Expresso

Como viabilizar o ensino em tempo integral em todo o país

Isadora Rupp

04 de agosto de 2023(atualizado 06/02/2024 às 10h57)

Programa federal incentiva a ampliação da modalidade nos estados e municípios. Representantes de entidades que atuam pelo desenvolvimento da educação avaliam os desafios de implementação 

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FOTO: SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Seis crianças estão ao redor de uma mesa quadrada. Estão olhando para papéis na mesa e fazendo anotações. Ao fundo, outras seis crianças em outra mesa.

Alunos de escola estadual de São Paulo

Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que cria o Programa Escola em Tempo Integral , com a finalidade de criar 1 milhão de matrículas na modalidade em instituições de educação básica. O texto foi publicado na terça-feira (1°) no Diário Oficial da União.

O projeto também destina R$ 4 bilhões para a expansão da jornada escolar nos estados, municípios e Distrito Federal. A política visa atingir a meta 6 do PNE (Plano Nacional de Educação), que prevê que pelo menos 50% das escolas públicas e pelo menos 25% das matrículas de educação básica da rede pública sejam em tempo integral até 2024.

Neste texto, o Nexo explica como o programa funciona e quais os desafios para a sua implementação.

O ensino integral hoje

O Ministério da Educação considera que uma vaga é em tempo integral quando o estudante permanece na escola ou em atividades escolares por um tempo igual ou superior a sete horas diárias ou 35 horas semanais, em dois turnos.

Segundo relatório mais recente de monitoramento das metas do PNE (Plano Nacional de Educação), lei decenal que define objetivos para a área educacional, o percentual de escolas que ofereciam vagas em tempo integral no Brasil era de 22,4% em 2021.

A variação entre as etapas escolares é uma desigualdade do ensino integral, de acordo com o Censo Escolar de 2022. A maioria das vagas integrais da rede pública está na creche.

Gráfico comparativo em barras azuis mostra matrículas em tempo integral na rede pública brasileira conforme etapas escolares

Painel de monitoramento do PNE mostra que 18,2% dos alunos de educação básica pública estudavam em jornada integral em 2022 no Brasil. Todas as regiões contam com escolas e matrículas nesta modalidade de ensino. O Nordeste lidera o percentual de alunos:

  • Nordeste: 23,2%
  • Sudeste: 19,9%
  • Sul: 14,9%
  • Centro-Oeste: 12,9%
  • Norte: 8,4%

Pernambuco e Ceará são os estados com mais matrículas em ensino integral no país. Pernambuco se destaca pelo trabalho no Ensino Médio: 62,5% dos alunos estudam em período integral. Já o Ceará é o estado campeão da federação: 36,9% dos estudantes estavam matriculados na modalidade em 2022.

“São estados que na média estão entre os mais pobres do território brasileiro, mas priorizam a pauta do ensino integral, que é mais caro, por acreditarem corretamente que esse modelo promove um maior desenvolvimento dos estudantes”, afirmou ao Nexo Gabriel Corrêa, diretor de políticas públicas da organização Todos Pela Educação.

O ensino integral também é uma estratégia para resgatar os níveis educacionais pós-pandemia – a crise sanitária gerou impactos em índices como evasão e exclusão escolar em todo o mundo. Em texto para o Nexo Políticas Públicas, a cientista política e mestranda em educação Tatiana Cunha Carvalho avalia que o modelo integral exercita o protagonismo dos estudantes e das famílias, o que gera acolhimento e reforça a permanência na escola.

O programa federal

Além do fomento financeiro, o Programa Escola em Tempo Integral terá ações de assistência técnica para secretarias e comunidades escolares e aprimoramento do trabalho pedagógico em perspectiva integral. A coordenação será da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação.

R$ 4 bilhões

serão investidos para que estados e municípios ampliem a jornada integral, da creche ao ensino médio

Por meio do programa, os estados podem aderir e pactuar metas com o MEC de ampliação de matrículas em tempo integral por meio do Sistema Integrado de Monitoramento, Execução e Controle. Conforme esse acordo, os recursos financeiros serão transferidos pelo governo federal para que estados e municípios concretizem o plano. O fomento será da seguinte forma:

  • Um montante de recurso financeiro será disponibilizado ao estado. O cálculo leva em consideração o número de matrículas em tempo integral que já existem no ensino público e o valor-aluno.
  • O estado ou município pactua com o MEC quantas matrículas serão criadas e recebe a primeira parcela do dinheiro.
  • Os estados e municípios declaram essas matrículas no sistema do MEC. Com isso, r ecebem a segunda parcela.
  • Os recursos para a manutenção das vagas serão feitos via Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica).

Segundo o Todos Pela Educação, o programa induz a expansão da rede integral, mas disponibiliza recursos por um tempo pré-determinado (as duas parcelas da verba). Depois, o estado e o município mantêm a matrícula de forma independente, com recursos que recebe do Fundeb.

De acordo com o MEC, outro objetivo do programa é articular diferentes saberes do currículo escolar com outros campos do saber como saúde, cultura, esporte, ciência e tecnologia, meio ambiente e direitos humanos, para melhorar o desenvolvimento e aprendizagem.

O programa também permite a concessão de bolsas para cursos de formação para professores da educação básica para participar de projetos de pesquisa e de desenvolvimento de metodologias educacionais. Antes da sanção da lei, as bolsas eram pagas somente para professores do ensino superior.

FOTO: AMANDA PEROBELLI/REUTERS – 7.OUT.2020

Professora fala com aluno sentado em carteira em uma sala de aula

Professora conversa com aluno em sala de aula, em São Paulo

Nota técnica do Todos Pela Educação avalia que o MEC acerta em colocar a educação integral como prioridade – segundo a entidade, diversos estudos, dados nacionais e outras evidências científicas apontam que a proposta pedagógica gera múltiplos benefícios ao estudante em diversos aspectos da vida.

A observância do critério de equidade para o repasse de recursos e apoio técnico aos estados e municípios são outros aspectos acertados, segundo a entidade.

Falta de critérios para definir o que se espera de uma escola que oferta a educação integral e o desafio de manter matrículas apenas com o Fundeb após a primeira parcela dos recursos são desafios apontados pelo Todos pela Educação para o sucesso do programa.

Os desafios na implementação

Para Corrêa, o principal desafio para realizar e manter a expansão são os recursos públicos: escolas em tempo integral são mais caras, pois exigem mais professores, mais alimentação escolar e mais infraestrutura. Conforme ele disse ao Nexo , é importante que os estados e municípios planejem a alocação de recursos, além da contratação e formação de professores, o que também gera custos.

A expansão da rede física de escolas é outro aspecto importante para o sucesso da matrícula integral, segundo Corrêa. “No Brasil, as escolas em muitos lugares funcionam em até três turnos com sua capacidade tomada. Se um desses períodos é transformado em integral, é preciso atender estudantes em outras escolas”, disse ao Nexo .

Segundo Marcele Frossard, coordenadora de programa e política da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, algo que preocupa é a qualidade do ensino. “Muitos estados e municípios têm aumentado o ensino integral com o tempo nas escolas, mas sem garantir que os alunos estejam em alguma atividade complementar. E a educação integral é no sentido do desenvolvimento integral do sujeito”, afirmou ao Nexo .

Gabriel Corrêa, do Todos Pela Educação, acredita que é factível que, com o programa, o país atinja a meta do Plano Nacional de Educação de 25% de matrículas em tempo integral na rede pública, mas que não se pode fazer a expansão apenas para cumprir a meta e recuar em 2025. “O MEC deve pensar como, para além da indução inicial, as redes de ensino vão manter as matrículas, e como o tempo será utilizado. Precisamos acompanhar para ver se o que foi anunciado vai virar realidade para as escolas brasileiras.”

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