Expresso

Amazônia: por que o desmate cai, mas as queimadas crescem

Mariana Vick

28 de julho de 2023(atualizado 28/12/2023 às 22h12)

Dados mostram aumento de 11% em área atingida por fogo no bioma no primeiro semestre de 2023, enquanto alertas de desmatamento registraram mais de 33% de queda 

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FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 28.SET.2021

Imagem aérea mostra área desmatada no meio de uma floresta verde e densa. Também há fumaça no céu.

Área da floresta amazônica desmatada em Rondônia

Apesar de o desmatamento na Amazônia ter caído no primeiro semestre de 2023, as queimadas aumentaram . É o que mostram dados do projeto Monitor do Fogo, conduzido pela rede MapBiomas. Antes dele, estatísticas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) haviam mostrado queda no desmate.

Fogo e desmatamento costumam estar relacionados na Amazônia, onde as queimadas não são naturais. A queda do desmate no mesmo período de aumento do fogo pode, portanto, parecer uma contradição. Diferentes fatores, porém, incentivam as queimadas no bioma, o que explica os resultados de agora, segundo especialistas.

Neste texto, o Nexo explica o que dizem os dados recentes sobre fogo e queimadas na Amazônia. Mostra também quais medidas podem ser tomadas para frear a degradação e quais são seus efeitos para a região amazônica.

O que os dados mostram

Dados do MapBiomas divulgados na terça-feira (25) mostram que a área queimada na Amazônia cresceu 14% nos primeiros seis meses de 2023 em relação ao mesmo semestre em 2022. O fogo atingiu 1,4 milhão de hectares (ou 14,5 mil km²) de terra nesse período. A extensão é um pouco maior do que a da cidade de Manaus (AM).

O aumento contraria a tendência geral do Brasil, que registrou queda nas queimadas no primeiro semestre de 2023. A área atingida pelo fogo no país nesse período foi 1% menor que a registrada em 2022. Foram 2,1 milhões de hectares (ou 21 mil km²) afetados, a maioria em áreas de vegetação nativa.

68%

da área queimada no Brasil no primeiro semestre de 2023 está na Amazônia, segundo dados do MapBiomas

As queimadas cresceram na Amazônia ao mesmo tempo em que o desmatamento caiu. Dados do Inpe divulgados no começo de julho mostram que a devastação no bioma foi 33,6% menor no primeiro semestre de 2023 em relação ao mesmo período em 2022. A área derrubada foi de 2.649 km², o equivalente a quase duas vezes a cidade de Teresina (PI).

Queda

Gráfico de barras mostra desmatamento na Amazônia nos primeiros semestres de 2018, 2019, 2020, 2021, 2022 e 2023.

Os números do desmatamento são preliminares. A fonte é o Deter, sistema do Inpe que monitora a Amazônia por satélite em tempo real e produz alertas para órgãos ambientais. Os dados definitivos são sistematizados por outro sistema, o Prodes, que os divulga a cada 12 meses, geralmente no último trimestre do ano.

O que explica as diferenças

As queimadas têm diferentes causas na Amazônia. A primeira delas é o desmatamento: depois do corte da vegetação, o fogo é usado para queimar a matéria orgânica seca. Outra causa é a chamada “limpeza de pastagem”, feita por meio do fogo em áreas de pasto nativo ou cultivado. Há ainda os incêndios florestais, que são queimadas que saem do controle e se espalham na floresta.

O aumento das queimadas no primeiro semestre de 2023 pode ter relação com a primeira causa, mesmo que o desmate tenha caído. Segundo Ane Alencar, diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora do MapBiomas Fogo, grande parte da área queimada neste ano foi devastada. A questão é que esse desmatamento ocorreu em 2022, não em 2023.

FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 08.SET.2021

Vaca branca está de pé, olhando para a câmera. Ela está sobre o pasto. Atrás dela, há árvores e muita fumaça no céu.

Vaca em pasto desmatado na cidade de Humaitá, no Amazonas

O fogo também pode ter sido causado pelo aumento de licenças para seu uso, nos casos em que ele é permitido. Em estados como o Mato Grosso, onde a presença da agropecuária é grande, as permissões para a atividade aumentaram, segundo Alencar. O desmate também cresceu no estado no primeiro semestre de 2023, contrariando a tendência da Amazônia Legal.

As queimadas de agora poderiam ter ocorrido no segundo semestre do ano. Tradicionalmente, esse é o período da chamada “temporada do fogo” na Amazônia, marcada pela chegada da estação seca. Para Alencar, porém, o processo pode ter sido adiantado em 2023, dadas as incertezas em relação à região nos próximos meses.

“Como as pessoas ficaram apreensivas com os impactos do El Niño [fenômeno climático que tende a agravar a seca e pode transformar queimadas na Amazônia em incêndios fora de controle] e a possibilidade de os governos instituírem uma moratória do fogo, começaram a queimar assim que começou a estiagem [em junho]”

Ane Alencar

diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora do MapBiomas Fogo, em entrevista ao Nexo

O que fazer para frear as queimadas

Ações de controle de órgãos como o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) ajudaram a reduzir o desmatamento na Amazônia no primeiro semestre de 2023. Autos de infração, embargos (proibição de uso de áreas desmatadas ilegalmente) e multas ambientais cresceram expressivamente. O desmate ilegal foi o principal afetado.

Ao frear o desmatamento, parte dessas medidas pode ter impedido que as queimadas na Amazônia crescessem ainda mais. Apesar disso, esse tipo de ação não é suficiente, já que o fogo tem também outras causas. “Há pessoas que o usam para queimar pastagens mal manejadas”, disse Alencar. “É preciso incentivar o melhor manejo.”

FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS – 11.AGO.2020

Em primeiro plano, homem com vestes de proteção em meio a cenário de chamas em floresta. Vários tocos de árvore são vistos

Brigadista tenta controlar fogo na floresta amazônica, no Amazonas

Os governos federal e estaduais precisam preparar medidas específicas para os meses de El Niño, segundo a pesquisadora. O fenômeno começou em junho e deve durar até 2024. Tanto moratórias do fogo (que proíbem queimadas por certo período) quanto campanhas de comunicação e a revisão de licenças podem desestimular seu uso no pico da seca, quando há mais risco de formação de incêndios.

Em alguns casos, o próprio uso do fogo pode ser desejável para evitar incêndios em períodos mais críticos. Órgãos como o Ibama e o ICMBio (Instituto Brasileiro Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) fazem queimadas controladas de forma preventiva em áreas de vegetação adaptada ao fogo para evitar incêndios em meses mais secos. O manejo é inspirado em práticas de comunidades tradicionais.

Quais são os efeitos das queimadas

As queimadas têm uma série de impactos ambientais sobre a Amazônia. Levam à perda de biodiversidade local e emitem gases de efeito estufa, que provocam a mudança climática . Alteram ainda o ciclo de água da floresta, causando mudanças na temperatura e no regime de chuvas global.

Os efeitos também aparecem na saúde humana. A fuligem liberada na queima de vegetação causa problemas respiratórios, principalmente em grupos mais vulneráveis, como crianças. O monóxido de carbono, também emitido no processo, pode causar irritação nas mucosas, e o CO2 (dióxido de carbono), que persiste na atmosfera por anos, absorve calor e torna o ambiente mais quente.

FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 03.MAI.2021

Homem está sentado em um banco ao ar livre. Do lado dele, há duas crianças. Os três usam máscara contra a covid-19. Atrás, uma placa pede o uso de máscaras na comunidade.

Homem com os filhos às margens do rio Negro, em Manaus (AM)

Estudo publicado nesta sexta-feira (28) na revista Cadernos de Saúde Pública mostra que mais de 20 milhões de habitantes da Amazônia Legal e do Centro-Oeste convivem por mais de seis meses ao ano com poluição do ar gerada por queimadas. O levantamento foi feito na Unemat (Universidade do Estado de Mato Grosso). O período avaliado vai de 2010 a 2019.

Para efeitos de comparação, algumas áreas da região metropolitana de São Paulo convivem com níveis altos de poluição por até 80% dos dias do ano. A pesquisa classifica a qualidade do ar de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), que determina que a concentração máxima aceitável de partículas poluentes no ar é de 15 microgramas por metro cúbico em uma média diária. Acima disso, como ocorre na Amazônia, há risco para a saúde.

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