Dia a dia do golpe: a revolta dos marinheiros
Mariana Vick
24 de março de 2024(atualizado 12/04/2024 às 15h55)O ‘Nexo’ recupera nesta série de textos os momentos determinantes da ruptura democrática promovida pelos militares em 1964. Relembre o movimento contra o Ministério da Marinha há exatos 60 anos
Marujos lançam gorros na calçada em resistência a ordem de prisão durante a revolta dos marinheiros, no Rio de Janeiro
Era Semana Santa, como esta de 2024. Membros da antiga AMFNB (Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil) comemoravam, em 25 de março, o segundo aniversário da entidade, numa festa no Palácio de Aço, sede do Sindicato dos Metalúrgicos no Rio de Janeiro. Foi quando a chegada de uma ordem de prisão deflagrou um movimento que acirraria as tensões daquele ano de 1964: a Revolta dos Marinheiros.
Liderada por José Anselmo dos Santos, conhecido como cabo Anselmo, a rebelião consistiu na resistência de 2.000 homens à sanção determinada pela Marinha, que considerava ilegal a associação de marujos. Por dias os revoltosos ocuparam o Palácio do Aço, em protesto também por melhores condições de trabalho. O grupo aproveitou para defender as reformas de base anunciadas duas semanas antes pelo presidente João Goulart:
“Quem tenta subverter a ordem não são os marinheiros, os soldados, os fuzileiros, os sargentos e os oficiais nacionalistas, como também não são os operários, os camponeses e os estudantes. A verdade deve ser dita: quem, neste país, tenta subverter a ordem são os aliados das forças ocultas, que levaram um presidente ao suicídio [Getúlio Vargas], outro à renúncia [Jânio Quadros], tentaram impedir a posse de Jango e agora impedem a realização das reformas de base”
José Anselmo dos Santos
em discurso em 25 de março de 1964
O episódio expôs no interior da Marinha a polarização que tomava conta do Brasil. Militares identificados com o trabalhismo se opunham ao oficialato das Forças Armadas, que via em Jango uma ameaça nacional. A crise no Palácio do Aço terminou com a vitória do primeiro grupo, beneficiado por um dos últimos atos do presidente da República, que seria deposto pelos militares em 31 de março de 1964.
A festa de 25 de março havia começado no bairro de São Cristóvão “regada a guaraná e pão com mortadela”, como descreveu o historiador Flávio Luís Rodrigues em sua tese de doutorado. Estavam no evento marinheiros, fuzileiros navais, representantes sindicais e dirigentes de associações estudantis. Havia ainda dois convidados especiais: o deputado do PTB Leonel Brizola e o almirante João Cândido, ilustre líder da Revolta da Chibata de 1910.
Marinheiros associados no interior do Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio de Janeiro
A AFNMB vinha divulgando a comemoração desde janeiro em seu jornal A Tribuna do Mar. A programação duraria dos dias 18 a 25 de março, com o ponto alto no baile do último dia, conforme um anúncio publicado na época. Era o segundo aniversário da associação, criada em 1962 num contexto de politização de militares subalternos das Forças Armadas, a maioria simpática ao trabalhismo:
“Surgiram várias entidades representativas que buscavam estender aos associados — praças, cabos e sargentos — direitos a votarem em candidatos militares […]. Esses militares passaram a refletir sobre as condições sociais e econômicas de seus familiares, a maioria constituídas de trabalhadores rurais pobres […]. Criou-se uma onda […] envolvendo militares de vários matizes ideológicos, mas preferencialmente de esquerda, que encontram no trabalhismo reformista uma orientação política”
Flávio Luís Rodrigues
historiador, na tese de doutorado “Marinheiros contra a ditadura brasileira: AMFNB, prisão, guerrilha — nacionalismo e revolução?”, defendida em 2017 na USP (Universidade de São Paulo)
Quatro dias antes da festa, a Marinha, na época chefiada pelo ministro Sílvio Mota, havia ordenado seu cancelamento. A alta cúpula militar não reconhecia a AMFNB e perseguia seus diretores desde 1963, ano da chamada Revolta dos Sargentos. Os associados, no entanto, ignoraram o comando: o baile não só aconteceu, como logo virou uma assembleia, em que os marinheiros reivindicaram:
Cabo Anselmo (no centro) fala ao microfone durante a Revolta dos Marinheiros
Informado da realização do evento, Mota a considerou uma subversão da hierarquia militar. O ministro emitiu uma ordem de prisão contra seus principais organizadores e enviou ao Palácio do Aço um destacamento de fuzileiros para deter o grupo. O tiro, porém, saiu pela culatra: em vez de cumprir a medida, os fuzileiros aderiram aos revoltosos, dando início ao movimento que tomaria a sede do sindicato.
A Revolta dos Marinheiros marcou a história dos dias pré-golpe não só pelo movimento dos associados, mas pela reação de Jango. O presidente passava a Semana Santa em sua fazenda em São Borja (RS) quando o motim eclodiu. Chamado para o Rio, agiu em favor dos rebelados, o que fragilizou ainda mais seu governo diante das Forças Armadas.
Marinheiros se dirigem a fuzileiros navais no Rio de Janeiro
Os atos se desenrolaram no dia seguinte à ocupação do sindicato. Depois da adesão dos fuzileiros enviados pela Marinha, Mota enviou para o bairro de São Cristóvão cerca de 500 soldados do Exército, que aguardavam o sinal verde para efetuar as prisões. Foi quando Jango interveio, proibindo a invasão do prédio. O presidente escalou o ministro do Trabalho, Amauri Silva, para negociar um acordo com os marinheiros, que decidiram então abandonar o edifício.
Polícia do Exército durante a Revolta dos Marinheiros, no Rio de Janeiro
Um grupo de revoltosos foi preso e conduzido ao quartel do Batalhão de Guardas, do Exército, no Rio. Um dia depois, Jango decidiu soltá-los e anistiá-los, o que foi comemorado numa passeata com almirantes de esquerda carregados nos ombros, como relata o jornalista Elio Gaspari no livro “A ditadura envergonhada”. Humilhado, Mota pediu demissão, e o presidente o substituiu por um militar próximo do PCB, o Partido Comunista Brasileiro.
Marinheiros celebram anisitia com o almirante Pedro Paulo Suzano (carregado), no Rio de Janeiro
Os impactos da Revolta dos Marinheiros continuariam a ecoar nos anos seguintes do pós-golpe. Entre 1966 e 1967, ex-diretores da AMFNB foram presos e organizaram uma fuga memorável no presídio Lemos Brito, no Rio. Já cabo Anselmo, engajado na luta armada no início da ditadura, mudou de lado ao ser preso em 1971, quando passou a atuar como agente duplo, entregando antigos companheiros para o regime dos generais.
A Revolta dos Marinheiros dividiu espaço nos jornais com eventos da Semana Santa e anúncios de novas Marchas da Família com Deus pela Liberdade — cuja primeira edição havia ocorrido em 19 de março. O tema só ganhou mais destaque a partir do dia 27 de março, dois dias depois do início da rebelião. Antes, O Globo havia publicado apenas uma pequena nota sobre o movimento, enquanto a Folha de S.Paulo acompanhava os antecedentes da crise na Marinha.
A partir de então, a cobertura foi ampla. Duas capas da Folha, nos dias 27 e 28, deram destaque à demissão de Sílvio Mota e à libertação dos marinheiros depois da prisão. A edição do jornal O Globo no dia 28 também estampou a soltura dos revoltosos numa página preenchida por imagens.
Capas dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo no dia 28 de março de 1964
O Estado de S. Paulo publicou um editorial durante aquela semana sobre “a grave crise na Marinha”. A Folha também expressou opinião sobre o evento, demonstrando apreensão com o “envolvimento das Forças Armadas nas disputas políticas”. Para o jornal, a tendência “provocava debilitação do princípio da autoridade” e “expunha o país a terríveis perigos”.
Jango estava ainda mais isolado depois de anistiar os participantes da Revolta dos Marinheiros. O presidente faria sua última aparição pública no cargo no dia 30 de março: um discurso durante a comemoração do 40º aniversário da Associação dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar, no Automóvel Clube, na Cinelândia, no Rio. Um dia depois viria o golpe militar.
A história do discurso do Automóvel Clube vai ser detalhada no dia 30 de março de 2024, quando o Nexo publica mais um capítulo desta série sobre o dia a dia do golpe. O texto vai descrever o que ocorreu no dia, qual foi sua importância histórica, quais foram as reações e o que veio logo depois. Acompanhe!
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