Série

Dia a dia do golpe: o discurso de Jango no Automóvel Clube 

Mariana Vick

29 de março de 2024(atualizado 12/04/2024 às 15h56)

O ‘Nexo’ recupera nesta série de textos os momentos determinantes da ruptura democrática promovida pelos militares em 1964. Relembre o último ato público do presidente derrubado há exatos 60 anos 

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FOTO: Divulgação/Dossiê JangoImagem em preto e branco mostra homem branco, adulto, falando ao microfone, com outros homens atrás.

João Goulart discursa no Automóvel Clube, em 30 de março de 1964

João Goulart provavelmente não sabia — mas talvez desconfiasse — que na noite de 30 de março de 1964 faria seu último ato público como presidente: um discurso no Automóvel Clube, no Rio de Janeiro, em comemoração do 40º Aniversário da Associação dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar do estado.

Jango estava nervoso para a ocasião, como contaram relatos publicados na imprensa anos mais tarde. O governo estava em crise com as Forças Armadas, deflagrada cinco dias antes com a Revolta dos Marinheiros. A anistia do presidente aos revoltosos fora interpretada como incentivo à quebra da hierarquia militar, e a presença num evento das baixas patentes poderia parecer uma nova provocação.

Apesar disso, Jango foi ao Automóvel Clube. Ovacionado pelos cabos e sargentos da plateia, o discurso forte do presidente a favor das reformas de base foi a senha final para que oficiais inclinados ao golpe dessem início à conspiração, após dias de tensões sucessivas. Assistindo ao evento de casa, na praia do Flamengo, o senador Ernâni do Amaral Peixoto teria dito naquela noite: “o Jango não é mais presidente da República”.

O que aconteceu naquele dia

Jango estava reunido com aliados no Palácio das Laranjeiras, usado como residência oficial no Rio, quando discutia a ida ao Automóvel Clube. O deputado Tancredo Neves, líder do governo na Câmara, e o secretário de imprensa da Presidência, Raul Ryff, tentavam dissuadi-lo da ideia. “Deus faça com que eu esteja enganado, mas creio ser este o passo do presidente que irá provocar o inevitável, a motivação final para a luta armada”, teria dito Tancredo naquela noite.

Goulart começou a discursar às 22h18. O salão estava lotado. Exaltado, o presidente voltou a defender a necessidade de reformas de base — mesmo tema de seu comício na Central do Brasil, no dia 13 de março —, citou a crise com as Forças Armadas e desafiou os militares: 

“Quero afirmar, claramente, nesta noite, na hora que, em nome da disciplina, se estão praticando as maiores indisciplinas, que não admitirei que a desordem seja promovida em nome da ordem; não admitirei que o conflito entre irmãos seja pregado e que, em nome de um antirreformismo impatriótico, se chegue a conclamar as forças da reação para se armarem contra o povo e contra os trabalhadores”

João Goulart

presidente da República, em discurso no dia 30 de março de 1964 

Jango apelou para que os sargentos “não aceitassem sectarismos, partissem de onde partissem”. Falava de forma dura, com a expressão irada, abandonando o discurso escrito para improvisar frases cada vez mais fortes. Estava mais agitado que o normal — efeito da mistura de whisky com remédios —, como contou em 1994 o jornalista Jânio de Freitas:

“Abatido, muito nervoso, [Jango] relutava [no Palácio das Laranjeiras] em ir ao encontro de um pessoal que andava exaltadíssimo e vinha tomando atitudes de audácia crescente. […] Fracassados os argumentos em contrário, [o jornalista] Samuel Wainer deu a Jango um produto estimulante, uma das chamadas bolinhas, de que era consumidor habitual na sua vida agitada. […] O efeito animador da primeira bolinha levou à ingestão de mais uma, no carro, já a caminho do clube”

Jânio de Freitas

jornalista, em coluna no jornal Folha de S.Paulo de 27 de março de 1994

Encerrado o discurso, a repercussão das falas de Jango foi rápida. Às 22h57, como contou um material de 2014 do jornal Folha de S.Paulo, o Departamento de Estado americano determinou aos consulados no Brasil que informassem a Washington qualquer desenvolvimento significativo envolvendo resistência militar ou política de Goulart. Já às 23h42, o então presidente Lyndon Johnson recebeu um telefonema de seu secretário de Estado, Dean Rusk: “a coisa pode estourar a qualquer momento”.

A importância histórica daquele dia

Grande parte dos autores considera o discurso do Automóvel Clube o mais radical de Jango pré-golpe. Oficiais das altas patentes reprovaram os ataques à disciplina militar feitos pelo presidente e viram quebra de hierarquia na sua relação direta com os praças. Mesmo nos setores até então legalistas das Forças Armadas faltaram argumentos contra a deposição.

“Estava generalizada a convicção de que o discurso indicara faltar pouco para alguma iniciativa extremada de Jango”, escreveu Jânio de Freitas em 1994. Falava-se na época no “dispositivo militar” do presidente, suposta estrutura montada dentro das Forças Armadas para sustentar as reformas barradas no Congresso. Oficiais temiam que o governo acionasse o tal dispositivo com apoio das baixas patentes — o que nunca aconteceu, mesmo no momento do golpe.

FOTO: Reprodução/Correio da Manhã/Arquivo NacionalImagem em preto-e-branco mostra homem caminhando, de perfil. Em volta dele há vários outros homens, inclusive vários militares.

João Goulart no Automóvel Clube, em 30 de março de 1964

As descrições sobre o discurso daquele dia são várias: de “suicídio político”, como descreveu o historiador David Ricardo Sousa Ribeiro em sua dissertação de mestrado, a “beligerante oração de despedida”, nas palavras de Thomas Skidmore, autor de “Brasil: de Getúlio a Castelo”. Jango “recusou-se a fugir à responsabilidade dos ataques à disciplina militar” no Automóvel Clube, escreveu o americano.

Por outro lado, o golpe provavelmente viria de qualquer forma. O discurso exaltado de Jango apenas antecipou uma conspiração planejada desde dias antes, segundo historiadores. Militares de Minas Gerais haviam se reunido para discutir o levante em 28 de março, por exemplo, e no grupo do general Castelo Branco (que viria a ser o primeiro chefe do regime militar) a derrubada do presidente já estava marcada para 2 de abril.

Como a data repercutiu

A capa do jornal Folha de S.Paulo na edição de 31 de março de 1964 fez referência ao “violento discurso” de Jango no Automóvel Clube. O editorial “Marinha: o bom caminho” comentou a abertura de inquéritos para apurar os atos da Revolta dos Marinheiros. Para o jornal, a anistia de Jango aos marujos dias antes havia dado um “prêmio aos rebeldes” e estimulado a indisciplina.

Montagem de fotos mostra duas capas de jornais, lado a lado.

Capas dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo de 31 de março de 1964

O jornal O Globo também pôs o discurso de Jango no topo da primeira página. Dentro dos cadernos, diferentes notícias disputavam espaço com o relato do evento no Automóvel Clube: “Líder do PTB desmente tentativa de golpe”, “Goulart tolerou a expansão do comunismo, diz relatório do Departamento de Estado”, entre outras. O editorial do dia dava apoio às Forças Armadas:

“Se unem todos os brasileiros democratas, sem distinções partidárias, na esperança de que os fatos que tiveram lugar na Marinha de Guerra não assinalem o início do fim, mas, pela indignada e justificada reação que provocaram, signifiquem o fim de um estado de coisas que só nos pode levar à anarquia e à guerra civil”

O Globo

no editorial “A nação unida às Forças Armadas”, de 31 de março de 1964

O jornal O Estado de S. Paulo reforçou as críticas ao presidente no dia 31, embora sem citar o discurso no Automóvel Clube — o foco ainda estava na crise da Marinha. Para o veículo de imprensa paulista, a atitude do presidente com os marinheiros revoltados havia sido insólita. Em outro editorial, o Estadão lembrou que haviam sido motins de marinheiros “o sinal para o início das revoluções comunistas” na Europa após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

O que veio logo depois 

Mal haviam passado 24 horas do discurso no automóvel clube quando a conspiração contra Jango tomou forma. Às 5h06 do dia 31 de março, o general Olympio Mourão Filho, chefe do 4º Exército, em Minas Gerais, acionou um levante militar com destino ao Rio. Era o início do golpe que levaria à deposição do presidente e a 21 anos de ditadura.

Essa história vai ser detalhada neste domingo (31), aniversário de 60 anos do golpe, quando o Nexo publica mais um capítulo desta série sobre o dia a dia daquele período. O texto vai descrever o que ocorreu no dia, qual foi sua importância histórica, quais foram as reações e o que veio logo depois. Acompanhe! 

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