Como transformar São Paulo numa cidade-esponja
Mariana Vick
24 de setembro de 2024(atualizado 25/09/2024 às 13h46)Capital paulista enfrenta problemas crônicos com enchentes. Campanhas municipais debatem pouco propostas. O ‘Nexo’ analisa viabilidade de cidade implementar soluções que incorporem natureza
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Trabalhadores usam trator para deslocar veículo da prefeitura em rua alagada após fortes chuvas em São Paulo
São Paulo é a metrópole mais rica do Brasil. Ao mesmo tempo, para quando chove. O trato de seus rios e a ocupação do solo tornaram as enchentes uma realidade trágica do cotidiano de seus cidadãos, que veem surgir propostas para enfrentar o problema de forma nova e radical, como a ideia das cidades-esponja.
As cidades-esponja, assim como outras ações que incorporam a natureza, ganharam força em maio de 2024 após as fortes inundações que atingiram o Rio Grande do Sul. A tragédia gaúcha despertou discussões sobre como lidar com chuvas extremas, que tendem a se tornar mais frequentes e intensas no contexto da mudança climática.
Neste texto, parte de uma série sobre o clima e as eleições municipais, o Nexo explica o que são as cidades-esponja, por que se cogita a ideia para a cidade de São Paulo, de que forma o tema aparece na campanha eleitoral e o que há nos planos de governo dos candidatos à prefeitura. Mostra também qual a viabilidade do modelo em e o que o prefeito e vereadores podem fazer na prática.
As cidades-esponja são, na teoria, cidades capazes de lidar com o excesso de chuvas. A ideia defende o uso de diferentes tipos das chamadas soluções baseadas na natureza — associadas ou não à drenagem convencional — para absorver a água no solo. Também inclui a adoção de técnicas de construção consideradas sustentáveis e novas regulamentações do uso do solo nas cidades.
As soluções baseadas na natureza são um conjunto de medidas que visam a “proteger, restaurar e manejar sustentavelmente ecossistemas modificados e naturais”. São consideradas alternativas às chamadas “soluções tradicionais” (também conhecidas como “infraestrutura cinza”, ou seja, obras de concreto) para lidar com os eventos do clima. Além do excesso de chuvas, elas buscam responder a desafios como a escassez de água e o aumento das temperaturas.
Frequentadores do parque do Ibirapuera com seus smartphones
Diferentes projetos podem fazer parte desse conjunto de soluções. Cidades de países como China, Taiwan e Portugal já implementaram iniciativas com base no princípio de inspiração no trabalho da natureza. Além das cidades-esponja — que são uma proposta mais ampla para as zonas urbanas —, esses projetos podem incluir ações pontuais, como:
A ideia de cidades-esponja pode ser interessante para São Paulo por causa da vulnerabilidade da cidade a chuvas fortes. O processo de urbanização da capital paulista foi acelerado e desordenado, gerando, entre outras consequências, ocupações de áreas de risco e o avanço sobre fundos de vales e rios. Essas características favorecem problemas como enchentes e deslizamentos.
“A maioria das cidades, no Brasil e no mundo, foi urbanizada com base na infraestrutura cinza e na negação da natureza, na tentativa de controlá-la e até eliminá-la do ambiente urbano. São Paulo tem seus rios enterrados ou canalizados, e é uma cidade construída em grande parte nos fundos de vale, que são áreas de inundação”
Henrique Evers
gerente de Desenvolvimento Urbano do WRI Brasil, em entrevista ao Nexo
Antonio Giansante, professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, criticou a ocupação não controlada das várzeas de rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, três dos principais da cidade. “Fizemos muita coisa errada no processo de urbanização. Além disso, a gente impermeabilizou o solo da cidade”, o que dificulta o escoamento da água, segundo disse ao Nexo.
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Enchentes que param a cidade não são novas em São Paulo. Relatos desse tipo de desastre vêm de décadas atrás. A mudança do clima, no entanto, tem tornado esses eventos mais intensos e frequentes, o que agrava a vulnerabilidade de quem mora em áreas de risco e gera prejuízos cada vez maiores — principalmente de vidas.
Para o Iclei (Governos Locais pela Sustentabilidade) América do Sul, que também falou com o Nexo, a dimensão de São Paulo “eleva a magnitude dos desafios urbanos”. A capital paulista é a maior cidade do Brasil, com 11,4 milhões de habitantes, segundo o Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2022. O número equivale a quase o dobro da quantidade de moradores da segunda maior cidade do país, o Rio de Janeiro.
A campanha para a prefeitura de São Paulo tem dez candidatos: Ricardo Nunes, atual prefeito, do MDB; Guilherme Boulos, do PSOL; Pablo Marçal, do PRTB; Tabata Amaral, do PSB; José Luiz Datena, do PSDB; Marina Helena, do Novo; Altino Prazeres, do PSTU; Ricardo Senese, do UP; João Pimenta, do PCO; e Bebeto Haddad, do DC.
Nunes e Boulos estão à frente da corrida eleitoral, com 27% e 26% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha realizada entre os dias 17 e 19 de setembro. Atrás deles está Pablo Marçal, com 19% no mesmo levantamento, que tem margem de erro de três pontos percentuais. A pesquisa foi registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o protocolo SP-03842/2024.
CORRIDA ELEITORAL
A mudança climática está entre os assuntos que preocupam os eleitores paulistanos. Sete em cada dez deles (71%) a avaliam como um risco imediato para a população mundial, segundo a mesma pesquisa Datafolha feita entre 17 e 19 de setembro. Outros 23% a consideram um risco para “as pessoas que viverão daqui a muitos anos”.
5%
dos eleitores entrevistados pelo Datafolha não consideram a mudança climática um risco, e 1% disse não saber
Apesar disso, o tema tem tido pouco destaque nas campanhas, tomadas em São Paulo por ataques pessoais e agressões entre os candidatos durante os debates na TV. Em debate no SBT na sexta-feira (20), Boulos e Nunes se criticaram mutuamente ao tratar do tema enquanto apresentavam propostas. Tabata também falou no assunto:
“O mundo todo hoje se prepara com as mudanças climáticas. […] São Paulo, esses dias, ficou como a cidade mais poluída do mundo [no contexto das queimadas que atingem o Brasil e levaram fumaça para a capital paulista]. A gente viu o que aconteceu no Rio Grande do Sul. Infelizmente, a nossa cidade, no seu governo, Ricardo Nunes, parou no tempo. Não avançou”
Guilherme Boulos
candidato pelo PSOL à prefeitura de São Paulo, em debate na sexta-feira (20) no SBT
“Deputado Guilherme, sinto que você está um pouco desinformado. […] Estamos fazendo muitas coisas. A área de cobertura vegetal da cidade de São Paulo, que era de 48%, hoje é de 54%. […] São Paulo está avançando bastante com a questão climática”
Ricardo Nunes
candidato pelo MDB à prefeitura de São Paulo, em debate na sexta-feira (20) no SBT
“São Paulo teve o pior ar do mundo, o ar mais poluído por uma semana, e a prefeitura não fez nada”
Tabata Amaral
candidata pelo PSB à prefeitura de São Paulo, em debate na sexta-feira (20) no SBT
Para o Iclei, a mudança climática e o meio ambiente de forma geral têm começado a aparecer mais nos debates e discursos eleitorais em São Paulo. Apesar disso, ainda não há “a centralidade que a urgência dessa agenda exige”. Temas como os desastres que atingem a cidade aparecem, mas são tratados de forma superficial:
“Se por um lado essas discussões na campanha refletem uma conscientização crescente da população sobre a importância da preparação para eventos climáticos extremos […], por outro, de modo geral as propostas ainda são superficiais, especialmente se olhamos os planos das candidaturas à prefeitura. Faltam metas e informações sobre a fonte de recursos, por exemplo”
Iclei América do Sul
associação global de governos locais pelo desenvolvimento sustentável, em entrevista ao Nexo
Henrique Evers, gerente de Desenvolvimento Urbano do WRI Brasil, tem avaliação parecida. A organização não tem acompanhado a campanha de São Paulo, mas, de modo geral, “o tema da drenagem urbana aparece nas propostas de muitos candidatos”, disse ao Nexo. O problema é que as propostas repetem erros do passado:
“O que mais aparece são soluções que repetem os erros do passado: grandes obras de infraestrutura cinza, que suprimem ainda mais áreas verdes e permeáveis. É preciso um novo olhar para o ambiente urbano, que enxergue a natureza como parte estruturante da cidade. […] Os jardins de chuva, que São Paulo já vem implementando há alguns anos, são uma dessas soluções. As soluções baseadas na natureza, no entanto, precisam ser adotadas em escala e de forma integrada, incorporadas ao planejamento urbano”
Henrique Evers
gerente de Desenvolvimento Urbano do WRI Brasil, em entrevista ao Nexo
Nunes, Boulos e Tabata participaram entre julho e agosto de sabatinas realizadas pelo Nexo e pelo IABsp (Instituto de Arquitetos do Brasil — Departamento São Paulo) sobre propostas ligadas à mudança climática. Os três candidatos defenderam a ideia de cidades-esponja. Marçal e Datena também foram convidados para as sabatinas. Marçal não aceitou as datas disponíveis. Datena não quis participar.
O Nexo também leu os planos de governo de todos os candidatos. Entre eles, apenas dois textos — o de Tabata e o de Datena — propõem especificamente medidas inspiradas na ideia de cidades-esponja. Outros não tratam do tema de forma direta — embora defendam medidas como a ampliação de áreas verdes —, enquanto uma minoria não faz menção ao tema.
O que há nos planos de governo
Ricardo Nunes
O candidato à reeleição pelo MDB elogia ações de sua gestão e propõe medidas para combater a mudança climática e preservar o meio ambiente. Dá grande destaque a propostas de novas áreas verdes na cidade. Também fala na redução de emissões pelo transporte público e transporte escolar, na modernização da gestão de resíduos e no aumento do bem-estar animal.
Guilherme Boulos
O candidato do PSOL define a mudança climática como “um dos maiores problemas de nosso tempo”. Defende a atualização do Plano Diretor de Drenagem de São Paulo, associando obras de retenção convencionais com infraestrutura verde e “priorizando áreas permeáveis, como parques lineares, praça de infiltração, jardins de chuva e micro-reservatórios”. Também propõe a reestruturação da Defesa Civil, o aumento da arborização e a renovação dos ônibus municipais .
Pablo Marçal
O candidato do PRTB menciona o clima apenas uma vez em seu plano de governo, ao propor projetos de revitalização de áreas verdes, consideradas “essenciais para regular o clima”. Propõe, sem detalhar, políticas públicas eficientes na área ambiental e a garantia da biodiversidade de São Paulo. Fala ainda em limpar definitivamente o rio Tietê e em “transformar o lixo em riqueza”.
Tabata Amaral
A candidata do PSB propõe a criação de áreas-esponja e outras soluções baseadas na natureza em seu plano de governo, como jardins de chuva, parques lineares e telhados verdes. Fala também em criar projetos em áreas de risco, expandir sistemas de alerta em áreas inundáveis e proteger áreas de mananciais. Há ainda propostas como a eletrificação da frota de ônibus para reduzir emissões.
Datena
O candidato do PSDB reconhece a frequência cada vez maior de eventos extremos associados à mudança climática e critica a atual gestão da prefeitura. Defende a adoção de práticas baseadas no conceito de cidades-esponja e medidas como jardins, telhados verdes, canteiros, pisos permeáveis e drenantes. Também propõe ações de redução das emissões de gases de efeito estufa (por meio da substituição da frota de ônibus, por exemplo), melhor monitoramento da qualidade do ar e ampliação da coleta de lixo.
Marina Helena
A candidata do Novo critica a distribuição desigual de árvores na cidade de São Paulo e diz que dará foco especial a regiões com menos arborização, mais afetadas pelas ilhas de calor. Também propõe uma política que ofereça créditos de IPTU para serviços ambientais, como retenção de água da chuva e promoção de solo permeável. Defende ainda a substituição da frota de ônibus por veículos movidos a biometano (em vez de veículos elétricos, considerados mais caros).
Altino Prazeres
O candidato do PSTU defende aumentar o número de parques em São Paulo, equilibrando a distribuição das áreas verdes nas regiões da cidade. O plano de governo também fala em estabelecer que a gestão das áreas verdes é realizada por representantes da população. Há ainda propostas como a criação de uma empresa pública, sob controle dos trabalhadores, para a construção de infraestrutura de prevenção a desastres.
Ricardo Senese
O candidato do UP diz que é preciso avançar na despoluição de córregos e rios, construir parques lineares ao longo do seu leito e implementar políticas de replantio de árvores, apesar de não falar em enchentes ou cidades-esponja. Critica o capitalismo por gerar a mudança climática. Fala ainda em ações de saneamento e gestão de resíduos.
João Pimenta
O candidato do PCO não faz nenhuma menção a meio ambiente, a enchentes, à mudança climática ou mesmo à cidade de São Paulo em seu programa de governo. O texto do partido tem “eixos gerais, válidos para todo o país”, e diz que nas campanhas haverá “reivindicações específicas para cada cidade”. Há uma referência ao site do partido para quem quiser buscar essas informações.
Bebeto Haddad
O candidato do DC não tem plano de governo disponível em sua página no site DivulgaCandContas, do TSE. O político teve o registro de candidatura impugnado pela Justiça no começo do mês por não ter apresentado certidões obrigatórias para o registro da chapa e não ter quitado uma multa eleitoral de 2002. O DC disse que recorre da decisão, segundo o site Metrópoles.
A implementação de estratégias de cidades-esponja pode ajudar São Paulo a responder a diferentes desafios, que não envolvem só as chuvas extremas, segundo o Iclei. “A cidade enfrenta problemas significativos não só com as enchentes, mas também com as secas”, disse. O aumento de áreas verdes pode combater a escassez hídrica, aumentar a segurança alimentar e melhorar os indicadores de qualidade do ar, por exemplo.
Evers também afirmou que a ideia pode ser benéfica. Aplicá-la, no entanto, não é trivial. São Paulo tem exemplos de iniciativas que vão nessa direção — como os chamados jardins de chuva, que podem chegar a 400 áreas até o fim de 2024, segundo prefeitura —, mas implementá-la de fato “implica uma mudança profunda de paradigma desenvolvimento”:
“Imagina-se que se vá construir uma grande esponja, mas o desafio é muito mais complexo e envolve mudar a lógica de ocupação do solo urbano, de investimento em infraestrutura, de disputar espaços que são sujeitos a muitas pressões. Sem políticas públicas robustas e contínuas, não se muda o paradigma do asfalto e do concreto para (re)construir mais áreas verdes”
Henrique Evers
gerente de Desenvolvimento Urbano do WRI Brasil, em entrevista ao Nexo
Giasante afirmou que o efeito esponja “não vai resolver tudo”, e é preciso combiná-lo com outras soluções. Cidades como Fortaleza, Belo Horizonte e Campinas (SP), por exemplo, têm apostado em estratégias híbridas, que combinam as soluções baseadas na natureza com obras tradicionais de drenagem. “O solo tem uma capacidade limite de absorver água”, disse.
Desafios como o custo dos projetos podem impedir ou adiar sua criação. Em São Paulo, a densidade populacional e a falta de espaços livres podem também “complicar a aplicação em larga escala desse conceito na cidade”, segundo o Iclei. Implementá-lo “de forma bem distribuída, descentralizada mas integrada e adaptada às condições locais”, no entanto, pode ser um caminho, de acordo com eles.
Evers afirmou que o primeiro passo para implementar a cidade-esponja em São Paulo é reconhecer a natureza como parte da solução para a mudança climática. O prefeito e os vereadores podem, a partir daí, propor projetos como jardins de chuva, parques lineares e corredores de arborização para conectar áreas verdes. “Vale lembrar que é fundamental, também, priorizar o orçamento para prevenção a desastres”, no qual essas iniciativas podem ser alocadas, disse.
Para o Iclei, é importante que o Executivo local planeje as políticas públicas de forma integrada. Cidades como Caxias do Sul (RS), Salvador (BA) e Florianópolis (SC), por exemplo, implementaram pontos de ônibus com teto verde, o que integra a política de mobilidade com as soluções baseadas na natureza. Já o Legislativo, segundo eles, pode criar um ambiente regulatório favorável, com medidas como:
“O caso do Rio Grande do Sul também nos reforçou que é necessário um olhar mais abrangente e para além das cidades (ou locais) passíveis de serem inundadas, pois os eventos extremos, nesses casos, podem se iniciar nas regiões mais altas (a montante) onde nascem ou se formam os rios, demandando planejamento e ações mais amplos (por bacias)”, disse a organização.
Além das soluções baseadas na natureza, Evers afirmou que é fundamental “priorizar a questão habitacional” para lidar com os eventos climáticos extremos. “A falta de acesso à terra e moradia é o principal indutor de risco e de aumento da vulnerabilidade das populações urbanas. Não tratar como prioridade as periferias e comunidades na adaptação aos eventos climáticos extremos é tapar o sol com a peneira”, disse.
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