Série

Dia a dia do golpe: Ranieri Mazzilli assume lugar de Jango 

Mariana Vick

01 de abril de 2024(atualizado 12/04/2024 às 15h58)

O ‘Nexo’ recupera nesta série de textos os momentos determinantes da ruptura democrática promovida pelos militares em 1964. Relembre o dia em que o presidente da Câmara virou chefe do Executivo de forma interina

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FOTO: Reprodução/O Cruzeiro/Wikimedia Commons/Domínio públicoImagem em preto-e-branco mostra dois homens brancos, de meia idade, dando um aperto de mão.

Auro de Moura Andrade (à dir.) empossa Ranieri Mazzilli (à esq.) na Presidência em 1964

Zero hora. Sessão extraordinária do Congresso Nacional. O presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, ignora a informação de que João Goulart está no Brasil e declara vaga a Presidência da República, abrindo espaço para que a Casa emposse Ranieri Mazzilli, então presidente da Câmara dos Deputados, como novo chefe do Executivo. 

Apenas dois dias se passaram desde que tropas de Minas Gerais marcharam para o Rio com o objetivo de derrubar Jango. Apenas um se passou desde que militares tomaram o Forte de Copacabana, no momento conhecido como instante zero do golpe. A posse de Mazzilli marca a conclusão do levante civil-militar que em 1964 pôs o país em 21 anos de ditadura.

Jango estava em Porto Alegre quando soube da notícia do Congresso, ainda na madrugada de 2 de abril. De manhã, voou para São Borja (RS), vendo aliados virarem vítimas da repressão do regime que se iniciava. Ameaçado de prisão, começou a preparar o autoexílio, onde morreu, em 1976, sem ter feito o que mais queria: matar a saudade do Brasil. 

O que aconteceu naquele dia

A sessão do Congresso começou na primeira hora do dia. Auro de Moura Andrade havia recebido do então ministro Darcy Ribeiro a informação de que Jango estava no país, mas fora da capital federal, após ofensivas militares contra o governo em 31 de março e 1º de abril. Para o presidente do Senado, aquilo bastou: decidiu declarar vaga a Presidência da República, acusando o petebista de ter deixado “a nação acéfala”, apesar de sua presença no Brasil:

“O senhor presidente da República deixou a sede do governo, deixou a nação acéfala numa hora gravíssima da vida brasileira em que é mister que o chefe de Estado permaneça à frente do seu governo […] Esta acefalia configura a necessidade do Congresso Nacional, como poder civil, imediatamente tomar a atitude que lhe cabe”

Auro de Moura Andrade

presidente do Senado, em sessão do Congresso de 2 de abril de 1964

Andrade, que estava no PSD (e depois se filiaria à Arena, partido da base de apoio da ditadura militar), fazia parte da oposição a Jango no Congresso. Havia participado da Marcha da Família com Deus pela Liberdade em março e convocado militares para defender a sede do legislativo no dia anterior, em meio ao levante contra o governo. A sessão de 2 de abril selou sua adesão à deposição do petebista.

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Dela saiu empossado como presidente interino Ranieri Mazzilli, deputado também pelo PSD e então presidente da Câmara. Mazzilli era o próximo na linha sucessória da chefia do Executivo depois de Jango. Terminada a sessão no Congresso, ele, Andrade e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ribeiro Costa, seguiram para o Palácio do Planalto — não sem críticas de parlamentares de esquerda:

“O governo que se instala o faz na base da tirania e ditadura”

Fernando Santana

deputado federal pelo PCB, em declaração de 2 de abril de 1964 

Jango estava com o deputado Leonel Brizola, em Porto Alegre, quando soube da notícia, que lhe causou uma crise de choro. Eram 05h21 quando o petebista foi alertado de que tropas de Curitiba estavam marchando sobre a capital gaúcha. Temendo ser preso, voou para a fazenda Riacho Grande, em São Borja (RS), onde estava sua família, e escreveu uma nota ao Uruguai pedindo asilo, aconselhado pelo ex-ministro e general Assis Brasil.

Fora do país, o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, telegrafou a Mazzilli dando “calorosos votos de felicidade”. Em Recife, o dirigente comunista Gregório Bezerra foi preso e torturado. O general Costa e Silva, atuante no golpe contra Jango, enviou um comunicado aos militares, autonomeando-se comandante-em-Chefe do Exército. 

1 milhão

de pessoas se reuniram na “Marcha da vitória”, nova edição da antiga Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no Rio de Janeiro, em 2 de abril 

A importância histórica daquele dia

A posse de Mazzilli deu fundamentação política e constitucional ao golpe contra Jango. A sessão do Congresso mostrou, afinal, que a derrubada do presidente não havia sido uma quartelada: além da adesão militar, tinha o apoio de setores civis — neste caso, do Poder Legislativo, que, desrespeitando os fatos, ignorou a presença de Jango no Brasil e agravou a ruptura democrática.

Mazzilli teve 13 dias como presidente interino. Era a segunda vez que assumia o cargo — a primeira havia sido em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros e antes da posse de Jango. Em 1964, seu poder foi apenas formal, já que, desde o golpe, o comando do país estava de fato nas mãos de uma junta formada por três militares: 

  • almirante Augusto Rademaker, ministro da Marinha
  • general Artur da Costa e Silva, ministro da Guerra
  • brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo, ministro da Aeronáutica

Autodenominada Comando Supremo da Revolução, a junta militar teve papel importante na transição da democracia para a ditadura. Editou, por exemplo, o Ato Institucional nº 1, o primeiro do regime, no dia 9 de abril. Dois dias depois, o Congresso elegeu de forma indireta para a presidência o general Humberto Castelo Branco, ao qual Mazzilli transferiu o poder no dia 15.

Além do apoio do Congresso, o dia 2 selou a adesão de parte da sociedade civil ao golpe contra Jango, como mostrou a Marcha da Vitória no Rio. A manifestação recebeu os mesmos grupos que semanas antes haviam integrado a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo. Era o triunfo do Brasil conservador sobre as propostas de esquerda do governo derrubado pelas Forças Armadas. 

Como a data repercutiu

Repercutiram nos jornais as notícias sobre o novo governo. “Mazzili nomeou ministros; Exército tem novos chefes” (Folha), “Eleição imediata do presidente pelo Congresso” (O Globo), “Iniciada em Santos campanha em favor de Carlos Lacerda” (Estadão). Outros nomes cotados para presidente incluíam o governador de Minas, José de Magalhães Pinto, e os generais Amaury Kruel e Olympio Mourão Filho — todos atuantes no golpe.

A Folha de S.Paulo pôs na manchete de capa de 3 de abril a pressão pela nova eleição presidencial. Já o jornal O Globo deu destaque à participação maciça na Marcha da Vitória no Rio. Assim como nos dias anteriores, O Estado de S. Paulo não pôs notícias nacionais na primeira página, priorizando os fatos do exterior.

FOTO: Reprodução/Acervo Folha/Acervo O Globo/Acervo EstadãoMontagem de fotos mostra capas de jornais lado a lado.

Capas dos jornais Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo de 3 de abril de 1964

Num de seus editoriais do dia, a Folha escreveu: “voltou a nação,  felizmente, ao regime de plena legalidade que se achava praticamente suprimido nos últimos tempos do governo do ex-presidente João Goulart. E isto se fez, note-se, com mínimo traumatismo, graças ao discernimento de nossas Forças Armadas”. O jornal também alertou: 

“Voltaram automaticamente nos seus limites constitucionais as atribuições dos governadores e de todas as autoridades. Toda exorbitância, no caso, representará grave perigo, pois estará contribuindo para subverter a ordem que as Forças Armadas restabeleceram com tanto zelo” 

Folha de S.Paulo

no editorial “o Brasil continua”, de 3 de março de 1964 

Já o editorial do Globo se dirigiu ao Congresso. Para o jornal, o Legislativo deveria fornecer os meios de “limpar a administração federal e o campo sindical dos elementos comunistas neles incrustados após a deposição de Jango”. “Necessita agir bem e depressa, até mesmo para que o povo e as Forças Armadas não venham a pensar que caíram num primeiro de abril”, escreveu.

O que veio logo depois

Sete dias depois da posse de Mazzilli, a junta militar que comandava de fato o país editou sua primeira medida importante: o Ato Institucional n.º 1, ou AI-1, que permitiu a cassação (perda) de mandatos e a suspensão de direitos políticos no Brasil. Foram marcadas eleições indiretas para Presidência e Vice-Presidência da República. A cara do regime ficava cada vez mais nítida.

Essa história vai ser detalhada no dia 9 de abril de 2024, quando o Nexo publica mais um capítulo desta série sobre o dia a dia do golpe. O texto vai descrever o que ocorreu no dia, qual foi sua importância histórica, quais foram as reações e o que veio logo depois. Acompanhe! 

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