Expresso

A disputa pelo apoio do agronegócio nas eleições

Marcelo Roubicek

23 de setembro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h44)

O ‘Nexo’ lembra como os governos de Lula e Bolsonaro atuaram com relação ao setor e ouve especialistas para entender por que há maior apoio de produtores rurais ao atual presidente

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FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS – 07.SET.2022

Máquinas agrícolas passam em corredor aberto no meio de manifestação bolsonarista. As pessoas ao redor vestem roupas verde e amarelas e usam bandeiras do Brasil e de Bolsonaro.

Máquinas agrícolas em ato bolsonarista de 7 de setembro

O agronegócio tem sido um dos temas e alvos da campanha eleitoral de 2022. A disputa é protagonizada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder nas pesquisas; e Jair Bolsonaro (PL), segundo colocado.

O atual presidente conta com apoio de boa parte do setor, seja na forma de doações de empresários rurais ou até mesmo de apoio nos atos de 7 de setembro. Lula, por sua vez, tenta se aproximar do setor – embora não sem dificuldades.

Neste texto, o Nexo explica o que é o agronegócio brasileiro e como os governos de Lula (2003 a 2010) e Bolsonaro (2019 a 2022) trataram o setor. Também ouve especialistas para entender as demandas e organização política do agro.

O agronegócio no Brasil

O agronegócio é a soma de todas as operações envolvidas na produção e distribuição de alimentos, fibras e outros produtos agropecuários, da fabricação de insumos para as propriedades rurais até a produção em si, passando pelo processamento, transporte e estocagem desses itens.

O setor não inclui apenas as atividades do campo (como o cultivo de plantas e a criação de gado), mas toda a cadeia de operações ligadas a ele. Os produtos que fazem parte do segmento são tão variados quanto a comida, os tecidos, o papel, a madeira e os biocombustíveis.

Trata-se, portanto, de um setor importante da economia brasileira. Há diferentes formas de medir o seu impacto na produção do país.

FOTO: RAHEL PATRASSO/REUTERS – 08.ABR.2020

Homem de chapéu anda entre longas filas de acelga que estão plantadas no solo

Agricultor em plantação de acelga em Piedade, São Paulo

Nos cálculos do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), o agronegócio responde por pouco mais de um quarto do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. O dado inclui a produção agropecuária e as atividades de indústrias e serviços que fazem parte da sua cadeia de produção.

Nas contas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número é bem menor: um pouco menos de 7% em 2021. Isso porque o instituto considera apenas a produção efetiva da agropecuária, sem levar em conta outros setores que giram em torno dessas atividades.

Para além de sua definição ligada à produção, o agronegócio também pode ser identificado de outra maneira. No livro “Formação política do agronegócio”, o antropólogo Caio Pompeia diz que, politicamente, o conceito costuma estar associado aos grandes produtores rurais, ligados à grande propriedade, à monocultura e ao investimento em commodities para exportação (diferentemente da agricultura familiar, por exemplo).

FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS – 12.MAR.2021

Homem segura grãos de soja na mão. Ao fundo, contêineres cheios de soja e um trator de colheita

Colheita de soja em Caseara, no Tocantins

Conforme mostrou reportagem da revista Piauí de setembro de 2022, o agronegócio é um setor bastante beneficiado por medidas econômicas como isenções fiscais. Um exemplo é a ausência de cobrança de impostos de exportação sobre produtos da agropecuária. Além disso, o setor conta com incentivos na forma de crédito favoráveis, envolvendo muitas vezes diferentes agentes do setor financeiro privado.

O texto da Piauí mostra também que o agro não foge do problema brasileiro de má distribuição de renda e empregos. O número de vagas do setor, inclusive, caiu nos dez anos a partir de 2012.

O agro sob Lula e Bolsonaro

LULA (2003 a 2010)

Lula governou o país em momento favorável para o agronegócio: entre 2004 e 2011, aproximadamente, o mundo passou pelo chamado boom de commodities. Na pecuária, foi feita a aposta , via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), em empresas do setor de processamento de carne – como a holding J&F, dona da JBS. O governo federal também lançou instrumentos para ampliar financiamento do setor, incentivando sobretudo o crédito via instituições privadas, de acordo com Felippe Serigati, professor do FGV-Agro (Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas). Houve também uma maior aposta em biocombustíveis antes da descoberta do pré-sal em 2007, além da aprovação da Lei de Biossegurança , favorável ao uso de transgênicos . No primeiro mandato, o Ministério da Agricultura foi conduzido por Roberto Rodrigues – o cargo foi, de forma inédita, ocupado por um nome ligado a uma associação do agronegócio. Outra marca da gestão de Lula foi o apoio a assentamentos e a pequenos produtores, segundo Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global.

BOLSONARO (2019 a 2022)

A gestão de Bolsonaro foi marcada pelo aprofundamento do protagonismo do agronegócio na política nacional. Houve presença, inclusive, de grupos de extrema direita, como a UDR (União Democrática Ruralista). O mandato de Bolsonaro foi também um momento de desregulamentação ambiental e pelo desmonte de políticas de proteção ao ambiente, muitas vezes favorecendo determinados setores do agro. O símbolo dessa atuação foi a frase “ passar a boiada ”, dita em 2020 pelo então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. A gestão de Tereza Cristina no Ministério da Agricultura, por sua vez, agradou a produtores rurais, segundo Serigati. “Apesar de toda a restrição fiscal, foi possível defender as linhas de crédito associadas ao setor, além do fortalecimento do programa de seguro rural”, disse o professor do FGV-Agro aoNexo. Gilio, do Insper, disse que a gestão de Cristina ajudou a expandir o agro brasileiro a novos mercados.

O atuação política do agro em 2022

Politicamente, “o agro é muito heterogêneo”, disse Serigati. “É bem diversificado, seja em termos de produto ou de cadeia, mas também está espalhado pelo Brasil inteiro”, afirmou o professor da FGV.

Gilio seguiu a mesma linha de raciocínio, mas apontou uma diferença do ciclo eleitoral de 2022 com relação a campanhas anteriores (com a possível exceção de 2018): as entidades do agro, ligadas aos grandes empresários, “estão muito mais politizadas hoje”, disse. “Vejo isso como um erro, porque as entidades depois vão ter que lidar com qualquer governo que estiver no poder.”

Essa mobilização em 2022 aparece geralmente na forma de apoio a Bolsonaro. Empresários do agronegócio têm liderado doações na corrida eleitoral, de acordo com levantamento do jornal O Globo. O setor tem sido o maior financiador da tentativa de reeleição do presidente.

Um dos nomes fortes das doações para a campanha de Bolsonaro é Odílio Balbinotti Filho , presidente do grupo Atto Sementes. Outro grande doador é Oscar Cervi, grande produtor de soja .

FOTO: DIVULGAÇÃO CAMPANHA DO PL/VIA REUTERS

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em Brasília no 7 de setembro de 2022

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em Brasília no 7 de setembro de 2022

Além disso, uma reportagem da Agência Pública publicada em 8 de setembro de 2022 mostrou que empresários ligados à produção rural, a máquinas agrícolas ou a sindicatos regionais do agro bancaram a participação de tratores nas manifestações de 7 de Setembro em Brasília. Os atos tiveram tom de ameaça institucional e também serviram como grande evento de campanha de Bolsonaro.

Por que há apoio a Bolsonaro em 2022

Serigati e Gilio afirmaram que tanto sob Lula como sob Bolsonaro, o agronegócio teve bons anos. Ou seja, do ponto de vista desse setor, ambos os governos podem ser considerados positivos, segundo os pesquisadores.

Mas há diferenças que explicam por que o setor tem apoiado Bolsonaro com maior força no pleito de 2022 – a começar pelo espaço que ganhou no governo a partir de 2019.

Além disso, Serigati colocou que a forma como o agronegócio aparece nas falas de Bolsonaro é mais favorável que no caso de Lula. “O próprio discurso de Bolsonaro não é um discurso agressivo ao setor. Já as pessoas próximas de Lula têm feito – e historicamente fazem – discursos mais agressivos contra o setor.”

Um episódio que marcou o início da campanha eleitoral foi a entrevista ao Jornal Nacional , da TV Globo, em que Lula disse que parte do agronegócio atua contra o meio ambiente . “O agronegócio que é fascista e direitista [quer desmatar]. O agronegócio que exporta não quer desmatar”, afirmou. Diferentes associações do setor repudiaram a fala .

Outro tema da sabatina no Jornal Nacional foi o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Segundo Gilio, do Insper, “a questão do apoio ao MST [por Lula] é uma que cria um certo bloqueio junto aos agentes do agro”.

FOTO: PAULO WHITAKER/REUTERS – 01.ABR.2010

Vista aérea de tratores que colhem soja em linhas paralelas. Cada um está mais avançado que o de baixo, formando uma linha diagonal de tratores

Tratores colhem soja em fazenda em Correntina, na Bahia

O pesquisador também afirmou que a proximidade de boa parte do agro com Bolsonaro se dá pela ligação com pautas conservadoras e questões ideológicas. A agenda armamentista também aparece como um ponto em comum entre parte de produtores rurais e o discurso bolsonarista, de acordo com Gilio.

Por fim, ele afirmou que a pauta ambiental de Bolsonaro também ajuda a atrair partes dos produtores rurais. “Entre alguns setores mais atrasados, alguns produtores que trabalham mais na ilegalidade, a pauta ambiental também é uma questão”, disse o pesquisador do Insper.

O agro nos discursos de Lula e Bolsonaro

A campanha de Bolsonaro em 2022 tenta manter essa aproximação junto ao agronegócio, para reter o apoio político de agentes do setor. Um exemplo é a presença do presidente em eventos como Festão do Peão, em Barretos, no interior de São Paulo.

O discurso do candidato à reeleição também se direciona para a valorização dos produtores rurais. Um exemplo é a repetição de que o Brasil é celeiro global de alimentos. “Se não fosse o agronegócio brasileiro, o planeta passaria fome. O agronegócio é orgulho nacional ”, disse o presidente em discurso na terça-feira (20), na abertura da 77ª Sessão da Assembleia-Geral das Nações Unidas.

Aliados de Bolsonaro também repercutiram negativamente a fala de Lula no Jornal Nacional, em que disse que alguns produtores eram “fascistas”.

Já Lula vem atuando para reduzir entraves junto ao setor de diferentes maneiras. O ex-presidente promete, por exemplo, que não irá taxar exportações da agropecuária e que também não irá incentivar invasões de terras pelo MST. “São lendas que amedrontam os produtores e distanciam a classe da campanha petista”, disse ao jornal Valor Econômico o senador licenciado Carlos Fávaro (PSD-MT), que tem atuado junto à campanha de Lula.

Fávaro é um nome ligado à bancada ruralista do Congresso. Lula tem se aproximado de outros nomes da frente, como o deputado Neri Geller (PP-MT), e também de empresários do agronegócio . Geraldo Alckmin, vice da chapa, foi escalado para reuniões junto a associações do setor, principalmente na região Centro-Oeste, local forte do agronegócio brasileiro.

FOTO: MIKE BLAKE/EDGARD GARRIDO/REUTERS

Na foto da esquerda, o atual mandatário Jair Bolsonaro. Na foto da direita, o ex-presidente Lula

Na foto da esquerda, o atual mandatário Jair Bolsonaro. Na foto da direita, o ex-presidente Lula

Em tentativa de ganhar apoio do agronegócio, Lula concedeu entrevista na quarta-feira (21) ao Canal Rural . Além de dizer que não generalizou ao falar de agentes “fascistas” no agronegócio, o petista também defendeu o porte de armas em propriedades rurais . “Ninguém vai proibir que o dono de uma fazenda tenha uma arma, duas armas”, disse. Lula também afirmou que o MST “está mais maduro” e focado na produção de alimentos.

Na quinta-feira (22), pesquisa Datafolha (BR-04180/2022) mostrou que há empate técnico entre Lula e Bolsonaro no Centro-Oeste: Bolsonaro tem 41% e Lula 38%. Duas semanas antes, (BR-07422/2022), Bolsonaro liderava por 47% a 30%.

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