Dia a dia do golpe: o levante militar que solapou a democracia
Mariana Vick
30 de março de 2024(atualizado 12/04/2024 às 15h57)O ‘Nexo’ recupera nesta série de textos os momentos determinantes da ruptura de 1964. Relembre a mobilização das tropas em Minas Gerais que, há exatos 60 anos, deu início à derrubada de Jango
Forças do general Olympio Mourão Filho em 1964
Começava a manhã no Rio de Janeiro. O Jornal do Brasil, edição de 31 de março de 1964, circulava nas bancas com um artigo do jornalista Carlos Castello Branco, especializado na cobertura política. Dizia o título: “Minas desencadeia luta contra Jango”, em referência a um fato que havia acabado ocorrer na madrugada daquele dia.
Olympio Mourão Filho ainda estava em casa, de pijamas, em Juiz de Fora (MG), quando acionou o levante militar. Mal havia passado a repercussão do discurso de João Goulart na noite anterior quando o general descreveu em seu diário o movimento que deflagraria. As declarações do presidente no Automóvel Clube, com ataques às Forças Armadas, haviam sido a gota d’água para provocar a ofensiva:
“Morro pobre, mas até a última hora posso andar de cabeça erguida. Viva o Brasil!”
Olympio Mourão Filho
general e chefe do 4º Exército, em trecho escrito em seu diário na madrugada do dia 31 de março de 1964
Apoiado pelo governador de Minas, José Magalhães Pinto, e por outras autoridades civis e militares, o grupo de Mourão seguiu para o Rio de Janeiro. Improvisada, a marcha poderia não ter passado de uma quartelada, como disse naquela manhã o general Amauri Kruel, de São Paulo. Hora a hora, no entanto, o cenário mudou: do grupo solitário em Juiz de Fora, veio a ampla articulação responsável por golpear a democracia.
Mourão convocou o levante militar às 5h06. As tropas foram orientadas a marchar para o Rio, com o objetivo de derrubar João Goulart, que não estava em Brasília, mas no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do presidente na capital fluminense. Acionadas por telefone, autoridades militares e civis ficaram a par do movimento no começo do dia, entre elas os governadores da Guanabara, Carlos Lacerda, e de Minas Gerais, José Magalhães Pinto.
As tropas mineiras tinham pouco armamento e demoraram horas para se mover. Mourão as havia convocado sem consultar seus pares, embora desde antes as Forças Armadas planejassem um golpe contra Jango. Sem líder nem plano para rebelar outras unidades militares, os conspiradores de outros estados foram surpreendidos, e o movimento ganhou o desprezo de oficiais pró-governo:
“São velhinhos gagás! Não são de nada”
Assis Brasil
chefe do Gabinete Militar da Presidência, em declaração sobre Mourão às 8h30 de 31 de março de 1964
Jango foi notificado do levante às 9h. Assis Brasil, chefe do Gabinete Militar da Presidência, acionou o chamado “dispositivo militar” para frear a movimentação mineira, e o Executivo fechou o aeroporto de Brasília, para tentar blindar a capital dos conspiradores sudestinos. Tropas governistas do Rio e Petrópolis foram em direção a Minas para conter os rebelados, que chegaram à divisa dos estados às 17h01.
Mapa publicado no dia 1º de abril de 1964 pelo jornal Folha de S.Paulo sobre a movimentação em Minas Gerais
Autoridades civis e militares se manifestaram para apoiar ou tentar conter o golpe durante o dia. Magalhães Pinto acusou Jango de “escolher o caminho da subversão”. Juscelino Kubitschek, ex-presidente do Brasil, tentou convencê-lo a romper com as esquerdas para acalmar as Forças Armadas. De todas as conversas, a mais decisiva foi de Jango com o chefe do Exército paulista, general Amauri Kruel:
“General, eu não abandono os meus amigos. Se essas são as suas condições, eu não as examino. Prefiro ficar com as minhas origens. O senhor que fique com as suas convicções. Ponha as tropas na rua e traia abertamente”
João Goulart
presidente da República, em declaração por telefone para Amauri Kruel, na noite de 31 de março de 1964
Kruel vinha sendo pressionado por militares golpistas a aderir ao levante desde o começo da manhã. Depois de tentar por três ligações convencer o presidente a mudar de lado — sem sucesso —, cedeu à pressão dos colegas. Para quem defendia o governo ou para quem queria depô-lo, a participação paulista no movimento era crucial: com a união de São Paulo e Minas contra o Rio, Jango estaria encurralado, e o golpe estaria feito.
Soldados legalistas em Areal, no Rio de Janeiro
Fora do Brasil, a participação dos Estados Unidos nas movimentações contribuiu para o desfecho que Jango teria. O governo de Lyndon Johnson desencadeou no dia 31 a chamada Operação Brother Sam em apoio aos golpistas. Seis embarcações foram enviadas à costa brasileira naquele dia para apoiar os conspiradores — como não houve resistência ao golpe, logo elas voltaram para casa.
110
toneladas de munição e quatro petroleiros com 553 mil barris de combustível saíram dos EUA rumo ao Brasil em 31 de março de 1964
Ao mesmo tempo que se recusou a ceder às pressões golpistas, Jango não resistiu ao levante. O presidente não deu ordem aos militares que estavam ao seu lado para abrir fogo contra as tropas mineiras, nem tomou outras decisões para desarticular a conspiração. Terminou o dia no Palácio das Laranjeiras, quando ainda estava para ocorrer o resultado da ofensiva.
A ação dos militares no dia 31 representou o início do golpe que conduziria o Brasil a 21 anos de ditadura. De 1964 a 1985, os militares atribuíram a si poderes de exceção, abrindo um período de repressão marcado pela perseguição a adversários políticos, prisões, torturas, execuções e censura à imprensa e às artes. Estão entre as vítimas do regime:
20 mil
pessoas torturadas
434
pessoas mortas e desaparecidas
7.000
pessoas exiladas
19
crianças sequestradas
8.300
indígenas mortos (por “ação ou omissão” do Estado, segundo estimativa da Comissão Nacional da Verdade)
As movimentações mineiras também precipitaram o golpe planejado pela Forças Armadas. Discutida dias antes, a deposição de Jango estava marcada para o começo de abril. Humberto de Alencar Castelo Branco, general que seria o primeiro presidente do regime militar, ligou para Mourão no dia 31 pedindo que suas tropas não fossem ao Rio — na sua avaliação, elas seriam “massacradas” por militares pró-Jango, o que não se confirmou.
João Goulart discursa no Automóvel Clube, em 30 de março de 1964
A verdade é que em momento nenhum Jango resistiria ao golpe. A queda do governo, nesse sentido, foi rápida. A deposição efetiva do presidente, no entanto, não ocorreu exatamente no dia 31, e a conspiração continuou a se dar nos dias seguintes, com a participação cada vez maior de setores civis — governadores, líderes do Congresso, empresários, associações civis, religiosas e meios de comunicação.
Fotografia de 1969 do ex-presidente dos EUA, Lyndon Johnson, observando a decolagem da Apollo 11
A participação dos Estados Unidos também contribuiu para o resultado. Temendo que o Brasil repetisse Cuba e aderisse ao bloco dos países socialistas, o governo de Lyndon Johnson não hesitou em apoiar a ruptura da maior democracia da América do Sul. O apoio ao golpe brasileiro foi o início de uma série de intervenções dos americanos em outros países do continente, como Chile e Argentina, que nos anos seguintes também viraram ditaduras militares.
Explodiram as notícias nos jornais sobre o levante. “Rebela-se contra JG o com. da 4ª região” (Folha), “oficiais estão prontos para defender regime e instituições” (Estadão), “New York Times: política do Brasil à beira do caos” (Folha). Bancos paulistas fecharam as portas, dirigentes sindicais reuniram-se em Pernambuco e a diretoria da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) entrou em sessão permanente.
“2º Exército domina o Vale do Paraíba”, disse a manchete da Folha de S.Paulo de 1º de abril. O Estado de S.Paulo, com notícias internacionais, não deu destaque na capa ao movimento de Minas. O Globo não foi publicado no dia, por ter sido invadido na noite anterior por fuzileiros (parte do “dispositivo militar” de Jango, segundo o jornal).
Capas dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo em 1º de abril de 1964
Um dos editoriais da Folha (“Discurso infeliz”) comentou o discurso do presidente no Automóvel Clube, estopim para o levante do dia seguinte. Para o jornal, a fala de Jango “justifica[va] as mais graves apreensões”. Ao mesmo tempo, outro texto (“Confiança, apesar de tudo”) afirmou que “pode o povo brasileiro confiar numa solução pacífica dos problemas da hora presente”:
“É por paz que anseia o povo brasileiro. Não quer golpes pró-governo nem golpes contra o governo. Não aplaude atitudes de indisciplina nas forças armadas — nem a indisciplina estimulada pelo presidente da República, nem a indisciplina dirigida contra o presidente da República”
Folha de S.Paulo
no editorial “Confiança, apesar de tudo”, publicado em 1º de abril de 1964
Já o Estadão recuperou os acontecimentos da Marcha da Família com Deus pela Liberdade (“S. Paulo repete 32”) no dia 19 de março em São Paulo, comparando-a com a Revolução Constitucionalista de 1932 no estado contra Getúlio Vargas. O tom foi de elogio. De acordo com o texto, as mesmas pessoas que haviam participado da manifestação semanas antes agora se expunham “ao último sacrifício em defesa da lei e do regime”.
Em reação ao início do golpe, o Comando Geral dos Trabalhadores determinou o início de uma greve em todo o país, e a UNE (União Nacional dos Estudantes) pediu a seus integrantes que fossem às ruas em apoio a Jango. O golpe militar, porém, avançou com a tomada do Forte de Copacabana pelos conspiradores e a ida do presidente a Porto Alegre, de onde partiria para o exílio dias depois.
Essa história vai ser detalhada nesta segunda-feira (1º), quando o Nexo publica mais um capítulo desta série sobre o dia a dia do golpe. O texto vai descrever o que ocorreu no dia, qual foi sua importância histórica, quais foram as reações e o que veio logo depois. Acompanhe!
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