Expresso

Como a natureza pode ajudar a combater extremos do clima 

Mariana Vick

14 de maio de 2024(atualizado 06/06/2024 às 22h27)

Tragédia no Rio Grande do Sul motiva debate sobre medidas para evitar desastres. O ‘Nexo’ avaliou as estratégias que buscam trazer elementos da paisagem natural de volta para cidades

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FOTO: Amanda Perobelli/Reuters - 13.mai.2024Cavalo branco olha para a própria direita. Atrás dele há uma paisagem alagada.

Cavalo resgatado de inundações em Eldorado do Sul (RS)

A tragédia no Rio Grande do Sul despertou discussões sobre o que cidades como Porto Alegre podem fazer para combater desastres como o de agora. Parte das medidas sugeridas defende o uso da natureza para evitar novas inundações e enxurradas. As ações vão desde a restauração de áreas verdes até mudanças no desenho urbano para que ele seja compatível com a paisagem natural.

As chamadas soluções baseadas na natureza são uma definição nova para uma prática antiga. Elas trazem a natureza de volta às cidades para deixá-la fazer o que faz desde sempre: adaptar-se às condições ambientais da Terra, protegendo o entorno. A ideia ganhou força no contexto da mudança climática, por poder tornar o espaço urbano mais resiliente a eventos extremos do clima.

Neste texto, o Nexo explica o que são as soluções baseadas na natureza, quais medidas podem ser implementadas em cidades como Porto Alegre para torná-la menos vulneráveis a grandes tempestades e quais outros lugares do mundo já a usam. Mostra também qual é sua viabilidade e quais são os desafios para sua implementação. 

O que são essas medidas

As soluções baseadas na natureza são o conjunto de medidas que visam a “proteger, restaurar e manejar sustentavelmente ecossistemas modificados e naturais”. A expressão foi cunhada em 2016 pela organização União Internacional para a Conservação da Natureza. As ações buscam responder a desafios como a mudança climática, a escassez de água e o aumento das temperaturas.

“As chamadas soluções baseadas na natureza são um termo novo para uma solução mais antiga que a própria humanidade”, escreveram Henrique Evers e Anacláudia Rossbach em ensaio para o Nexo em 2023. “Como a natureza lidava com alagamentos? Infiltrando a água no solo, promovendo a vida e recarregando os lençóis freáticos.” Cidades de países como China, Taiwan e Portugal já implementaram projetos com base nesse princípio.

FOTO: Adriano Machado/REUTERS - 11.05.2024Homem ajuda a limpar área destruída pelas chuvas em Muçum, no Rio Grande do Sul

Homem ajuda a limpar área destruída pelas chuvas em Muçum, no Rio Grande do Sul

As soluções baseadas na natureza são consideradas alternativas às chamadas “soluções tradicionais” (também conhecidas como “infraestrutura cinza”, ou seja, obras de concreto). Diferentes projetos podem fazer parte desse conjunto de ações. Relatório de 2023 da organização da sociedade civil Aliança Bioconexão Urbana com a Fundação Grupo Boticário listou alguns deles:

Exemplos de soluções

Restauração de áreas verdes

A restauração de paisagens e florestas no entorno de mananciais  recupera áreas degradadas e traz a natureza de volta para perto dos corpos d’água. A medida busca reabilitar a capacidade da vegetação em reter sedimentos, melhorar a infiltração da água no solo, reduzir a velocidade da água e contribuir para a drenagem. Essas melhorias ajudam a evitar alagamentos e inundações.

Renaturalização de rios e córregos

A recuperação ou renaturalização de rios busca aproximá-los ao máximo de suas características originais (como seu curso e traçado original), dentro das possibilidades locais. A medida ajuda a melhorar a qualidade da água e diminui o impacto de chuvas intensas. Um dos motivos pelos quais as cidades estão sujeitas a inundações é a canalização de rios, que correm geralmente em linha reta, em ritmo mais rápido que o do seu curso original.

Parques lineares

Parques lineares são extensões de vegetação que podem ser associadas a projetos de infraestrutura. Têm várias funções, como evitar erosão e assoreamento de rios, conter inundações ou conectar fragmentos de vegetação na malha urbana. Podem também oferecer vias de transporte para ciclistas e pedestres, assim como áreas de lazer.

Jardins filtrantes

Vários ecossistemas naturais têm capacidade de purificar a água por meio de filtragem e retenção de contaminantes, como brejos e manguezais. Os alagados construídos (ou wetlands) podem tratar água contaminada por poluição antes que chegue aos corpos hídricos. A vegetação cria um ambiente favorável ao desenvolvimento de bactérias que realizam a quebra de partículas poluentes.

Jardins de chuva

Jardins de chuva são estruturas normalmente formadas por depressões no solo, preferencialmente recobertas por vegetação. Quando há chuva, eles acomodam o excesso de água, retardando sua entrada no sistema de drenagem urbana. Eles ajudam as cidades a enfrentar temporais fortes, além de possibilitarem a recarga de lençóis freáticos e melhorarem a qualidade do ambiente.

Telhados verdes

Telhados verdes são coberturas formadas por vegetação instaladas em edificações. Eles contribuem para reduzir as áreas impermeáveis das cidades e diminuir tanto a quantidade e como velocidade do escoamento superficial. Também ajudam na redução das ilhas de calor e isolam o interior dos imóveis do calor e frio, regulando a temperatura. 

Cidades-esponja

Cidade-esponja é um conceito de cidade capaz de lidar com o excesso de águas da chuva, usando diferentes tipos de soluções baseadas na natureza, associadas ou não à drenagem convencional. Podem também adotar técnicas de construção consideradas sustentáveis e novas regulamentação do uso do solo. A ideia busca tornar as cidades mais resilientes aos eventos extremos de temporal.

Quais são suas vantagens

As soluções baseadas na natureza podem ter várias vantagens em relação à “infraestrutura cinza” ou tradicional. Aliny P. F. Pires, professora adjunta da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e coordenadora da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), citou ao Nexo algumas delas. São as principais:

  • elas ajudam a conservar a biodiversidade
  • elas melhoram os chamados serviços ecossistêmicos (como sequestro de carbono, beleza estética e controle de ilhas de calor)
  • elas têm mais potencial de resiliência a condições extremas 

Ações específicas para o combate a inundações tendem a aumentar a permeabilidade do solo (em contraposição ao concreto, que favorece o acúmulo de água), por exemplo. Cada uma das soluções pode funcionar de forma diferente (algumas podem ser mais eficazes que outras, dependendo do lugar onde estiverem). Todas, no entanto, têm potencial de gerar benefícios, segundo Pires.

FOTO: Jeff Botega/Agencia RBS via REUTERS - 03.MAI.2024Estrada cortada e destruída pela enchente, vista de cima

Estrada cortada e destruída pela enchente em Lajeado, no Rio Grande do Sul

Marília Israel, assessora de Biodiversidade e Resiliência do Iclei (Governos Locais pela Sustentabilidade) América do Sul, afirmou ao Nexo que essas soluções “trazem uma abordagem inovadora para a gestão de territórios”. Elas “vêm como amadurecimento de que o uso de soluções unicamente tradicionais não é mais capaz de responder aos cenários de eventos extremos que as cidades terão que enfrentar”. Para ela, ainda assim, é importante combiná-las com as obras de engenharia.

Pires disse que adotar soluções baseadas na natureza também pode  ajudar os países a cumprir com seus compromissos de adaptação e conservação da biodiversidade. “Há um benefício político associado ao uso dessa estratégia”, afirmou. Para o Brasil, seriam “benefícios relacionados ao cumprimento de acordos [globais] que o país assumiu”.

Quais são os desafios para implementá-las

Apesar dos benefícios que costumam trazer, as soluções baseadas na natureza podem não ser suficientes para combater os riscos associados a eventos climáticos extremos em algumas cidades, segundo Pires. “Elas precisam compor um projeto de adaptação das cidades. Isso tenta garantir que os riscos climáticos de fato vão ser controlados”, disse. 

Essas medidas também podem trazer desafios em relação ao custo. Pires afirmou que, no longo prazo, elas costumam ter grande custo-benefício, mas, no curto, nem sempre. “Muitas das estratégias de implicam um processo de reflorestamento, e isso é um projeto de longo prazo, que foge das escalas do ciclo político, que é de quatro anos”, segundo ela.

“O custo vai depender da escala de cada estratégia e da quantidade de ajuste feito em cada cidade. Para pensar quanto custa, tem que pensar: onde isso vai ser implementado? Qual é a estratégia que a gente está implementando? Qual a escala de implementação que a gente vai precisar garantir para que ela seja de fato efetiva?” 

Aliny P. F. Pires

professora adjunta da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e coordenadora da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), em entrevista ao Nexo 

Pires disse que a ciência é importante nesses momentos, pois pode medir o custo-benefício de várias estratégias em diferentes cenários. Ela citou um artigo publicado em abril e do qual é coautora que avaliou o potencial de diferentes tipos de soluções baseadas na natureza no Rio de Janeiro, por exemplo. Israel, por sua vez, afirmou que o cálculo de custo não é simples:

“Não se trata de um cálculo simples, pois seria necessário dimensionar de qual universo tratamos, mas é importante lembrar que devemos levar em consideração não apenas aqueles custos da implementação do projeto, mas também os benefícios a médio e longo prazo, como melhora na saúde física e mental das pessoas que frequentam estes espaços públicos, melhora na qualidade da água, diminuição e prevenção de perdas e danos, entre outras”

Marília Israel

assessora de Biodiversidade e Resiliência do Iclei (Governos Locais pela Sustentabilidade) América do Sul, em entrevista ao Nexo 

A implementação também tem desafios de articulação entre os municípios, segundo Israel. “É necessário um olhar mais abrangente e para além das cidades ou locais passíveis de serem inundados, pois os eventos extremos podem se iniciar nas regiões mais altas (à montante) onde nascem ou se formam os rios”, disse. Essa característica, se for identificada, demanda planejamento e ações mais amplas (por bacias hidrográficas, por exemplo).

Além disso, é preciso analisar os impactos desse tipo de ação na  infraestrutura já existente das cidades, “de acordo com o porte de cada projeto e levando sempre em consideração a população e as condições locais”, segundo Israel. Para ela, um dos desafios para a implementação é a falta de informações sobre soluções baseadas na natureza entre os profissionais. “É difícil a mudança de paradigma depois de centenas de anos que as cidades vêm sendo construídas e reformadas com base na visão exclusiva da intervenção por obras que impermeabilizam o território e que buscam escoar a água em grande velocidade”, afirmou.

O que pode ser aplicado no Brasil

Várias cidades brasileiras adotam exemplos de soluções baseadas na natureza. Capitais como Fortaleza, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba estão entre as que implementaram projetos como parques lineares, jardins de chuva e jardins filtrantes. Para Israel, as iniciativas desenvolvidas por essas cidades são replicáveis, “o que permite que essas soluções sejam implementadas em maior escala”, beneficiando outros municípios.

Pires afirmou que todas as cidades brasileiras podem ser beneficiadas pela inclusão de soluções baseadas na natureza em seus planos de adaptação. O Brasil é o país mais megadiverso do mundo. “Temos naturalmente vocação para utilizar a biodiversidade, que é nosso grande ativo nacional para resolver nossos problemas”, afirmou. 

FOTO: Diego Vara/Reuters - 08.mai.2024Homem branco, de cabelos grisalhos e óculos escuros está de pé. Metade de seu corpo está submersa na água da rua, que está alagada. Atrás dele há uma placa vermelha que diz: gasolina aditivada.

Homem caminha em rua inundada em Porto Alegre (RS)

Para ela, o potencial de cada estratégia de solução baseada na natureza pode variar em cada cidade. “Há lugares mais propensos [a ter resultados mais efetivos com determinada solução]” do que outros, disse. Combinar diferentes soluções costuma ser uma medida mais efetiva do que investir em apenas uma, segundo ela. 

“É importante que a gente pense na lógica de paisagem, principalmente quando falamos de inundação”, acrescentou. “Não adianta achar que a gente vai plantar e resolver o problema da cidade sem entender o contexto da paisagem e da bacia de drenagem. Precisamos entender a integração das bacias para solucionar esses problemas”, disse. 

Outras medidas possíveis

Henrique Evers, gerente de desenvolvimento urbano da organização WRI Brasil, disse ao Nexo que as ameaças ligadas à mudança climática são variadas, por isso as soluções em infraestrutura também devem ser. “Vamos sofrer com ciclones, secas e ondas de calor, e é difícil prever tudo isso numa infraestrutura só. A infraestrutura que melhor trabalha com todas essas ameaças e traz mais benefícios é justamente a solução baseada na natureza”, afirmou.

Para ele, a reconstrução de Porto Alegre depois do desastre vai exigir mudanças de paradigma. Além de mudar a infraestrutura (da “cinza” para a “verde e azul”), é preciso repensar o acesso à terra. “[Área de risco] nunca foi um impeditivo para que a ocupação urbana e humana acontecesse. As pessoas não têm onde morar e buscam locais, muitas vezes em ocupações informais, para morar próximas às infraestruturas urbanas. Se não tratarmos isso dando acesso à terra, esse tipo de ocupação vai continuar acontecendo”, disse.

FOTO: Amanda Perobelli/Reuters - 07.mai.2024Pessoas sobem e se acomodam na parte de trás de veículo militar. O dia está claro.

Pessoas evacuadas entram em veículo das Forças Armadas após enchentes em Eldorado do Sul (RS)

A ocupação de áreas de risco também vem de grupos de alta renda, segundo ele. As ilhas do delta da foz do rio Jacuí, no Rio Grande do Sul, são um exemplo disso. “Aqui entramos em outras discussões de especulação imobiliária, negociatas e ilegalidade de fiscalização para ocupação de áreas de risco. Isso precisa mudar senão vamos continuar enfrentando o mesmo problema”, afirmou.

Além disso, as cidades gaúchas atingidas devem melhorar a preparação para eventos climáticos extremos com sistemas de alerta, planos de contingência e orientações à população sobre o que fazer em caso de novas enxurradas. “Sempre nos gabamos aqui no Brasil de não termos terremoto ou furacão. Esse tempo foi muito bom, porém, ele não nos ensinou a lidar como sociedade para um enfrentamento de crises como essa. Precisamos mudar essa cultura”, disse.

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