O potencial do Brasil para capturar carbono
Lucas Zacari
28 de maio de 2023(atualizado 28/12/2023 às 17h25)Estudo mostra como o país pode se tornar um dos principais descarbonizadores do mundo. Setores como indústria e energia são considerados essenciais para diminuir CO2 na atmosfera
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Fumaça sai das chaminés de uma usina petroquímica em área industrial de Cubatão, em São Paulo
O Brasil tem o potencial de capturar mais de 190 milhões de toneladas de carbono por ano. É isso o que afirma o 1º Relatório Anual de CCS (Captura e Armazenamento de Carbono) de 16 de maio.
O estudo publicado pela organização CCS Brasil mostra que, caso o potencial seja efetivamente alcançado nos próximos anos, o país se tornaria o principal capturador de carbono do mundo. Segundo a IEA (Agência Internacional de Energia), o posto é ocupado atualmente pelos Estados Unidos, que até 2030 pretende começar a capturar 113 milhões de toneladas de CO2 anualmente.
Neste texto, o Nexo apresenta as formas de captura e armazenamento de carbono e quais setores brasileiros mais ajudariam o meio ambiente com as práticas de descarbonização.
No dia seguinte ao lançamento do relatório, a OMM (Organização Meteorológica Mundial) anunciou que as temperaturas globais devem alcançar nível recorde entre 2023 e 2027. Segundo o estudo, há 66% de chance de que, ao menos durante um ano desse período, a temperatura se eleve em 1,5°C em relação a níveis pré-industriais.
Um dos principais motivos para o aumento das temperaturas é a alta concentração de gases do efeito estufa na atmosfera. Também segundo a Agência Internacional de Energia, a emissão de CO2 em 2022 chegou a um patamar recorde de 36,8 gigatoneladas de carbono, provenientes principalmente da combustão de energia e de processos industriais.
Muitos setores – como indústrias siderúrgicas, cimenteiras, petroquímicas, de fertilizantes e refinarias – ainda são dependentes da grande emissão de CO2 para seu funcionamento. “O que a gente tem agora é a capacidade de evitar que ele vá para atmosfera, é uma descarbonização direta dos processos industriais”, disse ao Nexo Isabela Morbach, fundadora da CCS Brasil e coautora do estudo.
Assim, para compensar essas emissões, práticas de remoção de carbono baseadas em tecnologia são colocadas como estratégias de descarbonização no combate ao aquecimento global.
Beccs (bioenergia com captura e armazenamento de carbono)
Processo carbono negativo , ou seja, retira mais gases do efeito estufa do que emite. As plantas, por meio da fotossíntese, incorporam o CO2 da atmosfera. No processamento para a produção de combustíveis – etanol e biometano, por exemplo –, o gás carbônico é separado dos demais gases produzidos. Posteriormente, é comprimido para ser transportado e armazenado.
Daccs (captura e armazenamento de carbono diretamente do ar)
Por meio de unidades de captura do ar em ambientes abertos, o gás carbônico é absorvido com a ajuda de grandes ventiladores, e separado dos demais componentes do ar, que são devolvidos para atmosfera. Ao ser separado, passa também pelos processos de compressão, transporte e armazenamento.
Além desses, o relatório apresenta o florestamento e o reflorestamento, o biocarvão, a aceleração do intemperismo (decomposição de rochas) químico e a carbonatação natural – bolhas formadas a partir da interação do gás carbônico do ambiente com um líquido – como soluções de remoção baseadas na natureza.
Para Morbach, a união das duas práticas ajuda a cumprir as metas de descarbonização mundial. “Reflorestamento e restauração ambiental têm outros propósitos além de capturar CO2, tem a ver com fauna e flora, com equilíbrio ecossistêmico. Uma coisa não compete com a outra. Só que a gente não tem capacidade de descarbonizar o mundo só com reflorestamento.”
De acordo com o SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima), a emissão de CO2 na atmosfera entre 2012 – ano de início da iniciativa – e 2021 aumentou cerca de 130% no Brasil.
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toneladas de CO2 foram emitidas em 2021 no Brasil, segundo estimativas do SEEG
Dentre as principais atividades emissoras de gases do efeito estufa, estão mudanças do uso da terra e florestas (49%) – ações do homem em áreas de vegetação nativa, como o desmatamento –, agropecuária (24,8%), energia (17,9%), processos industriais (4,4%) e resíduos sólidos (3,7%).
Segundo Morbach, a descarbonização baseada em tecnologias é voltada para fontes estacionárias, sejam em indústrias, na produção de energia ou em Daccs. “No processo de captura e armazenamento, eu coloco um filtro capaz de captar o CO2 do fluxo de ar. Por que que eu não faço isso em fontes dispersas? Porque é uma infraestrutura industrial mesmo, é um grande filtro com membranas”, disse a coautora do estudo.
O potencial de mais de 190 milhões de toneladas capturadas por ano – cerca de 7,8% do total brasileiro emitido em 2021 – é liderado pelo setor de energia de fontes fósseis, como petróleo e seus derivados, gás natural e carvão mineral, além de termelétricas.
Em seguida estão as Beccs, sobretudo na produção de etanol e bioenergia , e as indústrias. Também se destaca a produção de hidrogênio azul pela reforma a vapor de gás natural (conversão de CH4 [metano] e água em CO2 e hidrogênio).
A região sudeste tem a principal rede de oportunidades de captura de carbono do país, com mais de 48% de volume de CO2 com potencial de ser capturado. Além da concentração industrial, a região tem os maiores números de indústrias de bioenergia, ao lado do centro-oeste e do sul.
“A combinação de dupla captura de CO2, ou seja, a captura baseada na natureza com a captura tecnológica, torna esse processo o que a gente chama de carbono negativo. Na prática, em termos de carbono de emissões, ele tem um efeito muito semelhante ao do reflorestamento”, explica Morbach sobre a importância do processo das Beccs.
Além da captura, o Brasil também tem áreas com alta capacidade de armazenamento de carbono. O armazenamento geológico é o mais comum. Ele é feito a partir da injeção de CO2 comprimido em poros de rochas já exploradas de petróleo e gás natural. Segundo o CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), o país tem 30 bacias sedimentares , sendo que apenas uma não tem reservatório comercial para esses combustíveis fósseis.
A bacia do Paraná, por conta de sua proximidade com a região de maior potencial de captura de carbono, é considerada a ideal para o armazenamento. O CO2 também pode ser alocado em aquíferos salinos, desde que impróprios para o consumo, e em camadas de carvão natural não mineráveis por desinteresse econômico.
Apesar do enorme potencial que o território brasileiro tem para a captura e armazenamento de carbono, Morbach explica que ainda não é possível aplicar esse potencial em larga escala pela falta de regulação dessa prática. Segundo ela, os reservatórios minerais são bens da União e, por isso, só podem ser explorados para armazenamento com autorização.
“Todos os projetos no Brasil estão dependentes de uma regulação para que a união possa outorgar o que e como ela pode fazer essa exploração, que nem é do petróleo”, ressalta.
Desde 2022, está em tramitação no Senado brasileiro o projeto de Lei n° 1425 , considerado o marco legal da captura e armazenamento de carbono. Caso a regulação se concretize, o relatório estima que a venda de créditos de carbono poderia render ao Brasil de US$ 14 bilhões a US$ 20 bilhões ao ano.
Outro ponto que dificulta a prática é o transporte do CO2 capturado para as formações geológicas de armazenamento. Apesar de carbodutos – dutos que transportam o carbono – já serem desenvolvidos mundialmente, os pesquisadores pontuam que a produção inicial ainda tem um custo elevado.
Morbach explica que, sem a regulação desse mercado, toda a cadeia produtiva fica em dúvida sobre o custo-benefício dessa operação: “só vão construir uma infraestrutura de captura se souberem que tem onde armazenar. Só vão furar um poço para armazenar se souberem que tem que enterrar. No meio, só vão se arriscar a prestar o serviço de transporte se souberem que os outros dois existem”.
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