Expresso

Como o fenômeno da ‘grande demissão’ chega no Brasil

Cesar Gaglioni

25 de agosto de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h40)

Onda de demissões voluntárias que marcam os EUA desde 2021 chega ao país. Mais jovens tentam delimitar vida profissional e pessoal

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FOTO: MOHAMMAD HASSAN/PIXABAY

Ilustração de profissional de escritório esgotado

Ilustração de profissional de escritório esgotado

Cerca de um ano depois de seu início nos EUA, a “grande demissão” chegou ao Brasil. O nome foi dado para a onda de profissionais de diversos setores que têm apresentado pedidos de demissão voluntária a seus empregadores.

Lá fora, o fenômeno atinge todas as classes sociais, com destaque para empregos que tradicionalmente pagam pouco – como faxineiros e coletores de lixo. No Brasil, ele tem sido mais presente entre profissionais diplomados, que, no geral, recebem mais por seus serviços.

Paralelamente a isso – e correlacionado – há o fenômeno da “desistência silenciosa” (do original “quiet quitting”). Nele, os profissionais optam por fazer o mínimo possível de suas atribuições, recusando horas extras e acúmulos de responsabilidade que não se revertem em aumento salarial. A ideia é traçar uma linha clara entre a vida profissional e a vida pessoal, sem abrir mão de uma pela outra.

Neste texto, o Nexo explica esses movimentos e como eles se apresentam dentro do contexto do mercado de trabalho brasileiro.

Grande demissão

Até fevereiro de 2021, os pedidos de demissão voluntária nos EUA nunca tinham ultrapassado 2,4% do total de desligamentos mensais no país. Em 2020, com a pandemia da covid-19, o índice chegou a 1,6%.

No entanto, com a vacinação avançando e o período crítico da pandemia ficando para trás, o cenário começou a mudar. Em dois meses, o índice subiu de 2,1% para 3,2%.

Ao fim de 2021, foram 48 milhões pedidos de demissão nos EUA. Os maiores índices foram registrados em profissões que exigem menos preparo dos trabalhadores e que costumam pagar menos. Faxineiros, chapeiros, motoristas de ônibus escolares, zeladores e coletores de lixo são alguns dos exemplos. Passaram a sobrar vagas de trabalho.

Em setembro de 2021, o governo do estado de Massachusetts precisou acionar a Guarda Nacional – força militar de reserva – para ocupar postos de trabalhos de motoristas de ônibus escolares, já que não havia profissionais interessados em fazer o trabalho. Os bônus oferecidos aos trabalhadores era de até US$ 4.000 (cerca de R$ 20 mil em 2022).

A revista Harvard Business Review, ligada à Escola de Negócios da Universidade de Harvard, avalia que a Grande Demissão teve cinco causas principais, que já vinham se desenhando antes de 2020, mas que se intensificaram com a pandemia:

  • Aposentadoria : trabalhadores mais velhos atingiram a idade necessária para a aposentadoria ou decidiram se aposentar mais cedo, no caso dos que optaram por previdências privadas, deixando seus postos de trabalho
  • Mudança de endereço: milhares de profissionais decidiram mudar de cidade ou estado, saindo de grandes centros urbanos – com um custo de vida maior – e migrando para o interior do país
  • Reflexão: com as tragédias causadas pela pandemia, parte dos profissionais passaram a refletir sobre a real importância do trabalho em suas vidas e concluíram que podiam sobreviver em outras profissões, de outras maneiras
  • Capacitação: durante o período de isolamento social, com uma rotina menos agitada, profissionais puderam voltar a se dedicar aos estudos, tornando-se mais capacitados para empregos com melhor remuneração
  • Relutância: com a vacinação, empresas das mais diversas áreas voltaram aos escritórios. No entanto, boa parte dos profissionais americanos preferem continuar no regime de home office ou adotar um modelo híbrido – com idas esporádicas ao escritório e a maior parte do trabalho feito em casa. A relutância em voltar ao modelo antigo também motivou pedidos de demissão

“A Grande Demissão não surgiu do nada”, diz a Harvard Business Review. “A pandemia foi o gatilho para as consequências naturais dos fatores que listamos.”

Desistência silenciosa

Entre profissionais mais novos, paralelamente aos pedidos voluntários de demissão, há o “quiet quitting”, ou “desistência silenciosa”. A tendência tem sido objeto de discussão em vídeos que viralizaram no TikTok.

Nesses casos, os profissionais optam por fazer apenas o mínimo necessário exigido por seus empregos, sem aceitar responsabilidades extras que não são remuneradas e traçando uma linha clara entre a vida profissional e a vida pessoal.

A “desistência silenciosa” conversa com a “grande demissão”. Em ambos os casos, há um contexto em que os profissionais refletem sobre o trabalho em suas vidas. Para a antropóloga síria Rahaf Harfoush, o movimento – que é mais presente entre os millennials (nascidos entre 1984 e 1995) e a Geração Z (nascidos entre 1995 e 2004) – tem a ver com uma série de promessas de mundo que não foram cumpridas.

“Disseram que se trabalhássemos muito, e que se fôssemos mais longe, e que se pudéssemos alcançar essa promoção, a recompensa seria poder comprar uma casa, poder ir à escola, poder conseguir um bom emprego, poderíamos subir de nível”, disse ela à agência Bloomberg em 23 de agosto. “Agora, o que estamos vendo, pelo menos no caso dos millenials, é que essas promessas não são verdadeiras”.

Ao optar pela “desistência silenciosa”, o funcionário lida com o risco de eventualmente ser demitido. Mas aceita essa possibilidade deliberadamente e está preparado para o caso de ela se concretizar.

Além do TikTok, a ideia da “demissão silenciosa” cresceu no Reddit, no fórum Anti Work (Anti-trabalho). Lá, estão cerca de 2,2 milhões de usuários que pedem ativamente pelo fim do trabalho.

Os fenômenos no Brasil

Diferentemente do que ocorre nos EUA, a onda de pedidos de demissão têm sido capitaneada por profissionais diplomados, que normalmente ocupam cargos de trabalho com maior remuneração. Os dados são de um levantamento da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro publicado em agosto.

2,9 milhões

foi o número de pedidos de demissão no Brasil entre janeiro e junho e 2022

48,2%

é o percentual dos pedidos de demissão que foram feitos por profissionais com ensino superior completo

33%

é o percentual dos pedidos de demissão que foram feitos por profissionais com ensino médio completo

A taxa de pedidos de demissão foi a maior registrada desde 2014. Mas há diferença nos cenários: naquele ano, o índice de desemprego no país era de 7,1%. Em 2022, é de 9,8%. Trata-se de um contexto em que há um temor maior pela falta de trabalho e as condições socioeconômicas do país.

Na maioria das vezes, o pedido é motivado pelo surgimento de uma oportunidade melhor. Profissionais que trabalham com tecnologia da informação foram os que mais pediram demissão: 65,1% do total de demissões da área foram voluntárias. Profissionais da medicina vieram em segundo lugar, com 57,5% do total de desligamentos.

“A diferença é que no caso do Brasil esse movimento é mais restrito a um grupo pequeno, formado por jovens e, geralmente, pessoas com maiores níveis de escolaridade e que estão ligadas a atividades que podem ser feitas de maneira remota. Nos Estados Unidos, o movimento é mais geral”, disse ao jornal Folha de S.Paulo Jonathas Goulart, gerente de estudos da Firjan.

Além dos pedidos de demissão, o “demissão silenciosa” também tem seus adeptos no país, nos mesmos grupos sociais, mas em menor escala. “É uma nova mentalidade de jovens que começaram a trabalhar em período de trabalho remoto e dizem não aos excessos”, disse Sandra Boccia, colunista de mercado de trabalho da rádio CBN em 20 de agosto.

“Eles estão dizendo ‘não, não quero ser chefe, não quero dar o sangue, quero trabalhar em paralelo nos meus projetos pessoais. É um protesto contra a exploração no ambiente de trabalho, eles estão colocando o trabalho no lugar do trabalho, e não de propósito de vida”, afirmou Boccia.

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