Para chegar ao Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Impa, é preciso subir as montanhas verdes atrás do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O lindo prédio modernista fica encaixado na exuberância da Floresta da Tijuca, que provê de sombra e vistas um dos melhores institutos de Matemática do mundo. Foi lá que encontrei Vinicius Ramos, numa sala onde há uma mesa, um computador e duas lousas — um quadro branco e outro negro —, tudo de que um matemático puro precisa para trabalhar.
Vinicius me ensinou que subir montanhas — em sentido figurado — é o único jeito de fazer matemática séria. Como um montanhista, um matemático de ponta precisa de paciência para subir rumo aos problemas mais difíceis e desprendimento para suportar a solidão lá em cima. Ele, por exemplo, não consegue explicar sua pesquisa nem para a própria esposa: “tem umas 50 pessoas no mundo que poderiam ler um artigo que eu escrevo”. Definitivamente, não estou entre elas.
Vinicius é um dos destaques emergentes do Impa, a instituição que formou também Artur Avila, vencedor do maior prêmio da matemática do mundo, a Medalha Fields, em 2014. O Impa é caso raro de instituição brasileira de pesquisa que não fica muito a dever a nenhuma outra, em nenhum lugar do mundo. Beneficiando-se dos custos relativamente baixos de fazer matemática e de uma tradição de professores dedicados à excelência e ao ensino, o instituto atrai talentos de todo o planeta — metade dos seus pesquisadores é estrangeira. Agora, pela primeira vez, o Impa, que depende de dinheiro federal, vê-se diante de uma ameaça grave de crise financeira. Numa tarde de tempestade sobre a mata atlântica lá fora, falamos de abstração e realidade, ciência pura e aplicação e sobre como um matemático gasta R$ 1 milhão.
Cientistas do Brasil
Quem:Vinicius Ramos, 30 anos
O quê:matemático, pesquisa bilhares e a geometria de um espaço onde as coisas se movem
Onde:no Instituto de Matemática Pura e Aplicada, na beira da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro
Como:passando muito tempo dentro de sua própria cabeça, diante de um quadro negro