Os avanços e entraves de pensar o país junto a 1 milhão de cidadãos
Mariana Vick
16 de julho de 2023(atualizado 28/12/2023 às 22h40)Governo abriu espaço para população enviar propostas para Plano Plurianual e contribuir para planejamento orçamentário dos próximos anos. Participação digital foi recorde, mas processo tem limitações
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Terminou no domingo (16) o prazo para que a população faça contribuições para o Plano Plurianual, que deve orientar as políticas públicas do Brasil nos próximos anos. Mais de 1,2 milhão de pessoas mandaram e votaram propostas na plataforma Brasil Participativo. Agora o governo deve montar o texto, previsto para ser enviado ao Congresso Nacional em agosto.
Os números da iniciativa a colocam como a maior experiência de participação social digital do país. A plataforma Brasil Participativo foi criada em maio. O recorde ocorre num momento em que o governo tenta recuperar os canais de participação social depois dos últimos anos de restrição de contribuições.
Neste texto, o Nexo explica o que é o Plano Plurianual, como ele funciona e qual o seu histórico, do ponto de vista da participação social. Mostra também qual o balanço das contribuições da sociedade feitas em 2023 e o que pode sair desse processo em termos práticos.
O PPA (Plano Plurianual) é uma lei de iniciativa do presidente da República. Estabelece os grandes objetivos e metas dos programas do governo federal a cada quatro anos. É um texto abrangente, que tem o objetivo de orientar o planejamento orçamentário da União durante todo esse período.
A duração do PPA não coincide com a do mandato presidencial: o último ano do texto sempre se refere ao primeiro ano de um novo governo. O PPA elaborado agora, por exemplo, deve durar de 2024 a 2027, quando o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva terá acabado. A ideia é garantir que os programas não sejam interrompidos logo no início do governo seguinte.
Plenário da Câmara dos Deputados antes de sessão
O PPA faz parte da chamada tríade orçamentária definida pela Constituição Federal. No Brasil, o planejamento das receitas e despesas do governo inclui etapas de curto e médio prazo. O PPA corresponde à estratégia de médio prazo, enquanto a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) e a LOA (Lei Orçamentária Anual), os outros dois membros da tríade, são anuais.
O PPA deve ser enviado ao Congresso Nacional até o fim de setembro do primeiro ano de gestão. Os parlamentares precisam votá-lo antes de analisar a LDO. Sem o plano, a Comissão Mista de Orçamento do Congresso também não pode encaminhar o projeto da LOA, que define detalhadamente os gastos e receitas do ano.
O primeiro governo a sugerir que a sociedade interagisse com o plano foi o de Fernando Henrique Cardoso, que propôs o monitoramento coletivo da implementação do PPA dos anos 2000-2003, de seu segundo mandato. Lula aprofundou essa ideia no governo seguinte, convidando a sociedade a não só fiscalizar, mas elaborar o plano.
O petista foi eleito pela primeira vez em 2002 com a promessa de ampliar a participação social nas políticas públicas. Seu segundo mandato e os de Dilma Rousseff, sua sucessora, mantiveram essas iniciativas, embora com menos fôlego. Michel Temer e Jair Bolsonaro, que vieram depois, restringiram o espaço da sociedade no governo, principalmente nos últimos quatro anos.
Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff em comício no Vale do Anhangabaú, em São Paulo
A participação no PPA aconteceu de diferentes formas. Em 2003, o governo realizou fóruns estaduais em todas as capitais do Brasil com a presença da sociedade civil, além de debates temáticos dentro dos ministérios. Houve ainda tentativas de incentivar a participação online, embora esse modelo não tenha sido incorporado ao plano.
As iniciativas tiveram limitações. “É um consenso na literatura especializada que o compromisso de viabilizar a participação no orçamento no plano federal foi progressivamente esquecido”, disse ao Nexo Adrian Gurza Lavalle, professor de ciência política na USP (Universidade de São Paulo) e vice-diretor do Centro de Estudos da Metrópole. Apesar de terem recebido sugestões para a elaboração do plano, os governos de Lula e Dilma não incentivaram a participação durante todo o período de vigência do texto (que inclui também fiscalização, revisão e avaliação). Além disso, em alguns momentos, o PPA concorreu com medidas governamentais como o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), e perdeu força.
Positivos
Os processos de participação nos primeiros mandatos de Lula e Dilma contribuíram para a democratização da administração pública federal, segundo artigo publicado em 2013 na Revista Brasileira de Planejamento e Orçamento. Ao incentivarem a colaboração entre Estado e sociedade civil, aumentaram a qualidade dos planos, tornando-os mais próximos dos anseios da sociedade.
Negativos
Houve questionamentos sobre a pertinência e a validade da participação. Em alguns momentos, os aspectos do PPA discutidos com a sociedade foram muito restritos, e, em todos, a participação não continuou nas fases seguintes do plano (o que seria necessário para verificar o cumprimento das sugestões da sociedade). Em 2019, no governo de Jair Bolsonaro, o PPA deixou a desejar quanto à participação, na avaliação de organizações da sociedade civil que acompanharam o processo.
Além de receber contribuições pela plataforma Brasil Participativo, o governo federal realizou plenárias presenciais. Todas as capitais receberam visitas, que contaram com a presença de ministros de Estado e representantes de movimentos sociais. As plenárias reuniram mais de 30 mil pessoas , segundo informações oficiais.
As propostas dos encontros foram incorporadas à plataforma, onde receberam votos do restante dos participantes. Os usuários do site também fizeram sugestões e escolheram os programas que consideram prioritários para o governo. Temas como atenção à saúde , combate à mudança climática e promoção do emprego estão entre os mais votados.
Fernando Haddad (à dir.) e Simone Tebet (à esq.) em apresentação em Brasília
O processo de 2023 teve novidades. Uma delas é a escala de pessoas que participaram das plenárias e das votações online. Para Lavalle, o volume de pessoas se deve à recuperação dos canais de participação do governo federal:
“Essa alta participação tem que ser entendida não como espontânea, no sentido de que o governo chamou a iniciativa e de repente apareceram milhares de cidadãos. […] Há um processo intenso de mobilização que passa por uma constelação de atores que saíram para fazer a defesa da participação perante os ataques realizados no governo Bolsonaro”
Outra novidade do PPA de 2023 é a incorporação do chamado orçamento participativo , uma das promessas de Lula da campanha eleitoral de 2022. O orçamento é participativo quando os cidadãos podem propor, decidir e monitorar a alocação de recursos públicos a partir de suas principais necessidades. Apesar de ser comum em alguns governos municipais, esse tipo de participação nunca ocorreu no nível federal.
“É uma novidade histórica para o Brasil”, disse Lavalle. Por ser incorporado ao PPA, o orçamento de agora não será o modelo clássico, em que os cidadãos têm direito a decidir sobre a alocação de parte predeterminada da verba pública. Ainda assim, a proposta é que a participação ajude a definir as diretrizes que orientam o gasto.
Para Lavalle, é difícil dizer que o PPA reflete as preocupações dos brasileiros. Mesmo numerosos, os participantes são apenas uma parte da população. Além disso, esse grupo tende a ser composto, em sua maioria, por atores engajados da sociedade civil, não pelos cidadãos médios, para quem é mais difícil acessar o processo participativo.
“Existe diversidade de opiniões, percepções, interesses, formações, posições entre os brasileiros. Aqueles alinhados com o governo Bolsonaro, por exemplo, não teriam nenhum interesse em participar de processos organizados por um governo do PT. É uma mobilização interessantíssima, mas eu seria cauteloso para não fazer uma leitura sobre os brasileiros”
Fatores como as plenárias presenciais, organizadas apenas nas capitais, explicam esse perfil de participantes, segundo ele. Mesmo no Brasil Participativo, que é online, há uma “intensa mobilização por parte desses atores para que suas redes e sua militância o utilizem”, disse. Esse modelo tem a vantagem de simplificar o processo, mas não alcança os cidadãos não mobilizados e sem acesso à informação.
Movimento na rua 25 de Março, na área central de São Paulo
Outra ressalva que é possível fazer é que há um longo caminho entre a participação e a aprovação do texto. A partir desta segunda-feira (17), o Poder Executivo terá que consolidar as sugestões dos participantes. Depois, o Congresso Nacional terá que aprovar o texto. “Esse processo está longe de ser fácil, e também não está garantido”, disse.
Apesar disso, Lavalle tenta moderar as críticas. Um dos motivos é o ineditismo do orçamento participativo federal. “Fazer um orçamento participativo não é fácil. Não há experiência. os modelos municipais [desse tipo de participação] não funcionam”, afirmou. “Como todo processo de participação, ele é passível de ser aperfeiçoado.”
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