7 chaves para entender o acordo do clima da COP de Dubai
Mariana Vick
13 de dezembro de 2023(atualizado 28/12/2023 às 22h17)Texto final da cúpula dá primeiro sinal para fim da exploração de combustíveis fósseis, mas também faz concessões para indústria. Decisão foi adotada em evento marcado por forte lobby do setor
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Ahmed Al Jaber, presidente da COP28, no plenário da conferência, em Dubai
A COP28, Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, terminou nesta quarta-feira (13), em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, com um feito inédito na história dos encontros: dar o primeiro sinal para o fim da exploração de combustíveis fósseis, que estão na base da economia e também do agravamento do aquecimento global.
Apelidada de “ COP do petróleo ” por causa da sede nos Emirados Árabes e do forte lobby do setor, a conferência surpreendeu observadores ao aprovar um acordo que prevê a transição energética global a partir desta década. Apesar disso, há problemas no texto. Propostas mais ambiciosas foram descartadas, e há desafios na implementação das decisões estabelecidas.
Neste texto, o Nexo explica, em sete pontos, o que o acordo da COP28 traz de novo, como ele foi aprovado na “COP do petróleo”, quais são os desafios para pôr o texto em prática, entre outros temas. Mostra ainda qual foi o saldo da conferência em Dubai, além do acordo final, e qual foi o papel do Brasil no evento.
Chamado de Consenso dos Emirados Árabes Unidos, o acordo final da COP28 convoca os países-membros a adotar “a transição dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos, de uma forma justa, ordenada e equitativa, acelerando a ação nesta década crítica, de modo a atingir zero emissões líquidas [de gases de efeito estufa] até 2050”.
Maquinário para extração de petróleo em Midland, no estado do Texas, nos Estados Unidos, em fevereiro de 2019
Esta é a primeira vez desde 1995, ano da primeira conferência do clima da ONU, que os países-membros incluem no texto final um sinal para o fim do uso de combustíveis fósseis. Ambientalistas dizem que esse era o “elefante na sala” das COPs. Apesar de a queima de petróleo, carvão e gás ser a principal responsável pela mudança climática, nunca havia se estabelecido consenso para incluir o tema num acordo.
Esse avanço não significa, no entanto, que o texto final da COP28 tenha agradado a todos. Poucos dias antes do fim da cúpula, negociadores divulgaram um rascunho do acordo que previa a “eliminação gradual” dos combustíveis fósseis — expressão que, do ponto de vista semântico, tem significado mais forte que “transição”, e agradou a ambientalistas. Parte dos países, no entanto, não subscreveu o texto, e ele caiu.
Talvez tenha sido justamente a especificidade da realização da “COP do Petróleo” que tenha colocado a transição dos combustíveis fósseis no acordo final. As escolhas dos Emirados Árabes como sede da cúpula e do sultão Ahmad Al Jaber, presidente da petroleira estatal do país, como chefe da conferência despertaram a pressão da opinião pública. Líderes e organizações da sociedade civil que acompanharam o evento puseram o tema no centro da agenda.
Funcionário caminha em frente de uma estação reguladoras de gás natural da Comgás
Al Jaber foi pessoalmente acusado antes da COP28 de querer usar o evento para firmar acordos de petróleo e gás, o que ele negou. Reportagens revelaram depois que a Opep, organização de países exportadores de petróleo, pressionou seus membros a não apoiar acordos contrários ao uso de combustíveis fósseis. Segundo negociadores, o sultão priorizou o tema por entender que ele definiria a percepção pública sobre o sucesso da conferência.
Fatores externos também justificam a pressão. O ano de 2023 deve ser considerado o mais quente na Terra em 125 milênios, segundo medições internacionais. O aumento de eventos climáticos extremos, como ondas de calor , inundações , secas e incêndios florestais, também podem ter aumentado o senso de urgência na conferência.
Além de escolher “transição” no lugar de “eliminação gradual” dos combustíveis fósseis, o acordo final da COP28 faz outras concessões para a indústria de óleo e gás. O texto fala, por exemplo, no uso de tecnologias de captura e armazenamento de carbono da atmosfera para combater a muda nça climática. Outro trecho defende a adoção de “combustíveis de transição”, como o gás natural.
Licypriya Kangujam, ativista indiana de 12 anos, ergue cartaz num palco da COP28 pedindo fim dos combustíveis fósseis
Ambientalistas veem nessas medidas uma distração perigosa para o futuro do clima. Segundo eles, a geoengenharia (nome das tecnologias de captura e armazenamento de carbono) tem papel pequeno no combate à mudança climática, e seu uso pode atrasar a transição para fontes de energia renovável. Já o gás fóssil é um combustível cuja queima emite metano (gás com grande potencial de aquecimento) e não deveria ser considerado “de transição”.
O acordo final da COP28 também não estabelece um prazo para a transição dos combustíveis fósseis, apesar de indicar que ela deve começar nesta década. Não faz menção, ainda, aos recursos financeiros necessários para o processo. Países pobres cobram dos ricos, por exemplo, que financiem a ação climática global, por serem eles os principais responsáveis pelo atual estado de aquecimento.
Diversos desafios dificultam a aplicação do texto na prática. Nenhum acordo firmado em COP, por exemplo, é obrigatório. A exceção é o Acordo de Paris, principal tratado global sobre o clima, que foi incorporado às legislações dos países que o ratificaram — mas, mesmo assim, não há sanções para quem não o cumpre.
Turbinas eólicas em frente a termelétrica a carvão perto de Cottbus, na Alemanha
Outro desafio é a realidade dos países. Relatório publicado em novembro pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostra que a produção de combustíveis fósseis promete ser o dobro em 2030 do que seria permitido para cumprir o Acordo de Paris. O tratado busca frear o aquecimento global a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais até 2100.
1,2°C
foi quanto a temperatura global já aumentou em relação aos níveis pré-industriais, segundo dados da OMM (Organização Meteorológica Mundial) de 2020
Os atuais planos climáticos dos países apontam para uma elevação da temperatura média global entre 2,5ºC e 2,9ºC neste século, de acordo com outro relatório do programa da ONU. Para ficarem dentro da meta de Paris, as emissões atuais terão que diminuir de 28% a 42% até 2030. Mudar esse cenário depende de transformações econômicas profundas, não só do acordo firmado na COP.
Além da convocação para a transição dos combustíveis fósseis, a COP28 teve outras decisões. O acordo final da conferência contém um trecho que determina a operacionalização de um fundo de perdas e danos para países que já sofrem impactos graves da mudança climática, por exemplo. A medida foi firmada no início da cúpula em Dubai, depois de o assunto ter se arrastado por anos.
US$ 700 milhões
é o compromisso inicial de doações de países mais ricos para o novo fundo de perdas e danos; ambientalistas consideram o valor ainda pequeno perto dos custos da mudança climática nas nações mais vulneráveis
Os negociadores também determinaram a triplicação da parcela de fontes renováveis na matriz energética global até 2030 e delinearam a chamada Meta Global de Adaptação. A medida busca apresentar uma estrutura de como países podem reforçar sua resiliência diante de eventos climáticos extremos. Ambientalistas afirmam, no entanto, que o texto ainda é vago, e as metas definidas não incluem números ou prazos.
Agricultores manejam plantação de batata danificada por onda de calor em Mosul, no Iraque
Fora isso, a COP28 teve decisões na agenda de florestas e agricultura. Mais de 150 países se comprometeram, na chamada Aliança pela Transformação de Sistemas Alimentares, a criar metas mais ambiciosas sobre alimentos em seus planos de combate à mudança climática. O acordo final da conferência também reconhece as chamadas soluções baseadas na natureza e cita o fim do desmatamento até 2030 como forma de frear o aquecimento global.
A COP28 teve como objetivo fazer o balanço do Acordo de Paris. Já a expectativa para a próxima conferência, que vai acontecer em Baku, no Azerbaijão, em 2024, é rever as atuais regras do chamado financiamento climático. Os países terão que definir um novo valor a ser destinado pelas nações ricas às nações em desenvolvimento.
A meta atual de financiamento, definida em 2009, na COP15, determina que países ricos destinem US$ 100 bilhões anuais para ações de mitigação e adaptação à mudança climática em países pobres. O compromisso nunca foi cumprido de forma integral. Em Baku, no entanto, o mundo deve discutir se irá aumentar o valor, já que o novo cenário de aquecimento demanda ações mais ambiciosas — e também mais caras.
Crianças protestam antes da abertura da COP23
Já a COP30, em 2025, será em Belém, no Brasil. Os países-membros terão que apresentar nesse ano novas metas nacionais de combate à mudança climática, ajustadas para o ano de 2035. Ambientalistas têm a expectativa de que o país articule compromissos mais ambiciosos e inclua nos acordos metas de justiça climática para povos indígenas e outros grupos vulneráveis, considerados apagados pela COP em Dubai.
O Brasil teve um papel ambíguo na COP28. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou na cúpula sobre a necessidade de eliminação da dependência de combustíveis fósseis, e a diplomacia nacional convocou outros países a revisarem suas metas climáticas, a fim de atingir a meta de 1,5ºC. A imagem do país, no entanto, ficou desgastada após o governo ter anunciado planos de explorar petróleo.
Funcionários da Petrobras trabalham no navio Anita Garibaldi, num estaleiro em Aracruz, no Espírito Santo
Lula confirmou, durante a COP28, que o Brasil se juntará em 2024 à Opep+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados), por exemplo. O presidente disse, sem convencer, que o país pode articular com o grupo a redução da dependência do combustível. Ambientalistas criticaram amplamente a decisão, que vai na contramão do combate à mudança do clima.
Outra medida anunciada durante a COP foi a realização, nesta quarta (13), de um megaleilão de petróleo no Brasil, incluindo áreas na bacia do rio Amazonas. Mais de 190 blocos dos 602 ofertados foram arrematados por 15 diferentes empresas. A produtora de gás Eneva arrematou uma área de acumulação marginal (inativada) em Manaus.
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