Extinguir é apagar um incêndio. Essa é a primeira acepção do verbo latino “exstinguere” , daí o nosso “extintor” vermelhinho. O fogo aparece exaustivamente como metáfora do amor e da vida: “que não seja imortal, posto que é chama”, reza o verso de Vinicius de Moraes; “a chama dele se apagou”, dizemos quando alguém morre. E assim o sentido de “extinguir” também se alastra, de “apagar a vida do fogo” para “apagar o fogo da vida”. Extinguir é aniquilar, exterminar, desaparecer, morrer.
Hoje, um dos maiores incêndios que o homem precisa apagar é a própria extinção: o apagamento iminente de 1 milhão de espécies de animais e vegetais do planeta. Nunca na história da humanidade tantos seres vivos estiveram ameaçados, conforme mostra o relatório lançado em maio de 2019 pela Ipbes, uma plataforma de pesquisa das Nações Unidas. Extinguir também é destingir: o mundo vai perdendo seu colorido e ficando desbotado.
Quase sempre, entendemos “extinguir” como verbo reflexivo, e isso nos leva a acreditar que as espécies se extinguem sozinhas. Ou ainda adotamos uma frase feita na voz passiva, “as espécies estão ameaçadas de extinção”, que omite o agente: ameaçadas por quem?
É mais ou menos como a tradução do título do filme “Outrage” (1950), da diretora anglo-americana Ida Lupino, que em português virou “O mundo é o culpado”. A protagonista é estuprada pelo cara da lanchonete. O mundo não é o culpado, o culpado é o cara da lanchonete. A tradução nociva dissolve a culpa e nos faz acreditar que ninguém é culpado.
As espécies não estão ameaçadas de extinção, como se isso fosse inerente a elas. Nós é que as extinguimos, à medida que a população humana cresce vertiginosamente e precisamos alimentá-la, vesti-la e provê-la de energia. Extinguir também é verbo transitivo. Conforme diz o professor alemão Josef Settele, que participa do relatório citado, “essa perda é um resultado direto da atividade humana”. É bem verdade que também somos objeto dessa extinção: enquanto extinguimos as outras espécies, extinguimo-nos. Como a chama de uma vela já sem pavio e sem cera e sem chama e sem vela.
Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.
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