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Dia a dia do golpe: o momento em que a ruptura se firmou

Mariana Vick

31 de março de 2024(atualizado 12/04/2024 às 15h57)

O ‘Nexo’ recupera nesta série de textos os momentos determinantes do levante promovido pelos militares em 1964. Relembre o dia em que tropas tomaram o Forte de Copacabana

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FOTO: Reprodução/Correio da Manhã/Arquivo Nacional/Wikimedia CommonsImagem em preto-e-branco mostra três militares. Um deles olha na direção da câmera.

Militares no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro

Primeiro de abril. Dia da mentira, e também dia de consolidação do golpe. Depois do levante militar iniciado na madrugada do dia 31 de março em Minas Gerais, apoiado pelo chefe do Exército de São Paulo menos de 24 horas depois, o começo do novo mês foi marcado por uma profusão de reações, protestos e repressão, como que anunciando a cara do regime que começava.

Faltavam alguns passos, na verdade, para efetivar o golpe. João Goulart não estava deposto de fato da Presidência no começo de 1º de abril. A ruptura democrática avançou à tarde, no entanto, com a tomada do forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde Jango estava desde o dia anterior e de onde saiu com destinos a Brasília e depois Porto Alegre.

Aliados do presidente, como o deputado federal Leonel Brizola, tentaram organizar um movimento de resistência à deposição. Luís Carlos Prestes deixou militantes do Partido Comunista de sobreaviso, e o parlamentar Rubens Paiva apelou na Rádio Nacional a favor do presidente. Os alicerces do governo, no entanto, não pararam de cair: foi o que bastou para abrir espaço à ditadura que deixaria o Brasil apenas 21 anos depois.

O que aconteceu naquele dia

Amauri Kruel, chefe do Exército paulista, mal havia aderido ao levante iniciado em Minas quando entraram em cena outros dois importantes personagens do golpe: os generais Humberto de Alencar Castello Branco e Artur da Costa e Silva. Não é como se nos dias anteriores eles não tivessem participado das conspirações. Mas foi em 1º de abril que os dois recorreram a suas armas — o telefone — e dispararam ligações para levantar unidades militares contra o governo no Rio. 

Jango ainda estava no Palácio das Laranjeiras, residência oficial na capital fluminense, quando o dia começou. Militares que até então estavam a seu lado, como o ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, voltaram a pressioná-lo a romper com a esquerda para frear a ruptura. Não adiantou: o presidente recusou mais uma vez os termos, e Jair disse que a partir dali mudaria de lado. 

FOTO: Reprodução/Correio da Manhã/Arquivo Nacional/Wikimedia CommonsImagem em preto-e-branco mostra militares marchando na estrada. Ao lado deles, há um ônibus.

Deslocamentos de militares no Vale do Paraíba durante o golpe de 1964

As traições a Jango foram cruciais para o avanço do golpe. Às 16h, cinco tanques que defendiam o palácio do governo no Rio deixaram o posto e foram à sede do governo da Guanabara, onde residia Carlos Lacerda, forte opositor do presidente. Uma hora depois, Pery Bevilacqua, chefe das tropas cariocas, anunciou a união aos Exércitos paulista e mineiro. 

Horas antes, havia sido transmitida na TV Rio uma das cenas emblemáticas daquele 1º de abril: a tomada do QG da Artilharia de Costa, vizinho ao Forte de Copacabana, por estudantes rebelados da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Castello Branco apareceu no forte às 17h45, homenageado como se fosse ministro. O general responsável pelo novo levante contra o governo recebeu uma salva de 24 tiros de velhos canhões. 

FOTO: Reprodução/Correio da Manhã/Arquivo Nacional/Wikimedia CommonsImagem em preto-e-branco mostra militares sobre blindado, com armas em punho.

Blindado em frente ao Ministério da Guerra

Jango havia deixado o Rio no começo da tarde, aconselhado por aliados. “Vou para Brasília. Isto aqui está se transformando numa ratoeira”, teria dito a seu secretário de Imprensa, Raul Ryff. Da capital federal — onde o Congresso também conspirava contra o governo — foi logo para Porto Alegre, recebido por Brizola, que garantia que ali as tropas eram fiéis — aviso inútil, dado que, assim como em 31 de março, Jango não quis reagir: 

“Quando eu o encontrei em Porto Alegre, disse que tínhamos milhares de soldados para colocar nas ruas e defender a legalidade, e o general Ladário Teles [comandante do 3º Exército, em Porto Alegre] disse que tinha armas para munir 11 mil civis. Mas ele não quis resistir” 

Leonel Brizola

deputado federal e aliado de jango em 1964, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo 

“Eu não sou revolucionário, o revolucionário é o Brizola aí. Vocês se acertem com ele”

João Goulart

presidente da República, em declaração que teria dado a um tenente no momento do golpe após ser pressionado a resistir

Fora dos quartéis, aliados a Jango não faltaram. O Comando Geral dos Trabalhadores determinou greve geral em apoio ao governo, e a UNE (União Central dos Estudantes) pediu a seus integrantes que fizessem atos públicos de resistência. Os atos, no entanto, tiveram intensa reação: houve o incêndio da sede da UNE no Rio e a prisão, em Pernambuco, do governador Miguel Arraes, entre outros eventos que derrubaram os janguistas.

A importância histórica daquele dia

Transmitida ao vivo na televisão, a tomada do Forte de Copacabana ajudou a consolidar o golpe militar. Assim como outras desde o dia 31, a ação foi rápida e não houve troca de tiros. Mas as imagens bastaram para transmitir à sociedade brasileira a convicção de que a normalidade institucional havia acabado — o que se refletiu no cotidiano

  • os bancos fecharam suas portas
  • houve corrida por alimentos e combustível
  • TVs em São Paulo sofreram censura prévia do governo estadual
  • a estrada de ferro Santos-Jundiaí parou
  • um jogo do Torneio Rio-São Paulo no Pacaembu foi cancelado
  • aumentou o policiamento ostensivo em Brasília

O impacto do dia 1º foi tão grande que gerou uma disputa sobre a memória do golpe de 1964. Para parte dos historiadores, a data que melhor define o dia da ruptura democrática é essa, apesar de os primeiros movimentos militares contra Jango terem começado no dia 31 de março. Segundo o argumento, foi nesse dia que o novo regime de fato passou a valer. 

FOTO: Reprodução/Correio da Manhã/Arquivo Nacional/Wikimedia CommonsImagem em preto-e-branco mostra militares frente a frente, em um corredor.

PM depõe a arma a soldados da Aeronáutica, no Rio de Janeiro

Quem defende o dia 31 de março o faz porque, de fato, a conspiração contra o governo tomou forma na madrugada desse dia. Militares e defensores do golpe também preferem essa data porque tentam fugir de brincadeiras com o 1º de abril. Não pega bem, afinal, iniciar um novo regime de governo no dia da mentira. 

Outra característica das movimentações do dia 1º foi que elas selaram um golpe aparentemente sem violência. Elio Gaspari, autor de “A ditadura envergonhada”, no entanto, discorda da ideia — essa seria mais uma mentira do primeiro dia de abril, segundo o jornalista. Apesar da ausência de tiros entre conspiradores e governistas, o livro mostra que morreram sete pessoas em decorrência dos atos da data: três no Rio, duas em Pernambuco e duas em Minas. 

Como a data repercutiu

Assim como no dia anterior, explodiram nos jornais as notícias sobre o golpe (não chamado dessa forma na época). “Populares invadem e incendeiam o edifício da UNE” (Estadão), “assessores de Goulart admitem a derrota do governo” (Folha), “a solução rápida da crise deveu-se à ação decisiva dos generais” (O Globo). Uma página inteira de fotos do dia estampava o primeiro caderno da Folha.

As capas da Folha e do Globo de 2 de abril deram destaque a um fato que havia acontecido na madrugada: a posse do presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, como presidente interino (veja mais abaixo). O Globo escreveu no topo da página: “democracia está sendo restabelecida”. O Estado de S. Paulo não tratou do tema, priorizando notícias internacionais.

FOTO: Reprodução/Acervo Folha/Acervo O Globo/Acervo EstadãoMontagem de fotos mostra três capas de jornais lado a lado.

Capas dos jornais Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo em 2 de abril de 1964

Dentro do primeiro caderno, o jornal publicou editorial sobre a deposição de Jango, chamando-a de “grande vitória”. O 1º de abril “foi o epílogo dos fatos que tiveram início na semana santa”, com a Revolta dos Marinheiros, segundo o texto. “O triunfo alcançado está a dizer-nos que, finalmente, a democracia brasileira venceu a ditadura sob cujas estruturas a nação vegetava.”

A Folha e o Globo também publicaram editoriais elogiosos. “Não houve rebelião contra a lei, mas uma tomada de posição em favor da lei”, disse o primeiro jornal, pedindo o reencontro da “família brasileira” com a paz “no menor prazo possível”. O Globo, que não havia circulado no dia 1º, publicou dois textos (um deles planejado para sair no dia anterior): 

“Agora é a nação toda de pé, para defender as suas Forças Armadas, a fim de que estas continuem a defendê-la dos ataques e das insídias comunistas. Neste grave momento da história, quando os brasileiros, patriotas e democratas veem que não é mais possível contemporizar com a subversão […], elevemos a Deus o nosso pensamento, pedindo-lhe que proteja esta pátria cristã, que a salve da guerra fratricida e que a livre da escravidão comuno-fidelista”

O Globo

no editorial a “A decisão da pátria”, que deveria ter saído no dia 1º de abril

“Vive a nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem” 

O Globo

no editorial “Ressurge a democracia!”, publicado no dia 2 de abril 

O que veio logo depois

Madrugada de 2 de abril. Sessão extraordinária no Congresso Nacional. O presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a Presidência da República, ignorando que Jango estava no Brasil, e a Casa empossou Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, como presidente interino. 

Essa história vai ser detalhada nesta terça-feira (2), quando o Nexo publica mais um capítulo desta série sobre o dia a dia do golpe. O texto vai descrever o que ocorreu no dia, qual foi sua importância histórica, quais foram as reações e o que veio logo depois. Acompanhe! 

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