amplamente classificado como um político de extrema direita .
A vitória se deu contra o PT, um partido de esquerda que havia feito anos antes (2003-2016) um governo integrado em cargos-chave por pessoas da direita e marcado por políticas de conciliação entre interesses progressistas e conservadores — sendo classificado, portanto, como de centro-esquerda.
“Na ferradura ideológica [metáfora do filósofo Norberto Bobbio], enquanto Lula se situa um pouco à esquerda do centro da curvatura, Bolsonaro se posiciona na ponta direita que, ironicamente, quase toca a ponta esquerda”. Foi o que escreveu no final de 2017 o cientista político Cláudio Couto, professor da FGV de São Paulo, sobre a “polarização assimétrica” que se anunciava para a disputa eleitoral do ano seguinte, entre Bolsonaro e Lula.
Lula acabou impedido de disputar as eleições daquele ano, por ter sido condenado criminalmente por corrupção, num processo anulado em 2021. Ele foi substituído na chapa presidencial por Fernando Haddad,ex-prefeito de São Paulo.
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin durante evento em Brasília
Em 2022, a disputa entre Lula e Bolsonaro se cristaliza, e a descrição dela como polarizada se repete , assim como os alertas dos cientistas políticos para a assimetria dessa polarização em termos político-ideológicos.
Pré-candidatos que estão mais abaixo nas pesquisas insistem na ideia dos “dois extremos”, como se o ex-presidente e o presidente estivessem cada um numa ponta da ferradura. Mas tanto o histórico quanto os movimentos políticos dos dois desmentem a tese.
Lula prepara uma chapa com seu ex-adversário Geraldo Alckmin (PSB), que fez a carreira política no PSDB — justamente o partido que protagonizou, contra o PT, o que era a polarização brasileira dos anos 1990 até as eleições de 2014. Já Bolsonaro, atualmente no PL, pretende ter como vice o general da reserva Walter Braga Netto, que foi ministro no governo atual.
Lula e Bolsonaro em grafitti do artista Igor Izy, no Rio de Janeiro
Além da posição ideológica, a assimetria ocorre também nas tendências reveladas pelas pesquisas eleitorais. Nos diferentes levantamentos, o petista aparece como favorito com ampla diferença, podendo vencer em primeiro turno. A discrepância se dá ainda na rejeição a cada um dos candidatos.
48%x27%
é o percentual de eleitores que pretendem votar no primeiro turno das eleições em Lula e em Bolsonaro, respectivamente
33%x54%
é o percentual de eleitores que não votariam de jeito nenhum em Lula e em Bolsonaro, respectivamente
Analistas têm apontado também que o balanço da polarização assimétrica varia a depender do grupo social em análise. Por exemplo, entre eleitores pretos e pardos, grupo que representa 70% do eleitorado, mais de dois terços (68%) declaram que votariam em Lula num segundo turno contra Bolsonaro.
Os números apresentados acima são da pesquisa do Instituto Datafolha realizada nos dias 25 e 26 de maio com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, no caso dos percentuais gerais. O levantamento está registrado no TSE sob o código BR-05166/2022.
Diretor da Quaest Pesquisa e professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Felipe Nunes afirma que a repartição das intenções de voto entre Lula e Bolsonaro fica razoavelmente equilibrada entre:
Já outros grupos registram grande desequilíbrio em favor de Lula. São eles:
“A polarização política se transformou em polarização social . A disputa não é mais entre partidos, mas entre grupos sociais que lutam por direitos, privilégios, garantias e recursos limitados”, escreveu Nunes no Twitter.
Em ensaio publicado no Nexo , os cientistas políticos Rafael Poço, idealizador do projeto Despolarize, e Rodrigo de Almeida afirmam que, embora “o antogonismo político e a polarização sejam inerentes à disputa democrática”, existe um problema quando a polarização é alimentada pelas campanhas . Essa estratégia pode beneficiar candidaturas, mas promove hostilidades extremas e barra soluções para os problemas coletivos,eles afirmam.
Determinados políticos se beneficiam da polarização — e fazem dela uma estratégia eleitoral —, porque um repúdio ao campo político adversário gera entre seus eleitores grande permissividade quanto ao seu próprio comportamento, inclusive para atropelar regras e instituições .
“O que explica essa espantosa capacidade de comportar-se de uma maneira que, diria a sabedoria convencional, destruiria a carreira de qualquer político? Qual superpoder permite ao presidente [americano Donald] Trump, parafraseando suas próprias palavras, dar um tiro em alguém em plena Quinta Avenida, sem perder o apoio de seus seguidores?”, questionou o economista Filipe Campante, professor na Johns Hopkins University (EUA), em coluna no Nexo .
Para ele, a polarização é a razão central desse fenômeno. “Muitos eleitores que tenderiam a reprová-lo viram nele um mal menor em comparação ao seu adversário”, disse Campante. Em 2016, Trump disputou a Presidência dos Estados Unidos contra a democrata Hillary Clinton. Na campanha, ela foi alvo de uma série de notícias falsas e teorias da conspiração envolvendo temas como pedofilia e satanismo, o que não tem base na realidade .
A degradação institucional liberada pela polarização pode chegar ao abandono da democracia, afirma o economista Cláudio Ferraz, professor da Universidade de British Columbia (Canadá) e da PUC-Rio. Em coluna no Nexo , Ferraz diz que, num contexto de polarização extrema, “muitos eleitores estarão dispostos a abrir mão de um sistema democrático para ter um país que se aproxime de suas preferências partidárias”.
Citando o cientista Milan Svolik, professor na Universidade Yale (EUA), Ferraz mostra que líderes autoritários como Hugo Chávez, na Venezuela, Viktor Orbán, na Hungria, e Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, “exploram de forma magistral o dilema entre princípios democráticos e interesses partidários”, transformando as tensões sociais de seus países num “conflito político entre lados opostos”.
“Como argumenta Svolik, níveis altos de polarização permitem que líderes autoritários possam subverter a democracia sem serem punidos nas urnas”, disse Ferraz.
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